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‘A melhor saída é não sair’, afirma comandante da 3ª DE
Em entrevista ao Diário, general Mauro Sinott Lopes fala sobre o apoio do Exército ao poder público e projeto um possível agravamento da crise

Redação Diário
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É pedindo para não sair que o comandante da 3ª Divisão do Exército, general Mauro Sinott Lopes, resume as determinações para a população durante a pandemia do novo coronavírus. Em entrevista ao Diário, na manhã desta segunda-feira, ele afirmou que todos os esforços militares estão voltados para a amenização dos impactos das infecções na população. Além disso, segundo Sinott, há cerca de um mês, o Exército já toma medidas preventivas, principalmente quanto à higiene e proteção do efetivo. Nas palavras do militar, “só a disciplina conduzirá à sanidade”.

Diário – Que orientações o Exército dá para a população neste momento?
General Sinott – A primeira ação é cumprir todas as orientações emanadas pelas autoridades do poder público. Se eu fosse resumir todas as recomendações, diria o seguinte: meu conselho é para as pessoas não circularem e evitarem aglomeração. Tem que ficar em casa. As próximas semanas serão fundamentais para ganhar a guerra contra esse inimigo que é o coronavírus. É preciso que evitemos deslocamentos. Sempre digo que tem que haver disciplina e responsabilidade coletiva. Circulei no fim de semana pela cidade e percebi o cumprimento desse apelo. A cidade está mais vazia.

Diário – Quais são as medidas que foram tomadas dentro do funcionamento do próprio Exército?
General Sinott – Há, aproximadamente, um mês, recebemos nossos recrutas. Em todo o Comando Militar do Sul (CMS), temos 22 mil novos soldados. Partimos para um intenso programa de educação, sobre medidas preventivas. Eles são a mão de obra do Exército. Estamos atuando sob a vertente “prevenção, preparo e emprego”. Prevenção é o cumprimento das determinações das autoridades. O efetivo tem que internalizar as medidas e, inclusive, levar para dentro das suas casas. Eu preciso que lavem a mão a comando, para aprender, e passem álcool. Para entrar no quartel, tem que passar na barraca, na entrada do regimento, responder um breve questionário para ver se a pessoa se enquadra em atividade suspeita e, depois, colocar álcool nas mãos. No meu caso, tenho que exagerar no cumprimento dessas normas com o efetivo militar porque preciso deles com a saúde em dia para auxiliar o poder público. Temos o viés de preparo, em que eu conto com o agravamento da crise. Estamos ampliando a nossa capacidade de enfermaria dentro da Organização Militar (OM), para que ela possa dar o suporte para quem necessitar. Dentro da vertente de emprego, o Exército já começou a atuar. Nós podemos auxiliar com transporte, fornecimento de refeições, se for o caso. Estamos trabalhando com a fronteira, em conjunto com os órgãos de segurança pública e fiscalização. Nós também estamos apoiando a triagem, as operações de conscientização da população e, como de praxe de todos os anos, a campanha de vacinação. Da população, esperamos esse esforço de disciplina, para cumprir o que for determinado e permanecer em casa, evitando aglomerações. Se a população cumprir rigorosamente isso, teremos uma vantagem tática excepcional, considerando isso uma guerra.

Diário – Se a crise se agravar, como o Exército poderá intervir na área da segurança pública e de logística?

General Sinott – É uma missão do Exército a garantia da lei e da ordem, como já aconteceu em outros casos. Sem dúvida alguma, estamos preparados para essas operações. Se as pessoas cumprirem as orientações das autoridades, não chegaremos a esse ponto. Se ocorrerem problemas, o Exército está preparado nessa missão constitucional. Tenho observado que todas as medidas do poder público levam à preservação da capacidade produtiva e industrial. Em uma necessidade logística, de transporte, para garantia de abastecimento, por exemplo, poderemos intervir, como aconteceu durante a greve dos caminhoneiros. Daí é que vem a preocupação com a saúde do meu pessoal. Muito antes de fecharem as boates e os locais públicos, o meu pessoal já estava proibido de frequentar esses lugares.

Diário – Caso o sistema público de saúde entre em colapso, o Exército poderá montar uma estrutura para atendimentos médicos para absorver a grande quantidade de infectados?
General Sinott – Algumas pessoas vieram me procurar levantando a ideia de um hospital de campanha. É preciso entender o que o senso comum compreende como hospital de campanha. O pessoal logo pensa em uma barraca montada, com um militares controlando o ambiente. Nas operações, realmente é assim. Entretanto, nessa fase em que estamos, de preparo, o hospital de campanha é entendido como qualquer instalação que não necessariamente seja um hospital e que esteja preparada para receber esse acréscimo de pessoas que vão precisar de atendimento hospitalar. Então, pode ser em qualquer instalação, como ginásio e escola. É preciso, nessa fase de preparo, que o poder público elenque quais serão esses locais, para que possamos aportar com camas, colchões, instalações mínimas de saúde.

Diário – Como funciona a troca de informações sobre a pandemia com as divisões de outros Estados?
General Sinott – Temos trocado ideias por videoconferências, acompanhando as curvas de infecção, o estado de saúde da nossa tropa e as ações que estamos apoiando. Com isso, procuramos ter melhores práticas. Tenho conversando com outras pessoas, de outras áreas, para saber quais são as demandas do poder público. Temos um contato bem próximo com a prefeitura. Eu tenho tido algumas ideias com relação a influenciar as pessoas para comportamentos coletivos. Nós poderemos citar as lideranças comunitárias, que têm um papel importante nessa hora. Elas podem se organizar em comitês dentro das comunidades, em apoio às pessoas que não podem sair de casa. Isso é um nível de atenção pessoal que foge da capacidade do poder público, que acaba cuidando de um espectro mais amplo. No entanto, a sociedade tem a possibilidade de se organizar nesse sentido. Um líder comunitário pode se orientar por partes da comunidade, por ruas, identificando as pessoas que precisam e não podem sair de casa. As lideranças podem prover esse apoio. Ajudar um idoso, indo no mercado para ele, por exemplo. Isso é uma ideia que veio de outro lugar. O esforço tem que ser de todos para mitigar os impactos na coletividade.
*Colaborou Rafael Favero
DIÁRIO DE SANTA MARIA/montedo.com

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