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João Batista dos Reis Moreira*
Há alguns dias apareceu uma pequena declaração do Presidente da República (mais tarde descobriu-se que era do ano passado) soltando uma piadinha de mau gosto, bem ao estilo milico, sobre colocar os militares (ele deve ter se esquecido de que ele também é um) no regime geral de previdência. Uns ficaram chocados, outros boquiabertos e sem ação e alguns indignados. Mas quem são esses?
Antes de qualquer argumento, alguns marcos deveriam ser estabelecidos. Parece que a maioria dos habitantes da caserna e seus congêneres ajudaram o capitão paraquedista a dar o seu mais bem sucedido salto na vida política brasileira. Mas se esqueceram aqueles, ou presas de uma lua de mel intoxicante como o poder, fingiram não querer ver, que o seu “mito” era setenta por cento deputado e só trinta por cento capitão.
Mas isso ainda não diz tudo sobre a nossa claque embasbacada e desiludida. Se muitos militares elegeram o atual governo, não é temerário dizer que a maioria esmagadora foi da suboficialidade – até por questão de quantitativo. Há muito menos oficiais nos quartéis. E também não é segredo que estes mesmos oficiais, sendo prudentes, sofisticados e positivistas até os ossos, são discretamente infensos a atrações míticas por quem quer que seja, principalmente se o alvo da atração ainda não ganhou o pleito. Depois da vitória, somos todos “Bolso(naro)”!
Um pouco diferentemente funcionam os componentes dos “estamentos inferiores” (nomenclatura politicamente correta para militares de segunda classe, chamados de praças). Dedicaram-se (os que se propuseram a isso) a sair a campo (que se saiba de cara e coração limpos) para que um lídimo representante dos aquartelados (supunha-se-o lídimo!) fosse alçado ao mais alto cargo do Estado brasileiro. Ainda atolada pelo tsunami de lama moral e econômica provocado por mais de trinta anos de desgoverno canhoto, a população viu com bons olhos a eleição de um militar para a Presidência do Brasil. O conhecido movimento pendular da História.
Ingenuamente essa base militar robusta e pretensamente patriota viu na vitória de Jair Bolsonaro não só a chance de tentar moralizar a alta Administração pública (fazendo valer um dos motes mais proferidos nos quartéis: “o exemplo deve vir de cima”, etc.), mas também de tentar uma derradeira oportunidade de trazer para os holofotes do debate público o drama das FFAA. Anos de sucateamento material, evasão de pessoal, salários sempre defasados e um prestígio não conversível em capital, que só se refletia em pesquisas inúteis de opinião pública.
Mas eis que o capitão só o é no imaginário dessa gente saudosista! Político há quase trinta anos, o atual Presidente de há muito se descolou do teatro de operações e lamúrias que são os porões da vida militar. Não se sabe se a convivência do ex-guerreiro alado com o andar de baixo da milicolândia, durante tantos anos de corpo a corpo à cata de votos, fê-lo absorver um pouco da ingenuidade inerente aos comandados, ou se cinicamente – aqui também com prudência e sofisticação – transmitiu aos comandantes militares as linhas mestras da litania neoliberal que configuraram o segundo beijo de Judas nos rostos já enrugados dos veteranos brasileiros, condenando-os a serem de novo “deixados para trás”.
O primeiro beijo veio de um socialista progressista declaradamente anti FFAA (FHC*) – a “MP do mal” 2.215, de 2001. O segundo beijo, que parece se prestar a desiludir de vez a tropa de pijama, foi a “Lei perversa” 13.954, de 2019. A diferença entre os dois? No ideário compartilhado, nenhuma diferença; o objetivo comum é bem claro, qual seja, punir com o desprestígio o pessoal da reserva simplesmente por estarem na reserva. Na prática – e esse parece um aprimoramento que envergonharia Calabar – punir bis in idem o pessoal da reserva por terem apoiado e trabalhado pela eleição de um ex-militar.
Diz-se nos quartéis que a “arma que mata graduado tem divisa no cano”. Nem sempre…
*Suboficial da reserva(FAB)

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