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Josias de Souza
Colunista do UOL

“Não queremos fazer parte da política, muito menos deixar ela entrar nos quartéis”, disse o comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, numa live. Com outras palavras, o que o general declarou foi mais ou menos o seguinte: Quartel não é lugar para política. E os generais que ocupam postos civis no governo de Jair Bolsonaro comandam escrivaninhas, não tropas. São obviedades. Mas no atual governo a reiteração de obviedades tornou-se uma necessidade.
A primeira parte do raciocínio do comandante do Exército reflete uma realidade. A despeito de o Exército ter sucumbido à ordem de produzir hidroxicloroquina em escala industrial, seria inadequado afirmar que a política invadiu os quarteis. Mas é imperioso constatar que a presença de generais no primeiro escalão do governo não faz bem à imagem das Forças Armadas.
Segundo a superstição que vigorou no início do governo, os generais atuariam como moderadores de Jair Bolsonaro, um capitão indisciplinado e mercurial. Aconteceu o oposto. Infectados pelos excessos do chefe, os generais sofreram um inusitado processo de “bolsonarização”.
No auge da distorção, travou-se um debate sobre o papel das Forças Armadas, previsto no artigo 142 da Constituição. No vídeo da fatídica reunião de 22 de abril —aquela em que os palavrões prevaleceram sobre as ideias— Bolsonaro disse que, com base nesse artigo, “qualquer um” dos três Poderes poderia “pedir às Forças Armadas que intervenham para restabelecer a ordem no Brasil.”
O Supremo interveio para informar que a interpretação segundo a qual as Forças Armadas seriam um Poder moderador no Brasil não passava de “terraplanismo constitucional”, na expressão cunhada pelo ministro Luís Roberto Barroso.
De repente, Bolsonaro, o vice Hamilton Mourão e o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, acharam que seria uma boa ideia subscrever uma nota contendo o seguinte aviso: as Forças Armadas “não aceitam tentativas de tomada de poder por outro Poder da República, ao arrepio das leis, ou por conta de julgamentos políticos.”
Depois disso, temendo julgamentos políticos, Bolsonaro se acertou com o centrão, aproximou-se de togas como Dias Toffoli e Gilmar Mendes, humilhou o general da ativa que comanda o Ministério da Saúde, permitiu que o general da coordenação política fosse chamado pelo colega civil do Meio Ambiente de “Maria Fofoca”.
De resto, Bolsonaro passou a praticar tiro ao alvo com o vice-presidente Hamilton Mourão na alça de mira. E transformou as Forças Armadas em piada ao ameaçar trocar saliva por pólvora nas relações com os Estados Unidos.
É contra esse pano de fundo que o general Pujol tomou distância da política. Fez muito bem. Mas o gesto não anula o estrago que o governo Bolsonaro produz na imagem do Exército e das demais forças. O presidente, aliás, foi ao twitter para dizer que concorda com o general. E fez questão de recordar que as Forças Armadas, além de observar a “hierarquia” e a “disciplina”, sempre “sob a autoridade suprema do Presidente da República.”
– A afirmação do General Edson Leal Pujol (escolhido por mim para Comandante do Exército), que “militares não querem fazer parte da política”, vem exatamente ao encontro do que penso sobre o papel das Forças Armadas no cenário nacional.

— Jair M. Bolsonaro (@jairbolsonaro) November 13, 2020
– Devem, por isso, se manter apartidárias, “baseadas na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República”.
— Jair M. Bolsonaro (@jairbolsonaro) November 13, 2020

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
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