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Fernanda Toffoli
Parece ficção, seria um excelente roteiro de filme…da vida real
Ainda que o título desta história possa parecer um ato de covardia, é mais uma história de perseverança e sobretudo de valor. A história de um dos protagonistas, o soldado irlandês Patrick Fowler, começa com o estouro da Primeira Guerra Mundial, uma guerra que começou em 28 de julho de 1914 e que nenhuma das partes implicadas pensou que chegaria além do Natal daquele mesmo ano, mas que, todos sabemos hoje, durou bem mais que duas estações.
As seções de recrutamento não eram suficientes para as tantas solicitações de alistamento, e não foi necessário recorrer ao patriotismo -honra e glória foram suficientes-, todos queriam participar naquela guerra. Supostamente curta, tradicional e inclusive romântica:
– “Se eu morrer, pensem só isto de mim: que há algum canto de um campo estrangeiro que será a Inglaterra para sempre” – “O soldado” de Rupert Brooke).
Mas a realidade logo despertou estes voluntários: contínuos bombardeios, gases venenosos, a vida nas trincheiras e uma guerra que parecia não ter fim.
Patrick Fowler não era um jovem temerário ansioso para participar de uma guerra; em 1914, com 38 anos, ele já estava no exército há 19 anos e tinha servido na Índia e Egito. Em 15 de agosto de 1914 o 11º Regimento de Hussardos, do qual Patrick fazia parte, atravessou o Canal da Mancha para chegar em solo francês. Apenas 10 dias mais tarde, seu regimento entrou em batalha contra os alemães em Le Cateau.
O intenso fogo da artilharia dos alemães obrigou a companhia de Patrick a dispersar-se. Cada um se buscou a vida como pôde e Patrick acabou perdido e só atrás das linhas inimigas. Durante cinco meses vagou e subsistiu nos bosques até que exausto e quase morto de fome foi descoberto em 15 de janeiro de 1915 nas cercanias da localidade francesa de Bertry por um agricultor, Louis Basquin.
No entanto, em vez de entregá-lo aos alemães, Basquin ofereceu-lhe refúgio na casa de sua sogra, Marie Belmont-Gobert, que vivia com sua filha Angele. Bertry estava ocupada pelas tropas alemãs, de modo que decidiram que o melhor lugar para esconder Patrick, no caso de uma inspeção alemã seria dentro de um armário da cozinha, que tinha um metro e meio de altura e 50 centímetros de profundidade. Patrick teria que permanecer de cócoras, com os joelhos colados ao peito.
Mas pouco depois da chegada de Patrick à casa de Dona Marie, os alemães requisitaram repentinamente o sítio e se alojaram ali oito oficiais. Como era um sobrado de quatro cômodos, os soldados alemães instalaram-se no piso superior e no andar de baixo dormiam Dona Marie e sua filha, e também se encontrava a cozinha com o armário de Patrick e a mesa onde agora comiam os oficiais alemães.
Nosso soldado se encolhia no estreito armário sem atrever-se a fazer nenhum ruído, imóvel, permanecendo assim durante horas e horas enquanto olhava pelo buraco da fechadura como os oficiais tomavam café, almoçavam, jantavam, fumavam ou, simplesmente, conversavam fiado a escassos metros de distância do armário.
Patrick tão só saía pela noite, quando os alemães dormiam, para esticar as pernas e comer alguma coisa. Dona Marie às vezes abria uma porta do armário (deixando a outra porta fechada para que ocultasse Patrick) e assim fazer com que os alemães acreditassem que o armário estava em uso e não despertar sua curiosidade por estar sempre fechado.
Os alemães só vistoriaram e abriram o armário uma vez. Ocorreu depois do fuzilamento, em 12 de outubro de 1915, da enfermeira britânica Edith Cavell, acusada de ajudar soldados aliados a fugir, o que provocou a busca casa por casa.
Naquele dia, um capitão alemão chamou à porta de Dona Marie e enquanto ele e seus homens revistavam a casa e proferiam gritos e ameaças terríveis, ela permanecia serena, sentada em sua cadeira na porta da cozinha. Ao cabo de alguns minutos, o capitão parou diante do armário, aproximou-se e com apenas um golpe arrancou uma das portas do armário… estava vazio. Dona Marie, ao ouvir os rumores sobre as inspeções, teve um pressentimento, e nesse dia tinha escondeu Patrick debaixo de sua cama. E assim foram passando dias, meses, e inclusive anos.
Na noite de Natal de 1915 a esposa de Patrick, Edith, recebeu uma notificação do Ministério da Defesa: “Viúva de guerra”. Patrick Fowler era então um homem morto.
Um pouco antes da derrota alemã correu pelo povoado a notícia de que outro soldado escondido havia sido encontrado e fuzilado, motivo pelo qual mãe e filha decidiram transladar Patrick a um lugar mais seguro. Sob o auspício da escuridão da noite, usando um vestido de Angele, e com um xale de Dona Marie cobrindo sua descuidada barba, foi levado a um celeiro próximo onde já havia ficado algumas vezes e agora permaneceria durante um mês, até que finalmente a população de Bertry foi tomada pelas tropas britânicas em 10 de outubro de 1918.
Com os olhos fundos, muito magro, cabelo grisalho e todo amarfanhado, depois de quase quatro anos escondido no armário da cozinha, parecia que por fim seu calvário tinha terminado. No entanto, Patrick também quase foi fuzilado ao responder por uma acusação de deserção do exército, já que as forças britânicas inicialmente se negaram a crer na sua incrível história.
Finalmente foi capaz de explicar a seu regimento por que esteve ausente tanto tempo e por que lhe era impossível fugir sem colocar em risco a vida daquelas mulheres que tanto lhe ajudaram. O final feliz desta história de sobrevivência, resistência, medo e sofrimento por parte do soldado Patrick não teria sido possível sem a grande demonstração de coragem, valentia e dedicação desinteressada de duas mulheres que puseram suas vidas em perigo para proteger um desconhecido.
Em 1º de novembro de 1918 Patrick chegou à estação de trens de Devizes, na Inglaterra, onde reencontrou sua esposa Edith e suas duas filhas. Depois de 23 anos de serviço abandonou o exército e foi morar em um sítio presenteado por seu general de brigada. Ainda que viveu até os 87 anos, as sequelas físicas e mentais de tudo o que sofreu aliadas a tristeza pela morte de sua esposa depois de dar a luz a sua terceira filha acompanharam Patrick durante toda sua vida.
Em 1927 a Inglaterra reconheceu as penúrias econômicas das mulheres de Bertry que haviam arriscado suas vidas pelos soldados britânicos. O dono do Daily Telegraph publicou vários artigos para que o público conhecesse aquela história e criou um fundo de ajuda parecido com as vaquinhas on-line das campanhas de crowdfunding atuais. Organizaram, então, uma viagem a Londres das heroínas de Berty, onde o prefeito entregou o dinheiro arrecadado e foram recebidas pelos reis no castelo de Windsor. Ademais, Dona Marie Belmont-Gobert foi condecorada como Oficial da Mais Excelsa Ordem do Império Britânico.
Fonte: Marlborough News/ Grupo : Guerras Mundiais Fatos Históricos
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