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No domingo, presidente Jair Bolsonaro declarou que as Forças Armadas estão ao lado do seu governo

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo
Na segunda-feira, 4, 24 horas depois da manifestação antidemocrática em Brasília, do apelo por uma intervenção militar no País e das declarações ameaçadoras do presidente Jair Bolsonaro, a tropa estava na rua: logo cedo, cerca de 30 mil homens e mulheres das Forças Armadas deixaram suas bases para montar hospitais de campanha, transportar suprimentos médicos, distribuir refeições de emergência, organizar serviços de atendimento, instruir equipes hospitalares e desinfetar instalações de uso público – estações de transporte coletivo do Rio, por exemplo. Para o efetivo de ação, a guerra real é contra o novo coronavírus.
A tese do golpe político, fortemente rejeitada pelo generalato do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, também não está na pauta da oficialidade média, de capitães a coronéis. São eles os que mantêm o controle direto dos quadros de combate; responsáveis pelo treinamento, preparo, equipamento, administração e prontidão das forças. Para esse pessoal, raramente ouvido na tomada de opinião do setor, a nota oficial de 11 linhas emitida no início da tarde pelo ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, “podia ter uma linha só, a primeira”, disse ao Estado o comandante de um batalhão de infantaria do Sul do País. O texto citado limita-se a declarar que “as Forças Armadas cumprem sua missão constitucional”.
Outro oficial, da mesma patente, lembrou que, em uma organização regida pela disciplina e pela hierarquia, “não pode haver dúvida a respeito dos objetivos a serem alcançados e da meta a ser atingida – no momento, as etapas da campanha e a derrota da pandemia”. Para o coronel, as mais de 7 mil mortes registradas oficialmente “caracterizam baixas de zona de conflito”.
Militares não gostam da exceção. Trabalham com grande previsão e preferem estar adiante dos fatos. Um oficial da Força Aérea, crítico de certas decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), que considera “intromissões do Judiciário na competência exclusiva do Poder Executivo”, como a suspensão da expulsão de diplomatas venezuelanos, sustenta, entretanto, que “esse é um jogo que deve ser decidido na quadra da democracia”. Ele lembra que, no momento em que os manifestantes ocupavam a avenida diante do Palácio do Planalto, no domingo, a aviação militar completava uma série de voos para Manaus e Macapá levando toneladas de aventais, luvas, máscaras, gorros, medicamentos, ventiladores e respiradores mecânicos para aliviar o colapso no atendimento aos infectados pela covid-19 no Amazonas e no Amapá. “Agora, isso é o que conta”, afirmou. Para um capitão da força naval, “há um fator na teoria do golpe que é insuperável: quem paga a conta?”, analisou.
O ESTADO DE SÃO PAULO/montedo.com

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