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“Precedente perigoso” e “irresponsabilidade” são alguns termos utilizados por militares de prestígio nas Forças Armadas brasileiras

HUMBERTO TREZZI
Militares graduados brasileiros enxergam com grande preocupação a posição do governo brasileiro em relação à crise EUA x Irã. GaúchaZH buscou opiniões de quatro generais, da ativa e da reserva, sobre como o Brasil deve lidar com o episódio. Todos recomendam extrema cautela e discordam frontalmente do posicionamento do Itamaraty, que prestou solidariedade imediata ao governo norte-americano.
O corpo do general iraniano Qassem Soleimani, morto após ser atingido por um míssil norte-americano em Bagdá, ainda nem havia sido sepultado quando o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, divulgou nota a respeito, na última sexta-feira. Ele alinhou o Brasil à posição americana e apoiou os EUA na luta “contra o flagelo do terrorismo”. O presidente Jair Bolsonaro foi além e, numa entrevista no mesmo dia, disse que a vida pregressa de Soleimani “era voltada em grande parte para o terrorismo” e a posição do Brasil é se aliar a qualquer país do mundo no combate ao terror.
Os quatro generais discordam da atitude do governo brasileiro nesse episódio. Um deles pediu para falar de forma reservada, sem ter o nome publicado. Os outros três falaram às claras. Confira as opiniões:

General de Divisão Carlos Alberto dos Santos Cruz, da reserva, ex-ministro da Secretaria de Governo de Bolsonaro e ex-comandante das Forças de Paz no Haiti e no Congo:
Ressalta que as animosidades entre os dois países já são antigas e esse tipo de escalada de conflito sempre tem consequências ruins. Para o Brasil, as reações imediatas são queda nas bolsas de valores e alta no preço do petróleo, administráveis e passageiras.
Com relação à diplomacia, Santos Cruz lembra que o Brasil jamais tomou partido nessa animosidade e não tem razões para fazer isso agora:
— O nosso país tem excelentes relações com EUA e Irã e o melhor caminho é a neutralidade e a imparcialidade no caso. A participação do Brasil é importante para somar sua voz à comunidade internacional, que se manifesta pelo equilíbrio, pelo bom senso e pela interrupção na escalada do conflito.
Santos Cruz enfatiza que isso não é só pela preservação de relações comerciais do Brasil, mas deve ser também pelo desejo genuíno do Brasil em sempre colaborar com a paz mundial e estimular a resolução pacífica de conflitos:
— Essa é a nossa tradição e característica. Qualquer posicionamento fora da neutralidade e da imparcialidade, nesse caso, é falta de noção de consequência e irresponsabilidade.

General de Exército Sérgio Etchegoyen, da reserva, ex-dirigente do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), o aparato de contraespionagem e segurança do governo brasileiro:
Divide suas considerações em dois pontos de vista: estratégico e direito internacional. Em termos táticos-estratégicos, considera que um país que não tem poder militar deve evitar ser alvo de represália. É o caso do Brasil.
— O melhor é seguir a tradição anterior a esse governo, de não-intervenção em outros países, de pacifismo. Do contrário, entra no jogo daqueles países mais fortes, que usam da força e precisam temer reações dos atingidos: EUA, Rússia, China. Só que o Brasil não tem poderio militar, nem de longe, comparável a eles — diz.
Quanto ao bombardeio que matou o general iraniano em território iraquiano, Etchegoyen usa palavras fortes: “o Iraque não é a casa da mãe joana”.
— Uma coisa é gostar que se elimine um terrorista. Particularmente, posso gostar. Outra coisa é um Estado achar que tem esse direito. Nesse instante, ele se alinha à barbárie. E sofre as consequências do seu gesto — pondera o militar do Exército.

General de Brigada Luiz Eduardo Rocha Paiva, ex-observador militar das Nações Unidas em El Salvador, ex-instrutor na Academia Militar das Agulhas Negras e doutor em Aplicações, Planejamento e Estudos Militares na Escola de Comando de Estado-Maior do Exército:
Em áudio divulgado em redes sociais, diz que o Brasil jamais poderia concordar com a “violação da soberania iraquiana”, como foi cometido pelos EUA. Rocha Paiva afirma que o Brasil deveria se manter neutro, sem se engajar muito e sem declarações de apoio à ação norte-americana, da maneira como fez:
— Isso abre precedente perigosíssimo. No futuro, mediante qualquer justificativa que atenda aos interesses de uma potência, ela pode querer exercer ingerência dentro do Brasil, comprometendo nossa soberania.
Rocha Paiva admite que o general Soleimani desafiava a imagem e reputação dos EUA em âmbito regional e por isso foi morto. O que os EUA ganharam? A resposta pode gerar escalada que desemboque em um conflito regional. Ou então uma escalada no programa nuclear ou bloqueio do Estreito de Ormuz, por exemplo. O general considera que o Brasil não lucra em nenhum aspecto ao se alinhar a um dos lados.

General de Exército da ativa, ex-integrante do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), o aparato de contraespionagem e segurança do governo brasileiro:
— Alinhamento automático nunca é bom. Traz dependência. Tanto que o Reino Unido, agora, decidiu não apoiar Trump incondicionalmente. O Brasil só tem a perder, econômica e diplomaticamente, se aderir a um dos lados dessa briga.
GaúchaZH/montedo.com

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