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MUNDO: GENERAL BRASILEIRO ENFRENTA GRUPOS ARMADOS EM MISSÃO DA ONU NO CONGO
General Santos Cruz comanda missão da ONU no Congo (Imagem: ONU/Monusco)
Fábio Piperno
Nos últimos anos, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz jamais teve vida fácil. De setembro de 2006 e abril de 2009, comandou a Minustah, a missão de paz da ONU para o Haiti. A bem-sucedida experiência no país centro-americano o levou para um trabalho ainda mais desafiador. Desde o ano passado, o militar gaúcho, de 62 anos, lidera a Monusco, a Missão das Nações Unidas na República Democrática do Congo.
Dono de uma das mais ricas e cobiçadas províncias minerais do mundo, o país africano é também o cenário onde operam dezenas de grupos armados e o precário abrigo para multidões de refugiados, exilados pelos conflitos étnicos, políticos e militares registrados nas nações vizinhas.
Em entrevista para o bandnewstv.com.br o general falou sobre a missão, os conflitos militares já enfrentados e qual é a situação em um país até agora incapaz de transformar suas riquezas em benefícios para a população.
General, qual é o prazo de duração da Monusco?
General Santos Cruz – Não existe essa previsão. A missão tem o objetivo de colaborar com a paz e a estabilização do país.
Desde quando o senhor está no Congo?
SC – Estou aqui desde maio do ano passado.
Quantos brasileiros estão com o senhor?
SC – Temos um pequeno grupo de 6 militares, que fazem parte do meu estafe pessoal. Vim para cá sozinho, mas depois o Brasil mandou mais seis militares. A ONU dá esse direito ao país que lidera a missão.
Qual é o contingente que o senhor lidera hoje?
SC – Tem aproximadamente 20 mil homens, de 18 países.
Qual é o cenário que o Congo apresenta?
SC – O Congo é um país de grande extensão (2 344 858 de quilômetros quadrados, quase da extensão da Argentina). Tem poucas ligações, poucas estradas e é bastante desconectado em seu interior. É um país extremamente rico em recursos minerais. Então, na história se desenvolveu uma série de grupos armados entre etnias diferentes. E essas etnias têm as disputas alimentadas por interesses políticos e financeiros. Então há um quadro de violência muito grande e quem sofre com isso é a população civil. Atuam no país pelo menos 30 grupos armados.
Além dos grupos armados que atuam dentro do país, o Congo tem uma vizinhança hostil. Como é o enfrentamento à ameaça externa?
SC – Na realidade, não se trata de uma ameaça externa. O que há hoje é a participação de alguns vizinhos nos problemas congoleses através de grupos armados, que às vezes estão aqui dentro do Congo. Há grupos armados que cometem atrocidades contra populações civis. Mas eles têm uma agenda política que não é contra o Congo, mas contra países vizinhos. Então é tudo muito confuso. Os problemas aqui não são do Congo. Aqui no leste do país, são problemas regionais.
Onde é que sua missão está baseada e onde o senhor mora hoje?
SC – Os problemas de violência do Congo, de grupos armados, estão todos na parte leste do país, onde começa a fronteira com o Sudão do Sul e vem descendo para Uganda, Ruanda, Burundi e Tanzânia. Eu fico baseado na cidade de Goma, na fronteira entre o Congo e Ruanda, na beira do lago Kivu. É uma região muito bonita, com lagos imensos, os maiores do mundo. É aqui onde estão os principais problemas.
A sua relação com o governo do Congo é cordial?
SC – Uma das obrigações da missão, e nossas obrigações estão estabelecidas no mandato emitido pelo Conselho de Segurança da ONU, é apoiar a autoridade do governo do Congo. É obrigação nossa e o relacionamento é muito bom. Na parte militar, praticamente todas as nossas operações são conjuntas com as Forças Armadas do Congo. Os resultados são obtidos por conta dessa boa coordenação com as Forças Armadas deles. Não seria possível obter resultados dentro do país sem essa coordenação.
General, sabe-se que o Congo, embora seja um país com uma das maiores províncias minerais do mundo, ainda é bastante pobre. Como é hoje o funcionamento das instituições do país?
SC – Você tocou em um ponto chave. O Congo tem uma riqueza impressionante, mas essa riqueza não beneficia a distribuição de renda e a prestação de serviços públicos para a população que sofre muito, não só com a pobreza, mas também com a violência dos grupos armados. Nos últimos 20 anos se calcula que de 5 a 6 milhões de pessoas morreram em consequência do conflito. As instituições são muito frágeis em um muito grande, com lugares remotos, onde não há quase nenhum representante do Estado, como Forças Armadas, polícia, poder judiciário, delegacia e sistema educacional organizado. Então, em muitos lugares não há a presença do Estado. Isso facilita o surgimento de grupos armados locais.
O senhor classifica a situação no Congo mais complexa do que a encontrada no Haiti?
SC – A situação do Congo considero politicamente mais complexa. A dimensão dos problemas também é muito grande. E o Congo é quase cem vezes maior que o Haiti. Os atores políticos são muito mais numerosos em uma região traumatizada por massacres étnicos, como o genocídio de Ruanda. É uma história marcada por muita violência em grande escala.
Como é a situação de refugiados que foram para o Congo? Esses grupos são ainda muito numerosos?
SC – Os refugiados estão aqui desde a época do genocídio de Ruanda em 1994, quando ocorreu o massacre dos tutsis pelos hutus. Houve uma fuga de muitos hutus, o domínio do governo de Ruanda pelos tutsis e um deslocamento para cá. Ainda hoje há cerca de 230 mil refugiados da etnia hutu. E há outros pequenos grupos, principalmente perto da fronteira com a República Centro Africana, por conta dos problemas que o país está vivendo. Mas existe um problema ainda mais grave, que é a dos deslocados internos. São as pessoas que saem das suas casas e abandonam suas vilas para ir para campos não de refugiados, mas de deslocados. Há hoje praticamente 3 milhões de pessoas nessa condição.
A missão que o senhor comanda atua em um país de muitos problemas, com vários grupos hostis. E provavelmente a missão já esteve próxima de algum tipo de confronto. Os senhores já foram atacados por algum grupo de guerrilha?
SC – Já. Tivemos grandes confrontos. Ano passado, enfrentamos o grupo mais forte que já apareceu na história do Congo, o M23 (movimento 23 de Março), que era praticamente um exército regular. Tinha o comportamento de um exército regular. A batalha contra o M23 foi no estilo clássico de segunda guerra mundial. Já tivemos vários conflitos. Mas foi o único com o estilo clássico de conflito. Ocorreram outros confrontos menores, porque a partir daquele momento os grupos armados não quiseram mais a opção de um confronto direto. Tivemos vários combates e todo dia tem que tomar cuidado. Estamos preparados para isso. Faz parte da nossa atividade.
BAND NEWS/montedo.com
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