Escolha uma Página
Veterano rememorou os 70 anos da tomada de Monte Castelo, a mais significativa da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália
Memórias de um combatente gaúcho Ronaldo Bernardi/Agencia RBS
Major reformado Rubem Barbosa ingressou de jipe no Museu do Comando Militar do SulFoto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

Humberto Trezzi

A entrada em cena foi épica, digna das homenagens a ele prestadas. O major reformado Rubem Barbosa ingressou de jipe no Museu do Comando Militar do Sul – não um veículo qualquer, mas um Willys da II Guerra Mundial, igual aos que ele tripulou em 1945. Um dos raros veteranos da Força Expedicionária Brasileira (FEB) ainda vivos e lúcidos, o oficial porto-alegrense compareceu à sede do Exército para rememorar a tomada de Monte Castelo. Essa montanha, situada no norte da Itália, só foi capturada após quatro incursões dos brasileiros, que expulsaram dali os militares alemães, abrindo caminho para consolidar a tomada de todo o território italiano pelos Aliados.
A palestra, conferida em meio a armas da II Guerra e cartazes com fotos da época, ocorreu porque a tomada de Monte Castelo completa 70 anos neste 21 de fevereiro. E Rubem Barbosa, 89 anos, tem ainda nítida a memória daquela epopeia. Foram três meses de tentativas brasileiras de tomar as posições fortificadas dos alemães, montanha acima e sob nevasca.
O major Rubem, na época cabo, era sapador (especialista em localizar e desmontar minas explosivas). Fazia o serviço nos intervalos dos bombardeios – os alemães, encastelados nos morros com canhões de 88 mm e morteiros, faziam uma barragem cerrada de tiros contra o avanço brasileiro. Pior: 90% dos tiros eram dados à noite, o que dificulta a localização dos soldados inimigos.
— A cada explosão o joelho do sujeito tremia. Quem disser o contrário tá mentindo, a gente tem medo, claro…o próximo a morrer poderia ser eu – recorda Rubem, com sinceridade.
Rubem era seminarista quando se alistou no Exército, aos 17 anos. Não foi por vontade, mas porque era obrigatório. “Até padre servia, o país estava em guerra”, ressalta. Natural de Porto Alegre, ele cursava o seminário de Gravataí, velho sonho da mãe, que já tinha outro filho padre. Era, também, coroinha na Igreja Nossa Senhora dos Navegantes. Quando começava a nascer barba, foi encaminhado ao quartel, preencheu os papéis e trocou a batina (que já usava) pelo uniforme verde-oliva. Fez um treinamento rápido como soldado em São Leopoldo, no 8º Batalhão de Caçadores (atual 19º Batalhão de Infantaria) e depois foi para o Rio de Janeiro, de navio. Lá fez curso de cabo e pegou outro navio, maior, para a Europa. Lembra bem da escolta da marinha inglesa a partir do rochedo de Gibraltar, até Nápoles (Itália), onde os pracinhas brasileiros desembarcaram após 13 dias de mar e enjoos.
Era dezembro e Rubem foi enviado a Roma para fazer curso de sapador (sabotagem e contra-sabotagem) com o Exército norte-americano.
Coronéis e generais fizeram fila para cumprimentar o ex-pracinha
Foto: Ronaldo Bernardi
Nevasca e tiroteios
Promovido a sargento – “na época, as promoções eram relâmpago” – Rubem foi enviado então a Monte Castelo, onde o Brasil travava já fazia sua terceira investida. Era uma montanha 61 km a sudeste de Bolonha, vital para a conquista do Vale do Rio Pó e consolidar a ocupação do território italiano pelos Aliados.
Muita gente erra ao falar em batalha de Monte Castelo. Na realidade, foram combates que se arrastaram por três meses, de 24 de novembro de 1944 a 21 de fevereiro de 1945, durante os quais o Brasil efetuou seis ataques e sofreu contra-ofensivas. Sempre sob nevasca e tiroteio constantes. Não é a toa que, dos 471 brasileiros mortos na II Guerra, a maioria morreu em Monte Castelo.
Rubem, por conhecer os rigores do vento Minuano, achou que se daria bem. Diz que nunca passou tanto frio na vida. Colocava blusão sobre blusão e um capote por cima, para suportar – 18ºC.
— Pior foram os nordestinos, mal conseguiam se mexer – recorda ele, penalizado.
Após a tomada de Monte Castelo, Rubem participou de outras incursões, como a tomada de Montese.
— Lá a entrada na cidade foi de baioneta calada, combate corpo-a-corpo, casa por casa. Lembro de ter atirado num alemão, sargento como eu. Até recebi uma medalha – relata Rubem.
O veterano lamenta sobretudo o encontro com a miséria na Itália, crianças passando fome, vítimas civis da guerra.
Seja porque os Aliados já tinham supremacia, seja por competência, os brasileiros se deram bem melhor que os alemães nos confrontos desse final da II Guerra. Dos 25 mil pracinhas (militares) enviados à Itália, o Brasil perdeu 450 soldados, 13 oficiais e 8 pilotos, enterrados no cemitério de Pistóia (Itália). Ficaram ainda feridos 12 mil brasileiros nos combates. Em compensação, fizeram 20 mil militares alemães prisioneiros(entre eles, dois generais). Os brasileiros também apreenderam 80 canhões e 5 mil viaturas alemãs.
O ex-pracinha afirma que jamais desenvolveu antipatia pelos alemães.
— Combatíamos um regime tirânico, não a Alemanha — ressalva.
Rubem lamenta que a “turma de 45” esteja chegando ao final. Só no ano passado ele perdeu 9 colegas da associação de veteranos da FEB no Rio Grande do Sul. A saúde também requer cuidados: toma 20 comprimidos diferentes por dia, “alguns para anular os efeitos colaterais dos outros”, graceja. Mas as lembranças continuam afiadas e o orgulho do passado, cada vez maior. Tanto que coronéis e generais fizeram fila para cumprimentá-lo ao final da palestra. Emocionados.
ZERO HORA/montedo.com
Skip to content