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PONTO DE VISTA

Racine Bezerra Lima Filho*
Há algum tempo, quando eu cumpria uma Missão de dois anos nos Estados Unidos da América – EUA, tinha um vizinho do Exército Americano, Capitão dos Ran- gers, tropa especial, conhecida por quem assiste filmes de guerra.
Ao vê-lo um dia com barba crescida, perguntei se estava indo para alguma missão especial, ao que ele me respondeu ter saído do Exército.
Graduado em Estatística, estava então já gerenciando uma fábrica de utensílios de plástico.
Observando um pouco mais a fundo as políticas de pessoal do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, percebi que é normal os militares americanos serem ab- sorvidos no mercado de trabalho, quase que imediatamente após sairem do serviço militar ativo.
Os critérios principais são a capacidade de liderar equipes, em situações de pressão; planejar; estabelecer e conquistar metas, entre outros atributos que não se adquirem em pouco tempo, nos bancos escolares, e que são primordiais nas Forças Armadas.
Vi também como, naquele País, mudou a perspectiva da sociedade em relação aos militares, da Guerra do Vietnam, aos dias de hoje.
Se, nos anos 70, os veteranos de guerra sofriam com os estigmas de um conflito mal resolvido, massacrados pela opinião pública; hoje, militares fardados são aplaudidos em aviões e estádios de futebol americano.
A sociedade americana entende a importância de contar com Forças Arma- das à altura da estatura do país, assegurando a soberania, a liberdade e o bem-estar de seus compatriotas, que também lutam em outras frentes.
Raras são as famílias que não contam com um veterano ou alguém que pelo me- nos tenha servido às Forças Armadas, empregando na vida civil o que assimilou nas duras lides da Caserna.
Trazendo o pensamento para o nosso Brasil, é inevitável lembrar dos tempos de Cadete, na Academia Militar das Agulhas Negras, onde a formação se dá em duas vertentes: uma voltada para as Ciências Militares; e outra dedicada à área acadêmica, com matérias e cargas horárias em Engenharia; Estatística; Filosofia; História, Geografia e outras.
Lembro- me ainda de uma ocasião em que, na Escola de Comando e Estado-Maior, em 1992, ouvi de um Ministro da Aeronáutica uma resposta interessante após uma palestra.
Alguém perguntou sobre eventual evasão de pilotos, diante do fato de ganharmos muito pouco à época, e ele respondeu que um piloto da Aeronáutica era formado com recursos de impostos dos brasileiros, portanto se fosse para a iniciativa privada estaria também servindo ao País.
Por outro lado, sendo vocacionado, dificilmente abandonaria a Profissão das Armas.
E era verdade.
Na época, se comentava que um piloto de F-5 ganhava menos que um ascensorista do Senado.
Juntando essas realidades, vemos que nossos militares na reserva têm as mesmas qualidades dos americanos.
E porque não são absorvidos de imediato pelo mercado de trabalho, como nossos irmãos do Norte, se têm as mesmas ou mais competências?
Porque o termo sociedade civil, como se houvesse uma militar, e como se não fossem os militares civis fardados?
Porque os questionamentos quando militares na reserva ocupam cargos públicos, sendo eles também cidadãos, de Comprovada capacidade e valores patrióticos arraigados?
Se iluminarmos, na linha do tempo, a década de 70, vamos encontrar o mundo mergulhado no conflito Leste-Oeste.
Sem entrar em outros temas, como o Gramscismo, por exemplo, vamos encontrar nossas Forças Armadas, naquela quadra da História, empenhadas em resolver nossos desafios, sem interferência estrangeira, seja da URSS ou dos EUA, impedindo que nosso país se in- cendiasse e que perdesse-mos nossas liberdades.
E sairam vitoriosas.
Mas outro conflito silencioso se iniciou, dirigido ao prestígio dos militares, à imagem das Forças e seus orçamentos.
Após uma campanha de décadas, os brasileiros se deram conta e reagiram, revelando muita confiança em suas Forças Armadas, a despeito do bombardeio de idéias.
Se hoje a imagem é a de Instituição mais respeitada pela população, ainda assim, aparecem vez em quando, algumas vozes contrárias aos militares, na reserva, ocupando cargos “de civis”, o que é uma impropriedade, pois os tais cargos são destinados a cidadãos brasileiros, incluindo obviamente militares e civis.
Vemos assim que ainda dá alguma repercussão usar discursos do tempo da Guerra Fria.
Talvez alguém ainda os escute. Seguramente a maioria já aprendeu a distinguir bem intencionados de aproveitadores de ocasião.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, a Harley-Davidson, símbolo da indústria americana, esteve à beira da insolvência nos anos 80, reagiu e, hoje, em cada “Dia dos Veteranos”, comboios de milhares de motociclistas, em motos dessa marca, acorrem a Washington – DC, onde desfilam justamente em frente a uma parede onde se encontram os nomes dos militares caídos no Vietnam – “Ride to the Wall”.
Por toda a cidade, famílias agitam bandeiras nacionais a cada motociclista que passa, muitos deles veteranos daqueles tempos difíceis em que jovens morriam em prol de ideais de liberdade e democracia e não eram reconhecidos.
Há quem conteste esses argumentos, e assuma preferência por países comunistas, mas, se o outro lado fosse bom, porque cubanos se aventurariam a morrer em jangadas improvisadas, para fugir do “paraíso cubano”?
Porque milhares de Venezuelanos acorrem a Roraima, famintos e sem esperança?
A sociedade americana se reconciliou com ela mesma e não é a primeira vez na história.
Oxalá possamos nós também nos reconciliarmos com nossos valores, prestigiando nossos símbolos nacionais ndo de nossa história, e desprezando quem tenta atacar quem nos defendeu e defenderá sempre de vasto leque de ameaças.
No Brasil Império, contra os invasores e ameaças separatistas; na Segunda Grande Guerra, contra o fascismo e o nazismo; nos anos setenta, internamente, contra o comunismo, que assassinou milhares de inocentes em todo o mundo; e hoje, além da Defesa Externa, também contra ameaças difusas, como a corrupção, cujo antídoto é a, por alguns temida, honestidade; o crime organizado transnacional; os desastres naturais; a insegurança alimentar no Nordeste e na Amazônia; os ataques ao meio ambiente e às populações nativas; a carência de infraestrutura; e tantas outras que requerem o emprego de meios militares, mas também ações que demandam o concurso de pessoas que, muito bem formadas, já na reserva, aprenderam, sob pressão e face à adversidade, a liderar, gerir, cuidar de pessoas, conquistar objetivos, e respeitar e proteger religiosamente o Erário, constituído pelos impostos dos brasileiros.
BRASIL ACIMA DE TUDO
*General de Divisão R/1, Ex-Comandante Militar do Planalto
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