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”É indispensável reconhecer que, após o ciclo dos governos militares, findado em 1985, as Forças Armadas se voltaram firmemente para a profissionalização “latu sensu”, adquirindo competências em diversos campos do conhecimento, que resultaram em extremada confiança por parte da sociedade”

OTÁVIO SANTANA DO RÊGO BARROS*
Ressurjo com tema do último artigo, É o homem que lustra o cargo, publicado em 19 de janeiro, no qual tratei do nível de responsabilidade individual dos que usam fardas e do papel de instituição de Estado das Forças Armadas, forjado em ambiente rigorosamente constitucional. Sobre a responsabilidade, alvo principal daquele texto, assevero: ações equivocadas de membros da Força não podem deslustrar a imagem da instituição. Ao cobrarmos os equívocos, “cite-se o CPF.” Tratemos, agora, do outro ponto, a postura que é defendida em nações democraticamente maduras quanto à destinação dos “homens da ordem” como administradores da violência em nome do Estado. É indispensável reconhecer que, após o ciclo dos governos militares, findado em 1985, as Forças Armadas se voltaram firmemente para a profissionalização “latu sensu”, adquirindo competências em diversos campos do conhecimento, que resultaram em extremada confiança por parte da sociedade.
Um chefe militar, a quem muito respeito e com o qual troco percepções regularmente sobre o momento que se vive, alertou-me para as diferenças fundamentais, na sua convicção, entre as Forças Armadas americanas e as Forças Armadas brasileiras, alvos de comentários no último artigo.
As nossas são idealistas e humanistas, aquelas, aristotélicas e militaristas. Que bom encontrarmos mentes brilhantes para dialogar e, ao mesmo tempo, impacientar o instinto de nossos pesquisadores para descerem fundo nos estudos da temática. Nesta singrada, cito uma passagem do Marechal Castelo Branco, extrato de uma orientação como chefe do Estado-Maior do Exército: “Os meios militares nacionais e permanentes não são propriamente para defender programas de governo, muito menos propaganda, mas para garantir os Poderes constitucionais, o seu funcionamento e a aplicação da lei”.
Percebe-se por parte daquele líder militar, malgrado o momento de fricção que se descortinava em nossa sociedade, a sua capacidade de expressar com quietude a postura de instituição de Estado esperada das Forças Armadas. Em seu livro A grande barreira (Bibliex, 1998), o coronel do Exército J.F. Maya Pedrosa também nos encaminha em direção ao comedimento quando se analisam posições políticas-ideológicas: “Não acho que cada um tenha a sua verdade própria porque ela é uma só, absoluta e imutável, mas existe uma interpretação da história de acordo com o ponto de vista de cada individualidade”.
Expõe que, no período pós-constitucional de 1988, as Forças Armadas se entrincheiraram na “estratégia do silêncio”, seguras de que o futuro traria luzes aos fatos sem os envolvimentos emocionais. A madureza dessas ações a levou-lhes a ser “protagonista silencioso(a)”, expressão cunhada pelo general Villas Bôas, antigo comandante do Exército, sem, entretanto, evoluir para imiscuir-se diretamente na gestão política. É mister compreender igualmente a necessidade de as Forças Armadas acompanharem atentamente os atos geradores da história.
A confrontação da Guerra Fria se faz ao largo, sem definição de matiz, uma película em preto e branco. Pouco importa se foi consequência de hostilidades tensionadas pelos Estados Unidos em busca de hegemonia, ou pela velha União Soviética, em seu expansionismo ofensivo. Entretanto, ainda são encontrados personagens contemporâneos que na busca de projeção política ou de afirmação de opinião —em diversos grupos sociais —, revolvem as cinzas enfriadas sobre as cicatrizes nem bem curadas.
Alguns deles, compreensivelmente, por terem sido impactados diretamente física e emocionalmente, outros com o objetivo de gerar um ambiente conflitivo de onde imaginam a possibilidade de colher dividendos. A divisão maniqueísta não promove evolução. O cimento social que dará sustentação ao nosso país passa por equilíbrio, serenidade e estilo inspirador dos formadores da consciência nacional. Recite-se como uma ladainha o discurso civilista de Ruy Barbosa, inserido no ambiente histórico de sua criação, que ainda hoje serve de moderador de comportamento a militares, no exercício de função regular de poder.
Reafirmando o meu ponto de vista, defendo a inatacável, perdão pelo oximoro, posição de instituição de Estado das Forças Armadas, serva do povo e imunizada contra a “política no Exército”. Uma premissa indelegável que seus líderes, urdidos no cadinho da servidão e grandeza militares, têm por missão manter para a estabilidade e promoção da paz social.
Paz e bem!
*General, ex-porta-voz da Presidência da República
CORREIO BRAZILIENSE/montedo.com

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