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Arthur Chioro, Gilberto Carvalho e Ideli aproveitaram agendas casadas Pastas defendem as viagens como parte do trabalho dos titulares; 2014 registrou 3.438 requisições de voos

Alexandre Aragão E Marcelo Soares De São Paulo
Ministros do governo Dilma Rousseff usaram aviões da FAB (Força Aérea Brasileira) para fazer agendas casadas durante a eleição –quando participaram, após eventos oficiais, de encontros de campanha–, revela levantamento feito pela Folha a partir de registros oficiais.
Em 25 de setembro, o ministro Arthur Chioro (Saúde) foi a Jaboatão dos Guararapes (PE) assinar um termo de compromisso em evento oficial. Depois, juntou-se ao senador Humberto Costa (PT-PE) e seguiu para uma carreata da campanha de Armando Monteiro (PTB) ao governo. O Ministério da Saúde defendeu a viagem (leia texto ao lado).
Após a vitória de Dilma, no dia 12 de novembro, o então ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, compareceu a evento da CUT (Central Única dos Trabalhadores), organização ligada ao PT, em Lages (SC).
Em entrevista a uma TV local, Carvalho disse que faria “uma análise do momento político que o Brasil está vivendo, a perspectiva do novo governo da presidenta Dilma, o papel que todos os trabalhadores –a militância em geral– tiveram na eleição”.
O petista, que foi substituído na reforma ministerial, disse ainda que faria um convite para que os sindicalistas comparecessem à festa da posse de Dilma, em Brasília, no dia 1º de janeiro deste ano. “Nós queremos fazer uma festa muito popular”, afirmou.
Outro caso é o da ministra Ideli Salvatti (Direitos Humanos), uma das que mais defendeu Dilma na campanha.
Das 144 viagens feitas a trabalho por Ideli em 2014, metade foi retornando a Brasília e, das 72 restantes, 17 tiveram Santa Catarina, sua base eleitoral, como destino final.
No ano passado, Ideli esteve duas vezes com Dilma no Estado. Na primeira, em 6 de junho, foi a um evento do governo e, depois, viajou a Brasília em um jato da FAB.
Na segunda, em 17 de outubro, foi a comício da campanha, mas não usou avião oficial. A ministra realizou, ainda, outras 20 viagens a Florianópolis, mas registrou-as como volta à residência, o que é autorizado pelas regras da FAB.
TODOS OS VOOS
Ao todo, integrantes dos três poderes que têm direito a solicitar voos requisitaram 3.438 viagens no ano passado. Em alguns casos, dignitários que tinham a mesma origem e o mesmo destino dividiram o avião – a soma, portanto, é ligeiramente menor se essas situações forem consideradas uma única vez.
Além da presidente e do vice-presidente da República, têm prerrogativa para requisitar viagens em jatinhos os 39 ministros de Estado, os presidentes da Câmara, do Senado e do STF (Supremo Tribunal Federal), os comandantes das Forças Armadas e o chefe do Estado-Maior.
Em 2014, Arthur Chioro foi o ministro que mais pediu voos, 195, seguido de Ideli Salvatti, 167. Completam os cinco primeiros lugares os ministros Neri Geller (ex-Agricultura), 162; José Eduardo Cardozo (Justiça), 159; e Aldo Rebelo (ex-Esporte, atual Ciência e Tecnologia), 146.
A FAB publica desde julho de 2013 sua lista de voos. O dado era sigiloso até que a Folha revelou que o então presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), viajou de jatinho para ver um jogo no Maracanã.
Mas há problemas nos arquivos: eles estão em PDF, o que exige ferramentas especiais para torná-los analisáveis. E não são divulgados os convidados das autoridades.
Ministros dizem que cumpriram regras da FAB
Questionados, os ministros Arthur Chioro e Ideli Salvatti e o ex-ministro Gilberto Carvalho defendem que todos cumpriram as regras adotadas para viagens do tipo.
Em nota, o Ministério da Saúde afirma que Chioro utilizou os jatos para ir a “congressos, seminários e reuniões com gestores de saúde”, entre outros eventos.
Sobre a viagem a Jaboatão dos Guararapes (PE), o órgão diz que o ministro “participou de assinatura do termo de compromisso para abertura de curso de medicina (…) e de evento de lançamento do primeiro produto que leva a marca da Hemobrás”.
Procurado quando era ministro, Gilberto Carvalho disse que o evento da CUT em Lages foi uma “agenda oficial, já que o papel institucional da Secretaria-Geral é o relacionamento com os movimentos sociais”. “Em nenhum momento transgredi minhas funções como ministro”.
A Secretaria de Direitos Humanos, de Ideli, informou que todas as agendas citadas pela reportagem “estão registradas no site” do órgão.
Folha de São Paulo, via Notimp (FAB)/montedo.com
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