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Militares se desgastaram muito no 1º ano do governo Bolsonaro, diz cientista político João Roberto Martins Filho

Luiza Franco
Da BBC News Brasil em São Paulo

O cientista social João Roberto Martins Filho, que estuda as Forças Armadas desde os anos 1980, se diz “desiludido e preocupado” com o comportamento de militares no primeiro ano de governo do presidente Jair Bolsonaro.
Apoiadores da candidatura presidencial do capitão reformado, militares formam uma ala importante do governo e conseguiram, por meio da reforma da Previdência, a aprovação de uma reestruturação de carreira que lhes trouxe benefícios — principalmente para o alto escalão. Mas eles sofreram reveses e perderam respeitabilidade ao se associarem ao governo de Bolsonaro, opina o pesquisador.
“Gostaria de acreditar que, 35 anos depois (do fim do governo militar), teríamos uma corrente democrática nas Forças Armadas que percebesse os danos que podem vir dessa associação com a política partidária. Mas não vejo isso”, diz o pesquisador.
Para ele, neste primeiro ano de forte presença militar no governo, ficou evidente a influência de fatores como corporativismo, conservadorismo e ideologia no comportamento das Forças Armadas.
“Tem gente que acha que havia um objetivo material (conseguir a reestruturação da carreira por meio da reforma da Previdência). Eu acho que o principal objetivo era voltar à política, mostrar que poderiam ajudar o governo e discretamente voltar à política. Essa era a grande aposta. Não aceitavam aquela situação prevista na Constituição de não interferir na política. O segundo ponto era retirar do governo o máximo que pudessem em termos de melhorias materiais”, diz ele.
Se conseguiram essa segunda demanda, não foram tão bem sucedidos na primeira, diz Martins Filho. “Os militares não conseguiram moderar o presidente (como esperavam), não conseguiram conter a piora da imagem externa ao Brasil.”
Além disso, afirma, tiveram seus membros e seus valores atacados por colegas de governo.
“Logo ficou claro que havia um conflito entre o bolsonarismo civil, ligado ao Olavo de Carvalho, e os generais que tinham ajudado a eleger o Bolsonaro. (…) Os generais que estavam no começo do governo foram demitidos, marginalizados ou xingados por alguém do governo. O único que ficou, e mesmo assim foi ofendido, foi Heleno [general Augusto Heleno, hoje ministro do Gabinete de Segurança Institucional], porque se adaptou ao bolsonarismo civil. (…) Também temos casos do bolsonarismo civil atacando valores das Forças Armadas”, diz ele.
O professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) é referência em pesquisas sobre o governo militar, especialmente no que diz respeito a disputas internas entre militares nesse período. Criou o Arquivo de Política Militar Ana Lagôa e foi o primeiro presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (2005-2008).
Passou a acompanhar e escrever sobre o governo atual após a vitória de Bolsonaro, quando entendeu que sua candidatura vinha sendo gestada entre militares por cerca de dois anos.
“Nós, que estudamos os militares, percebemos isso tudo tardiamente. (…) Assim como não previmos a politização das Forças Armadas, não previmos que o Bolsonaro trataria militares como tratou”, diz o pesquisador.

BBC News Brasil – O senhor é referência no estudo do governo militar. Quando e por que começou a se dedicar a acompanhar e escrever sobre o governo atual?
João Roberto Martins Filho – Com a vitória do Bolsonaro, que foi de certa maneira imprevista, fomos ver o que tinha acontecido nas Forças Armadas nos anos anteriores e ficou claro que, uns dois anos antes, as Forças Armadas passaram a considerá-lo como uma opção para uma vitória da centro-direita e começaram a se politizar.

BBC News Brasil – O que aconteceu, na sua opinião?
Martins Filho – Nós, que estudamos os militares, percebemos isso tudo tardiamente. Víamos o Villas Bôas (general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército) como um homem que achava que as Forças não deviam interferir na política. Mas não percebemos dois processos importantes. Havia generais que desafiavam a disciplina com manifestações políticas, principalmente o Heleno (general Augusto Heleno, hoje ministro do Gabinete de Segurança Institucional), mas não só ele. Então o general Villas Bôas foi mudando de posição para ficar no comando da situação, ele mesmo assumindo um discurso de crítica aos governos do PT, coisa que ele não fazia.
Além disso, começaram a chamar Bolsonaro para participar de formaturas da Academia Militar das Agulhas Negras (escola de ensino superior do Exército que forma oficiais), onde ele fazia propaganda política e começou a ser visto como um modelo para os cadetes, o que ele nunca havia sido. Não percebemos isso no momento.

BBC News Brasil – Passado um ano, quais são suas impressões da situação dos militares no governo?
Martins Filho – Assim como não previmos a politização das Forças Armadas, não previmos que o Bolsonaro trataria militares como tratou. Logo ficou claro que havia um conflito entre o bolsonarismo civil, ligado ao Olavo de Carvalho, e os generais que tinham ajudado a eleger o Bolsonaro — eles chegaram a ter uma lista de 2 milhões de pessoas, membros das Forças Armadas e policiais, que recebiam regularmente mensagens por Whatsapp em apoio ao Bolsonaro. Não ganharam sozinhos, mas apoiaram ativamente. Então achávamos que haveria desgaste, mas não um confronto aberto.
O que aconteceu? Eles tiveram que reconhecer que o presidente era incontrolável. Talvez pensassem que, por serem generais e ele, capitão, teriam alguma ascendência sobre ele. Os generais que estavam no começo do governo foram demitidos, marginalizados ou xingados por alguém do governo. O único que ficou, e mesmo assim foi ofendido, foi Heleno, porque se adaptou ao bolsonarismo civil.
O Santos Cruz (general Carlos Alberto dos Santos Cruz, demitido do comando da Secretaria Geral da Presidência da República, um dos cargos-chave no governo, em junho), que era quem dava prestígio por causa de sua carreira, foi demitido sumariamente e de forma vergonhosa pelo presidente. Temos inúmeros casos de demissões.
Também temos casos do bolsonarismo civil atacando valores das Forças Armadas. Olavo de Carvalho disse que a última colaboração das escolas militares foram as obras do escritor Euclides da Cunha (1866-1909), e desde então “foi só cabelo pintado e voz empostada”. O ano fechou com o ministro da Educação atacando diretamente o Deodoro da Fonseca [marechal que participou da proclamação da República e foi seu primeiro presidente], que é um grande símbolo para os militares, e comparando ele a Lula. Sofreram inúmeros reveses.
No plano internacional, o estilo de governo de Bolsonaro comprou briga com França, Alemanha, se alinhou incondicionalmente aos EUA, quase comprou briga com a China e mundo árabe ao aventar passar a embaixada para Jerusalém. Isso tudo foi colocando militares numa situação ruim porque são associados ao governo, mas é um governo muito imprevisível.
Foi um ano muito agitado. Nós que estudamos as Forças Armadas estamos profundamente desiludidos e preocupados com o que aconteceu.

“Houve desgaste, mas foi menor do que se esperava. O apoio ideológico a Bolsonaro entre praças e sargentos foi mais forte. Quem apostava numa rebelião apostou errado. Apesar da insatisfação, isso não ocorreu. A base dele nesses setores segue forte.” 

BBC News Brasil – Eles próprios foram surpreendidos?
Martins Filho – Sim, e ficaram cada vez mais comprometidos. Depois da demissão do Santos Cruz, nomearam Luiz Eduardo Ramos, general da ativa, licenciado e ex-comandante militar do Sudeste. Quando ele foi perguntado o que pensava das eleições, disse que o Exército não tem lado, que seu candidato é a pátria. Seis meses depois, disse que uma dobradinha entre Bolsonaro e Moro seria imbatível. Qualquer criança percebe que é uma declaração partidária, pela eleição do Bolsonaro. Como um general da ativa se mistura de tal forma à articulação política? Não há como dizer que o Exército não se queimaria numa situação como essa.

BBC News Brasil – Como vê a relação do Alto-Comando com o governo um ano depois?
Martins Filho – Não temos detalhes sobre isso, mas é possível dizer que havia uma grande esperança, manifestada pelo próprio Villas Bôas, mas depois da demissão do Santos Cruz, ficou muito difícil. É nítido que o Alto-Comando sentiu o baque. Há alguns sinais sutis disso. Etchegoyen [general da reserva Sérgio Etchegoyen, ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência no governo de Michel Temer] disse que militares não se envolveriam mais profundamente com o governo.
Foi nomeado como sucessor do general Ramos [para o Comando Militar do Sudeste] um general que foi chefe da segurança da Dilma, o que certamente desagradou Bolsonaro. O general Rêgo Barros [Otávio Rêgo Barros, atual porta-voz da Presidência] se candidatou para ganhar uma quarta estrela e entrar para o Alto-Comando, mas isso não aconteceu. Era esperado que, por ser próximo do presidente, estaria na lista, mas não estava. São indícios sutis de uma insatisfação no Alto-Comando. O problema é que não chegam à opinião pública. O que fica é a imagem das Forças Armadas intimamente vinculadas com o governo.

BBC News Brasil – O que acha que eles queriam e, disso, o que conseguiram?
Martins Filho – Tinham uma pauta oculta que era conseguir a reestruturação da carreira por meio da reforma da Previdência. Isso eles conseguiram, com poucas críticas, apesar de terem afetado negativamente a economia que o governo vai fazer com a reforma, e de terem melhorado muito seus salários, principalmente aqueles que estão mais avançados na hierarquia, a partir de coronel e general.

BBC News Brasil – Essa era o principal objetivo?
Martins Filho – Tem gente que acha que sim, que havia um objetivo material. Eu acho que o principal objetivo era voltar à política, mostrar que poderiam ajudar o governo e discretamente voltar à política. Essa era a grande aposta. Não aceitavam aquela situação prevista na Constituição de não interferir na política.
O segundo ponto era retirar do governo o máximo que pudessem em termos de melhorias materiais. Isso foi uma vitória do corporativismo, uma espécie de prêmio pelo apoio ao Bolsonaro.

BBC News Brasil – A reforma da Previdência privilegiou militares de alta patente em comparação aos de baixa patente. Houve bastante barulho sobre isso. Quais podem ser as consequências?
Martins Filho – Sim, houve tensão e até medidas no comando para impedir manifestações em redes sociais. Houve ordens de que nas redes sociais militares têm que respeitar disciplina e hierarquia. Houve desgaste, mas foi menor do que se esperava. O apoio ideológico a Bolsonaro entre praças e sargentos foi mais forte. Quem apostava numa rebelião apostou errado. Apesar da insatisfação, isso não ocorreu. A base dele nesses setores segue forte.

BBC News Brasil – Em que esse apoio se baseia agora?
Martins Filho – Ele sempre foi eleito por esses setores, as chamadas famílias militares. Existe uma identidade muito forte e ambígua dele como militar e como líder sindical desses setores. Essa última é tão forte que permanece. Ideologia pesa muito. A alternativa para esses setores mais baixos seria aceitar uma aliança com os partidos da esquerda, e isso eles descartam totalmente (deputados do PSOL defenderam praças nas discussões sobre a reforma no Congresso). Está claro que estão insatisfeitos, mas não há possibilidade de aliança com a esquerda.

BBC News Brasil – O que os militares não conseguiram nesse primeiro ano?
Martins Filho – Não conseguiram moderar o presidente, não conseguiram conter a piora da imagem externa ao Brasil — hoje, o Brasil tem uma imagem que não tinha desde a ditadura. Conseguiram coisas pontuais — evitar a transferência da embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém, evitar interferir na Venezuela. Eles deveriam ser contrários a essa deterioração da imagem do Brasil, mas hoje o conservadorismo entre eles não permite afirmar que houve um afastamento. Houve tensões, mas não afastamento.

BBC News Brasil – Qual foi o efeito da crise na Amazônia?
Martins Filho – Foi ambíguo. Em parte alguns militares ficaram preocupados com a briga com a França, mas também houve um surto de nacionalismo, alegações de que estrangeiros estavam tentando interferir na Amazônia. Essa crise beneficiou a aliança com Bolsonaro. Ele soube explorar isso bem porque houve uma espécie de reflexo nacionalista com relação a críticas internacionais. Acabou sendo favorável ao Bolsonaro.

BBC News Brasil – Quanto de influência os militares têm hoje?
Martins Filho – Menos do que achávamos no início do governo. Nunca achei que seriam o lado racional do governo, mas não esperava que fosse ser tão ruim para eles. Foi um desgaste muito grande. Ao mesmo tempo, o conservadorismo é muito forte e também o pragmatismo. Hoje, parecem ter uma visão mais curta, pensando no que podem tirar em termos de equipamentos militares dessa relação com os Estados Unidos, por exemplo. É um momento muito pobre em termos de pensamento das Forças Armadas. Estamos vivendo uma crise de prestígio que deveria preocupá-los.

BBC News Brasil – O sr. vê diferenças entre as gerações? Quem está hoje no governo se formou antes do retorno à democracia.
Martins Filho – Não vejo diferença. Gostaria de acreditar que, 35 anos depois, teríamos uma corrente democrática nas Forças Armadas que percebesse os danos que podem vir dessa associação com a política partidária. Infelizmente, não vejo crítica deles ao que aconteceu durante o governo militar e vejo um discurso de anticomunismo que justifica, na visão deles, o apoio ao Bolsonaro.

BBC News Brasil – A política voltou aos quartéis?
Martins Filho – Sim, não como naquela época, onde tudo passava por eles, mas acho que sim. São mais de 2.000 cargos para militares no governo. São aspectos que tocam no bolso.

BBC News Brasil – Como manifestações do presidente Bolsonaro, de seus filhos e também de ministros do governo relacionadas à ditadura militar ressoam entre militares?
Martins Filho – Estamos falando de um governo de extrema-direita. Essas declarações deveriam provocar grande incômodo nos militares, que supostamente seriam mais racionais e menos ideológicos, mas não estou vendo isso.

BBC News Brasil – O senhor parece surpreso com a postura dos militares nesse primeiro ano…
Martins Filho – Fiquei no começo, mas somos realistas, percebemos o quão pouco as Forças se democratizaram em termos de ideias desde o regime militar.

BBC News Brasil – Quando o senhor começou a pensar assim?
Martins Filho – No começo do governo Temer, com a ascensão do general Etchegoyen. Há pouca informação sobre a participação militar no processo do impeachment, mas o papel desempenhado por ele foi o de fiador do novo governo, para o que contou com o prestígio que tinha e tem no Exército. Etchegoyen integrou o núcleo decisório do governo Temer e, com a recriação do GSI, reconstruiu o sistema militar de inteligência no coração do Estado.

O presidente da Associação Nacional dos Militares do Brasil chegou a dizer que militares de baixa patente haviam rompido com Bolsonaro por terem sido preteridos na reforma da Previdência, mas Martins Filho não vê sinais disso

BBC News Brasil – Como o senhor acha que pode ficar a relação no futuro?
Martins Filho – Como está hoje. Uma tentativa de negar o óbvio, que há essa relação forte entre militares e o governo. A não ser que aconteça algo muito grave na economia ou [no cenário internacional], a relação deve continuar em banho-maria. É como disse o próprio Etchegoyen, ‘não devemos nos comprometer mais, mas o governo tem mais coisas positivas do que negativas’. Acho que é essa a visão, no Exército especialmente.

BBC News Brasil – E na Marinha e na Aeronáutica? Por que há essa diferença e como ela se manifestou nesse primeiro ano?
Martins Filho – O Exército é muito mais numeroso e ativo politicamente. Houve apoio ao Bolsonaro nas outras Forças, mas o desgaste é maior entre elas. Parece haver mais condescendência com o Bolsonaro no Exército do que na Marinha e na Aeronáutica.
Bolsonaro tem tido um papel de divulgar o que foi o governo militar. Ele acaba associando os militares atuais com a ditadura, que é algo que eles não querem. Ele recebeu duas vezes a viúva do Ustra [Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-CODI apontado pela Justiça como responsável por torturas e ídolo de Bolsonaro]. Que bem traz a eles lembrar a população que houve uma ditadura? O aniversário do golpe não foi comemorado na Marinha e na Aeronáutica. No Exército, sim, discretamente, mas chegou à primeira página dos jornais. Militares de outros países democráticos passaram a ver os militares brasileiros como politizados e de direita. Isso não pega bem.
BBC Brasil/montedo.com

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