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Exercício bem-vindo
Vila dos Sargentos é tomada por militares, na Zona Sul de Porto Alegre
Em ação para marcar presença, polícia aproveitou também para mapear a criminalidade da região
Vila dos Sargentos é tomada por militares, na Zona Sul de Porto Alegre André Feltes/Agencia RBS
Exército realiza treinamento, em conjunto com a Polícia Civil e a Brigada Militar, na Vila do dos Sargentos, Zona Sul de Porto Alegre – Foto: André Feltes / Agencia RBS
Eduardo Torres
O blindado Urutu, do 8º Esquadrão de Cavalaria Mecanizada, do Exército, com sua sirene ensurdecedora, avançava em velocidade pela Avenida Orleans, seguido por jipes e outros veículos apinhados de soldados fortemente armados. Na sequência do comboio, sob olhares curiosos (alguns deles tensos), viaturas da Brigada e da Polícia Civil se aproximavam.
Em menos de cinco minutos, a principal entrada da Vila dos Sargentos, no Bairro Serraria, Zona Sul da Capital, era dominada. Um confuso catador de recicláveis garantia se tratar de uma guerra.
Atrapalhada com as sacolas de compras, a auxiliar de Enfermagem Carmen Bitencourt, 58 anos, caminhava desconfiada. Com a experiência de quem já mora há 30 anos na vila, garante que só pensava: “O que aconteceu agora?”
Era final da tarde de quinta quando as duas principais saídas da vila, e um ponto no alto das vielas, foram tomados. Até o final da madrugada de sexta, a Vila dos Sargentos viveu clima de ocupação, como nos morros cariocas.
Dois presos com facas
Oficialmente, foi um exercício da unidade do Exército, vizinha à vila, como preparação para a Copa. E a titular da 6ª DP, delegada Áurea Hoppel, acalmou a moradora:
– É um exercício de presença da segurança pública. Vai ser bom para vocês.
Carmen assentiu com a cabeça e sorriu.
– Nos últimos meses, até que a vila está mais tranquila, mas quanto mais segurança para nós, melhor.
Na outra calçada, diante do Urutu, um soldado controlava um rifle e crianças se divertiam, faziam fotos. Outras pessoas, por horas, mantiveram olhar desafiador aos agentes de segurança.
Havia 30 homens do Exército, 20 da Polícia Civil e oito da Brigada, com abordagens a veículos e pedestres. Era a segunda parte do exercício iniciado na terça. Alguns carros foram recolhidos por irregularidades e dois homens, com facas, responderam a termos circunstanciados.
Resposta à ameaça de bandidos
Havia um tom simbólico na ação. Como um recado para os criminosos. Há duas semanas, a sede do 8º Esquadrão foi ameaçada por um plano já havia virado lenda na Vila dos Sargentos: dois homens tentaram invadir as instalações militares.
Foram afastados do local por um tiro de alerta do sentinela, mas a ação serviu para mostrar às autoridades que a ideia dos criminosos de tomar as armas do quartel não é tão irreal assim.
De acordo com o major Flávio Américo, que comandou a ação dos militares, a escolha da vila para o exercício foi aleatória.
– Seguimos o critério da proximidade com o batalhão e do relacionamento com a comunidade – diz.
Local considerado estratégico
Segundo o major, ações como essa podem ser necessárias durante a Copa do Mundo. Ele evita falar sobre a ameaça recente.
– São ações de controle rápido de uma região ou via de acesso. Isso pode ser requisitado durante a copa e precisamos estar preparados – explica.
Simultaneamente, os militares tomaram a Subestação Poa 4, da Ceee, responsável pelo fornecimento de energia do Beira-Rio. O local é considerado estratégico para a segurança dos jogos.
Dados da Vila
– Às margens do Guaíba, começou a ser ocupada com intensidade há 30 anos.
– A presença de criminalidade não é nova. A partir de 2010, a vila virou dor de cabeça da polícia. Se tornou o primeiro território dos Bala na Cara na Zona Sul.
– Até 2012, bandos duelavam pelo controle do tráfico. Com os líderes presos, em 2013, ocorreram apenas dois homicídios. Ano passado, foram cinco casos.

Ação reconheceu a “terra de ninguém”
Já era noite na terça-feira quando estudantes desceram em grupo do ônibus. Pelo menos sete, agarrados às mochilas. Nem perceberam o posto de controle montado pelo Exército na entrada da vila. Passaram reto, quase correndo. Estavam seguindo a rotina diária. Só conseguem passar ali em grupos – e rapidamente. É que a entrada da Vila dos Sargentos vira território do crime quando anoitece. Só passa, como apurou a 6ª DP, quem tem autorização ou foi até lá para comprar drogas.
– O fundamental dessa ação para nós foi a presença na vila. As pessoas nos viram e nós identificamos todos, assim como mapeamos a região – diz a delegada Áurea.
A partir dos relatórios dos militares, a polícia acredita que também seja possível mapear lugares suspeitos de uso por traficantes, favorecidos pela geografia local.
– Temos alguns mandados e algumas pessoas a serem ouvidas em investigações que simplesmente não conseguimos encontrar pelo endereço ser completamente desconhecido – afirma.
“É triste saber que eles vão embora amanhã”
Em cada ponto onde agentes se aglomeravam, viravam assunto da vizinhança. Até mesmo porque, na quinta, moradores tiveram um problema tão recorrente quanto a insegurança: faltou água na Vila dos Sargentos.
– Nunca vi tanto policiamento aqui. Por um lado, é bom, pela segurança. Mas não é só disso que precisamos – diz Vilma Terezinha Maciel, 51 anos, há 12 na vila.
Da varanda de casa, também sem água, outra moradora, de 50 anos, acompanhava o trabalho de uma das patrulhas do Exército, com um dos jipes usados para o monitoramento da vila:
– Sabemos que a vila fica estranha quando está calma desse jeito. Acho que muita gente saiu quando soube que eles iriam “tomar” a o local. Já vimos tantos jovens morrerem. É triste saber que esse policiamento vai embora amanhã.
DIÁRIO GAÚCHO/montedo.com

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