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Hoje em 20 mil, diáspora haitiana no Brasil pode chegar a 200 mil até 2016.
Desde 2004, soldados brasileiros atuam em missão da ONU no país.

Tahiane Stochero Do G1, em Porto Príncipe 
(a repórter viajou a convite do Ministério da Defesa)
Tanto nas longas filas que se formam em frente à embaixada do Brasil, em um bairro nobre de Porto Príncipe, até as comunidades pobres e violentas da capital haitiana, como Cité Soleil, o desejo dos moradores é unanimidade: todos querem ir para o Brasil.
A explicação mais comum para esse desejo é que a ação das tropas do Exército brasileiro, que desde 2004 está no país em missão de paz da ONU, mostrou que o povo brasileiro é “bon bagay”, que significa “gente boa” em créole, o dialeto local. Eles dizem ver o Brasil como um país que os acolherá bem e com perspectivas de conseguir emprego fácil, sem o risco de serem deportados.
haitianos_imigração_legal_x_ilegal_300px (Foto: Editoria de Arte / G1)“Eu quero ir para o Brasil porque o povo brasileiro é o melhor do mundo, acolhe bem os haitianos. Temos costumes parecidos, somos da mesma cor. O Brasil é nosso irmão mais velho que deu certo”, afirma a cozinheira Sanon Williana, de 38 anos. A ideia dela é conseguir o visto para o Brasil e viajar sozinha em 2014, conseguir emprego em um hotel ou restaurante, estudar, e depois levar o marido e os três filhos pequenos.
Para ela, atualmente, a maior parte dos haitianos quer se mudar para o Brasil, e não mais para os Estados Unidos. Só em Miami a comunidade haitiana, chamada de “little Haiti” (pequeno Haiti), é estimada em 1 milhão. Em breve, diz ela, haverá um “little Haiti” no Brasil também.
Eu quero ir para o Brasil porque o povo brasileiro é o melhor do mundo, acolhe bem os haitianos. 
“Hoje os haitianos querem ir mais para o Brasil do que para os Estados Unidos, porque os americanos não cuidam do haitiano tão bem como o Brasil. E nos Estados Unidos o haitiano tem que ir e ficar escondido. No Brasil, não, o Brasil abraça todo mundo”, acredita ela, que possui amigos com quem fala pelo Facebook que imigraram ilegalmente para o Brasil.
“A presença do Brasil aqui mostrou ao haitiano assim: 

‘poxa, se eles me tratam bem aqui, em princípio eu vou ser bem recebido lá” 
General Edson Pujol, comandante da Missão da ONU no Haiti

Tanto o governo brasileiro quanto a ONU se questionam sobre o que fez os haitianos escolherem o Brasil como principal foco de destino após o terremoto, que em janeiro de 2010 deixou mais de 300 mil mortos. O Conselho Nacional de Imigração (CNIg), órgão do Ministério do Trabalho, começará no fim do ano uma pesquisa para entender os motivos da migração em massa de haitianos. Mas, segundo o presidente do órgão, Paulo Sérgio de Almeida, a atuação militar do Brasil é um dos fatores.
Os militares brasileiros desembarcaram em Porto Príncipe quando uma convulsão política e a suspeita de fraude eleitoral provocaram o princípio de um conflito civil e a queda do então presidente Jean Bertran-Aristides, em junho de 2004. Desde então, as tropas nacionais atuam em regiões importantes da cidade, como Bel Air, o centro comercial que abriga o Palácio Nacional, destruído no tremor, e Cité Soleil, a área mais pobre e historicamente violenta do país.
General Pujol, que comanda missão de paz , diz que tropas brasileiras não atuam no tema imigração (Foto: Tahiane Stochero/G1)
General Pujol diz que tropas brasileiras não atuam
no tema imigração
(Foto: Tahiane Stochero/G1)
“Eu não tenho dúvidas de que, pelas características do povo brasileiro, visto como um povo hospitaleiro, receptivo, que estabelece um relacionamento amigável e cordial com os outros povos, isso deve ter facilitado o haitiano a optar pelo Brasil”, diz o brasileiro que comanda de 7 mil soldados ONU no Haiti, general Edson Leal Pujol.
O Brasil mantém desde o início da missão o maior efetivo em relação aos outros países – atualmente são 1.300 soldados. Após o terremoto, o número chegou ao dobro.
“A presença do Brasil aqui mostrou ao haitiano assim: ‘poxa, se eles me tratam bem aqui, em princípio eu vou ser bem recebido lá'”, acredita o general. “A presença da tropa brasileira aqui deve ter sido, sem dúvida, um incentivo para que um dos lugares que eles buscassem refúgio e apoio fosse o Brasil”, afirma.
Considerado o país mais pobre das Américas, com renda per capita anual de US$ 1.300 (R$ 7,7 por dia) e taxa de analfabetismo de mais de 50%, o Haiti enfrenta um processo migratório desde o início da década de 50, após uma sequência de ditaduras e golpes de estado desestabilizarem a sociedade e provocarem a intervenção militar norte-americana e da ONU.
Com cerca de 9,8 milhões de habitantes, o Haiti possui cerca de 3 milhões dos seus cidadãos morando em outros países, como Estados Unidos, Cuba, Canadá e República Dominicana, uma população chamada de “diáspora haitiana”. Só no Brasil são 20 mil atualmente. Estimativa da ONU é que o número chegue a 200 mil em 2016.
Nas ruas de Porto Príncipe, a capital haitiana, é fácil encontrar adultos e crianças que falem algumas palavras em português. Nas regiões periféricas da cidade, militares fazem ações sociais e brincadeiras lúdicas, distribuem água potável e comida, ensinam crianças a escovar os dentes, pintar, desenhar.
“Marca Brasil”
Segundo fontes diplomáticas, a participação brasileira na missão de paz da ONU “vendeu” a “marca Brasil” para os haitianos e gerou uma espécie de desejo da população de ser como o brasileiro.
“Eu gosto do Brasil e quero ir para lá trabalhar. Aqui é difícil conseguir trabalho, por isso muita gente fica desocupada pelas ruas e sonha em ir para o Brasil”, diz Shamin Ajan, 30 anos, que possui experiência como office boy e, desempregado, começou a trabalhar como tradutor para os soldados.
“Desde pequeno eu gosto do Brasil, porque o futebol de lá é o melhor. Não sei quanto se ganha lá em dinheiro, mas eu quero ir mesmo assim”, afirma.
haitianos perfil ilegal pf imigração brasil vale este (Foto: Arte G1)Nas áreas pobres e com maior índice de homicídios onde os soldados brasileiros atuam, como Cité Soleil, haitianos cercam a tropa pedindo ajuda para conseguir o visto.
“Madame, aqui no Haiti não tem o que comer. Queremos ir para o Brasil para fugir desta miséria. O Brasil vai nos receber, eles nos atendem bem sempre”, diz Luckson Daudier, de 27 anos, que está desempregado.
“Se você perguntar aqui em Cité Soleil, todo mundo gosta do Brasil e quer ir para o Brasil”, diz o aposentado Merat Jean, de 59 anos. “É como perguntar para quem está com fome se quer comida. É meio óbvio. Adoramos o Brasil, eles nos ajudaram muito”, acrescenta ele.
Já Madart Triphtagn, de 24 anos, quer ir ao Brasil para trabalhar em escritórios ou em lojas. “Tenho formação em seguraça e sei que o Brasil está crescendo muito, precisa de gente que trabalhe firme. Os haitianos adoram os brasileiros e o brasileiro também deve gostar do haitiano”, acredita ele.
A previsão da ONU é que a missão de paz deixe o Haiti em 2016. Segundo o embaixador em Porto Príncipe, José Luiz Machado e Costa, o Brasil manterá o maior efetivo militar até lá. “O soldado brasileiro será o último a sair”, garante.
O general brasileiro comandante da missão de paz diz que a ONU não pode interferir na questão da imigração, que é responsabilidade do governo, e que os soldados internacionais só apoiam no tema quando há solicitação.
“A missão de paz, do ponto de vista militar, não entra neste ponto (da imigração). O fator que leva as pessoas a imigrarem sem dúvida é uma preocupação para o governo, em especial porque pode haver uma exploração”, afirma o general Pujol.
“Há pessoas interessadas em ganhar dinheiro com tudo isso, vendendo falsas promessas e documentos falsos que pretensamente facilitariam o desejo destas pessoas de entrar no Brasil. Esta, sim, acredito que deva ser uma preocupação do governo haitiano, assim como prover as necessidades básicas da população, como saúde, trabalho e segurança, para manter os haitianos no país”, acrescenta o comandante das tropas da ONU no Haiti.
Segundo o oficial brasileiro, nem as tropas brasileiras, nem as de outros países que compõem a missão de paz podem interferir na situação da imigração ilegal, pois é uma responsabilidade da Polícia Nacional Haitiana (PNH).
“Em nenhum momento o componente militar da ONU pode barrar (imigrantes ilegais que deixam o país). Nós só apoiamos a PNH. Se uma situação sair do controle e nem a PNH e nem a polícia da ONU conseguirem dar conta, somos chamados para dar apoio, desde que haja amparo legal para isso”, explica ele.
G1/montedo.com

Comento:
Demagogia e proselitismo político à parte, esse sentimento despertado nos haitianos pelos militares brasileiros já é motivo suficiente para nos orgulharmos dessa nobre missão. BRASIL!
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