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CAROLINA VILA-NOVA
ENVIADA ESPECIAL A MAR DEL PLATA
O desaparecimento do submarino ARA San Juan após uma explosão há dez dias não foi a única tragédia marítima a impactar Mar del Plata, na Argentina, neste ano.
Em junho, o naufrágio do barco pesqueiro marplatense Repunte a 80km da costa de Rawson (província de Chubut) causou um trauma que essa cidade costeira ainda não superou. Dos 12 tripulantes, três foram encontrados mortos e sete nunca tiveram os corpos resgatados.
A primeira versão recebida pelos familiares era a de que todos haviam subido num bote salva-vidas e sido salvos. Mas a primeira ajuda demorou quase cinco horas para chegar, depois que o capitão Gustavo Sánchez soou o alarme. Apenas dois tripulantes, Lucas Trillo e Julio Guaymas, se salvaram.
De janeiro de 2000 a setembro de 2017, a Argentina registrou 41 naufrágios que deixaram 86 mortos, de acordo com estudo independente da pesquisadora Silvia Paleo.
Os dados levam em conta apenas embarcações civis comerciais, o que leva a crer que o número total de ocorrência seja muito maior.
Apenas em 2016 foram nove acidentes no país, três deles com mortes, num total de oito mortos. Em 2017, antes do San Juan, houve dois acidentes que somaram 12 mortos, entre eles o Repunte em Mar del Plata.
“A principal causa dos sinistros está nas políticas e sistemas de prevenção, com descumprimentos sérios das normas de segurança”, afirma Paleo no estudo, apontando a dificuldade no acesso às estatísticas referentes a acidentes marítimos.
Outra questão é que a frota é obsoleta. A maioria dos barcos têm mais de 40 anos e, na Argentina, embarcações pequenas não têm caducidade. Basta passar na inspeção.
QUEM LIGA
O último barco que naufragou no país, ironicamente chamado de “Que le importa” (algo como “quem liga?”), era de 1948. O Repunte, de 1965. Havia passado pelo Brasil, onde havia sofrido um sinistro; nos últimos quatros anos, estava parado na Argentina, até que foi adaptado para a pesca do lagostim, comércio que movimenta milhões na temporada.
“Foi muito precário o que fizeram no navio, não aguentou um temporal”, conta Irene Guerrero, mulher do oficial José Arias, o único de Puerto Madryn na embarcação e nunca encontrado. “Não podemos encerrar nossa dor porque o deixaram no mar.”
Ela pressiona as autoridades para que resgatem do mar a embarcação para que então se veja as condições em que estava e os responsáveis sejam punidos. “Eles saíram para trabalhar e não voltaram mais por causa da corrupção, naquela lata velha. Mandaram eles para o matadouro”, diz, chorando.
O grupo “Nenhum Naufrágio Mais”, criado pelos familiares das vítimas do Repunte, pressiona por mudanças no setor, como mais segurança aos marinheiros e melhor inspeção nos barcos.
Gabriela Sánchez, irmã do capitão do Repunte, também nunca encontrado, conta que o grupo passou a receber denúncias sobre condições dos barcos em várias cidades. “As pessoas temem represálias e a falta de emprego, então recorrem a nós”, diz.
“Na Argentina está naturalizado na cabeça das pessoas que um barco afunde”, afirmou Sánchez. “Mas isso tem de mudar”, pondera.
“Há quatro ou cinco empresários que controlam tudo [no setor]. E há uma relação íntima desses empresários com políticos, sindicatos e fiscalização. No final quem morre? O trabalhador, que é só um custo de produção.”
Folha/montedo.com
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