Não acho que valha a pena agora uma discussão sobre 1964 ou a Guerra do Paraguai. O agora é muito delicado
Fernando Gabeira
De novo na estrada, no centro de Minas, a 700 quilômetros do Rio. Deixei um clima político bastante polarizado. A série de entrevistas com candidatos mostrou como o mesmo trabalho pode parecer contrário ou a favor do entrevistado, dependendo do ângulo do espectador.
Eu mesmo fui criticado por não ter respondido ao general Mourão sobre heróis e tortura. As pessoas talvez desconheçam a fronteira entre uma entrevista e um debate.
Como jornalista, ouço as pessoas, registro no meu caderno ou gravo as opiniões colhidas. Às vezes, refaço a pergunta, apenas para obter mais transparência nas ideias e projetos. Quando a entrevista é em conjunto, trata-se de um ritual coletivo que tem como objetivo oferecer uma visão mais completa do personagem, dentro de um determinado prazo.
Se alguém diz “heróis matam”, não posso contestá-lo. E se o fizesse, diria apenas que heróis também matam, a julgar pela História, inclusive da esquerda e das lutas anticoloniais.
Heróis morrem pela liberdade, ora lutando pelos irmãos de cor, como Martin Luther King, ora pela paz, como Mahatma Ghandi. Herói apenas salvam vidas, como a professora Helley Abreu, na escola incendiada em Janaúba.
Às vezes, heróis não matam nem morrem. Simplesmente dedicam-se a ajudar os outros. Conheci Noel Nutels no aeroporto de Belém, e ele me contou como cuidava dos índios, sobretudo de seu pulmão. Fiquei impressionado com ele até hoje. Isso tem mais de meio século.
Não conheci Nise da Silveira pessoalmente. Mas quando vi o que fez pelos doentes mentais, livrando-os do choque elétrico e despertando sua visão estética, compreendi que sua vida também teve um grande propósito.
Quanto à tortura, sou bastante tranquilo ao condená-la. Hoje, o Brasil subscreve acordos internacionais que a varrem de nossas práticas cotidianas. Não significa que cessaram: apenas são ilegais.
Ao defender a tortura em nome de grandes ideais, a direita cai na mesmo equívoco da esquerda. Adota o lema: os fins justificam os meios.
Na minha cabeça, essas coisas são claras. Como tenho a possibilidade de me expressar por artigos e uma longa existência por trás de cada opinião, estou à vontade percorrendo o Brasil, ouvindo as pessoas.
Não me importam se racionais, sensatas, delirantes ou alucinadas: gosto de ouvi-las. O alívio de voltar a elas se deve à sua leveza e complexidade. Uma leveza que não atrai torcidas contra ou a favor, como um candidato. E uma complexidade que não nos seria possível antever, se Shakespeare fosse um escritor com viseiras ideológicas.
Não acho que valha a pena agora uma discussão sobre 1964 ou sobre a Guerra do Paraguai. O agora é muito delicado.
Esta semana tentei usar a França para formular uma hipótese. Lá, depois de um período de barricadas de esquerda, sobrevém um governo de ordem. De Gaulle venceu as eleições depois do Maio de 68. A tendência no Brasil foi a do fortalecimento de uma visão que deseja ordem e seriedade na condução do governo.
Minha dúvida ainda se apoia nessa referência à França. De Gaulle representava um tipo de autoridade. Le Pen e sua filha Marine, da extrema direita, apenas chegaram ao segundo turno das eleições. A ascensão de seu movimento não foi suficiente para ganhar o governo.
Sei como é precário comparar um país com outro. Mas o que posso fazer, senão usar também algumas memórias?
Ninguém sabe do futuro. É possivel usar como exemplo a vitória de Trump. Mas ele tinha uma condição especial: milionário, apoiado por uma rede de TV, integrado, com um pouco de desconforto, num grande partido.
O que restou dessa passagem mais longa pelo Rio, respirando o clima eleitoral, candidatos, equipes, planos, sai um pouco apreensivo.
O clima de radicalização está levando as pessoas a lerem apenas notícias com as quais concordam. Cerca da metade das intervenções na rede negava a facada em Bolsonaro. Se continuarmos assim, abrigados em tribos, acreditando apenas no que queremos acreditar, será cada vez mais difícil a vida de quem não habita os extremos.
Para os intelectuais, é um perigo de morte. Se você acha que sabe tudo, que tem a correta visão do mundo, não precisa ler os outros, confrontar argumentos, corrigir erros, a tendência é a fossilizacão.
E nem para os fósseis a vida está fácil no Brasil, Luzia que o diga.
O Globo/montedo.com
Respostas de 9
Gabeira me impressiona.
Me impressiona sua postura, me parece alguém que realmente aprendeu a lição da serenidade.
Parabéns, Fernando.
Mas Heróis matam sim.
Indo longe poderiamos citar Aquiles.
Mais perto, ficamos com Guevara, Trotsky, Lenin ou Felix Dzerzhinsky, o sujeito que criou a Checa, a maior maquina de matar que já se conheceu, e que nos dizia que se tornou comunista pois não suportava ver as criancinhas russas passando fome…. etc…
Mesmo heróis bem-intencionados matam, é o famoso mal em nome do Bem que São João da Cruz definiu em uma pequena e genial frase:
“Ele sabe tudo que há de Divino…”
Este ano meu voto é absolutamente pragmatico: Bolsonaro.
É um risco, sim. Mas risco que precisamos correr.
Fora ele quer venha luladad, Ciro ou Marina vamos terminar com Luis Inacio e Dirceu nas ruas, a grande experiencia chamada Lava-Jato estrangulada e quem sabe uma convulsão social.
A esquerda teve a oportunidade, durante treze anos, de mostrar seu valor e o mérito de suas ideias…nada fez a não ser aparelhar o Estado e roubar, descaradamente, o dinheiro público. O resultado está aí: milhões de desempregados, economia no fundo do poço, violência absurda…votar na esquerda é perpetuar este quadro perverso em que a sociedade brasileira mergulhou de cabeça! Chega de esquerda mafiosa! O candidato destemperado e arrogante da esquerda já manifestou o seu desejo de combater quem não reza da sua cartilha esquerdista…um novo bolivariano…está na hora de proporcionamos um novo rumo a este país! Bolsonaro e Mourão! Vamos endireitar este país!
Vejamos o que a esquerda fez:
-Retirou 25 milhões da situação de indigência;
-Criou novas universidades federais: Universidade Federal do ABC (UFABC); Universidade Federal de Ciências da Saúde de PA (FUFCSPA); Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL); Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM); Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM); Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA); Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR); Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD); Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Universidade Federal do Tocantins (UFT); Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA); Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF); Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA); Universidade Federal da Integração Luso-Afro-Brasileira (UNILAB); Universidade Federal do Cariri (UFCA); Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA).
-Em 12 anos de governos de Lula e Dilma foram criadas 282 ESCOLAS TÉCNICAS FEDERAIS, três vezes mais do que foi construído em quase um século de história do Brasil;
Só para ficarmos na área do combate a fome e educação…
Quantos filhos e filhas de militares estão em cursos superiores graças aos sistema de cotas para escola pública implantada pelo governo do PT? Os Colégios Militares são considerados escolas públicas e os filhos e filhas de militares se PRIVILEGIAM das cotas que TANTO CRITICAM…..
Mais: Prouni, REUNI, ENEM, ampliação do FIES etc….
Reconhecer esses feitos e avanços é uma questão de HONESTIDADE INTELECTUAL…
Sub Ten R1 –
Amigo poderia colocar a lista dos candidatos militares nos estados novamente, afinal somos uma familia e como em toda familia ha divergencias, estremecimentos, magoas e problemas a serem resolvidos, mas, no final somos da mesma familia.
Na década de 90 o Gabeira foi flagrado por um paparazzi usando nada mais que um fio dental como sunga de banho.
E o que isso tem com o artigo escrito por ele?
Este artigo expõe um ponto de vista com cataratas. Não deixou uma posição clara e, no fim das contas, não me fez tentar remodelar meu pensamento.
Ora, falar sobre 64 é realmente um absurdo, quiçá mudo, mas quem levanta esta bola é aquela gente que não quer um país trilhando no rumo certo novamente.
Os herois matam, morrem, e às vezes até mesmo distribuem flores, mas e daí? Se existem herois, via de regra os delinquentes existem em mesmo ou maior número. E o confronto desses dois notáveis gera consequências incontroláveis por mais que a fase seja de paz e amor (o que em 60s e 70s não era absolutamente).
A tortura é pura da natureza humana, e dela só não gosta quem está sendo torturado. Este assunto faz com a demagogia role solta pelas palavras dos falsos idealistas (que legislam em causa própria). Raríssimos de nós não torceram os braços de outros com o fim de obter uma resposta de acordo com nossos interesses. JOGUE A PRIMEIRA PEDRA. Se em conflito, um informe precisa ser levantado, sinto muito…
Agora, de verdade, as pessoas só querem ouvir, ler e entender aquilo que lhes cai bem aos ouvidos, olhos e cérebro.
Quando deixarmos de olhar o próprio umbigo, perceberemos que existem muitas coisas boas no CAPITALISMO, no SOCIALISMO, no PARLAMENTARISMO, na REPÚBLICA, até mesmo no COMUNISMO. Perceberemos que esta conversa de ESQUERDA, CENTRÃO, DIREITA, é tudo conversa prá boi dormir, assim como OFERTA X DEMANDA, eleições diretas, que não passam de um grupo de medidas para dominar a massa executante, nós, que achamos inocentemente que com nossos votos vamos mudar a coisa toda. É isso aí!
Abraço.17,
Se perguntar o conceito de heroi para aqueles que nós consideramos que seja, se for vivo, certamente esta pessoa nao irá se considerar um. para ilustrar: o filme “A conquista da Honra”, “Até o ultimo homem” e a série “Band of Brothers”. Nesses exemplos vemos que os ex- combatentes que pernaneceram vivos não se consideravam herois e que os verdadeiros haviam perecido nos campos de batalha. Eis, aqui, acredito, a visão de “heroi” do Gen. Mourão.
E segue a fala muito bem colocada: “para alguns, Marigela é um heroi […] herois matam (e morrem)”.
Os militares ficarem dando entrevistas para um grupo de comunicação de um traidor que cuidava dos seus comunistas e transformou seus veículos em abrigos e retiros de ex-terroristas, ex-guerrilheiros, BANDIDOS, subversivos e parasitas de poderes públicos é o mesmo que militares americanos darem entrevistas para a Al Jazeera, para falarem sobre “coitadinhos” terroristas!