Escolha uma Página

Ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo deve se reunir com diretor da empresa para se opor a eventual acordo

Talita Fernandes
Gustavo Uribe
Daniel Carvalho
BRASÍLIA
Um eventual acordo da Embraer com a China, que tem sido avaliado pela equipe econômica​, conseguiu unir dois núcleos do governo que costumam ser antagônicos.
A cúpula fardada e o g​rupo ideológico iniciaram uma ofensiva para convencer o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) a não iniciar uma negociação com o país asiático.
O movimento mais incisivo tem sido feito pelo chanceler brasileiro, Ernesto Araújo. Ele deve se reunir nesta semana com representantes da Embraer.
Internamente, de acordo com integrantes do governo, o chanceler já trabalha para evitar que as tratativas com o país asiático possam ter sucesso.
A negociação com a China é vista com reserva pelos militares e pelos ideológicos.
O chanceler Ernesto Araújo é um dos principais nome contra um eventual acordo – Luis Echeverria/Reuters
Araújo faz parte do segundo grupo, que acumula incidentes diplomáticos com o país asiático, como publicações feitas por um dos filhos do presidente Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e pelo ministro Abraham Weintraub (Educação).
Para os dois núcleos, o setor de tecnologia aeroespacial é estratégico para a proteção do país. Por isso, o compartilhamento de tecnologia pode fragilizar a defesa aérea do Brasil.
Além disso, dizem que, apesar de ser o maior parceiro comercial do Brasil, a China​ é um país que não costuma respeitar regras de transparência internacionais. Desse forma, o país pode fazer uso político de informações sensíveis.
Para os ideológicos, um acordo com a China também pode fortalecer a relação bilateral com o Brasil. Isso colocaria em risco a boa relação que o país tem hoje com os Estados Unidos.
A hipótese de negociações com empresas da segunda maior economia do mundo foi levantada pela equipe econômica em meio às discussões sobre o futuro da Embraer. A empresa iniciou batalha com a Boeing.
A China passou então a ser vista pela equipe de Paulo Guedes como uma saída. Essa opção, porém, não é unânime no grupo.
A disponibilidade de recursos e o potencial de crescimento do mercado asiático são apontados como facilitadores desse processo.
De acordo com relatos, esse ponto de vista tem o apoio tanto do vice-presidente Hamilton Mourão como da ministra da Agricultura,Tereza Cristina.
Embora não haja uma diretriz concreta por parte do governo sobre os próximos passos, para membros do time de Guedes, mostra-se favorável o fato de a China estar em plena expansão desse mercado, enquanto os mercados dos Estados Unidos e da Europa já estão mais maduros.
O governo chinês tem uma estatal que produz jatos para voos regionais, a Comac (Commercial Aircraft Corp of China). A empresa tenta competir nesse mercado e já fez parcerias com gigantes mundiais.
Nesta segunda-feira (27), Bolsonaro disse que o Brasil poderá negociar com outra empresa. Ele, porém, não deu detalhes.
“Estamos avaliando. Tem golden share, é minha, eu assino. Se o negócio for desfeito, talvez se recomece uma nova negociação com outra empresa”, disse ao lado de Guedes na saída do Palácio da Alvorada.
No fim da tarde, em videoconferência com uma consultoria política, Mourão mencionou a possibilidade de se negociar com a China.
“A China é o país que, no presente momento, é que está expandindo este tipo de aviação”, afirmou.
“Então, é um momento em que a Embraer poderá se aproximar. Nós já temos penetração no mercado local com aeronaves da Embraer, e isso poderá ser aprofundado”, disse Mourão.
A compra da área de aviação civil da Embraer pela Boeing, maior negócio aeroespacial da história brasileira, foi cancelada.
O noivado iniciado em 2017 acaba como um divórcio litigioso, com a fabricante paulista acusando a gigante americana de deslealdade e prometendo ir à Justiça.
O anúncio foi feito na manhã de sábado (25) pela empresa americana, que afirmou ter rescindido o contrato porque a fabricante brasileira não teria cumprido todas as suas obrigações para executar a separação da sua linha de aviões regionais.
FOLHA DE SÃO PAULO/montedo.com

Skip to content