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FRANCISCO DAUDT
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Se alguém te pedir confiança cega, para acatar dogmas sem discussão, se te pedirem isto, desconfie!
A desconfiança é a mãe do pensamento humano. Ela é o início da reflexão. É o humano se olhando no espelho enquanto olha para o outro, e dizendo: “Eu sei ser vigarista, logo eu posso reconhecer um vigarista. Acho que este cara está querendo me passar a perna”. A confiança é berço esplêndido, necessária para o descanso do corpo e da alma.
Mas você reparou que, antes de apagar a luz e deitar a cabeça no travesseiro, nós verificamos se as portas estão trancadas, o gás desligado e outras precauções? Pois é a desconfiança cuidando para que possa haver confiança.
Se alguém te pedir confiança cega, para pôr a mão no fogo, para acatar dogmas sem discussão, para seguir o líder sem reparos, para não pecar por pensamentos (no meu tempo de aluno dos jesuítas, o pecado era um; hoje é pensar sem ser politicamente correto), para não questionar o “centralismo democrático”, nem as tarefas do Partidão, para achar que aos pobres, aos diferentes, aos índios, às “comunidades” e assemelhados tudo devemos, pois carregamos a culpa imemorial de nossos antepassados e seus “malfeitos”, bem, se te pedirem isto, desconfie! Estão querendo te passar a perna. Se te disserem que esse negócio de ética é relativo, pois tudo na vida é relativo, inclusive o pronome objetivo, desconfie.
A desconfiança é a fiadora da liberdade, não só de pensamento, mas em amplos termos. Você sabia que a democracia tem três poderes independentes com a intenção básica de um desconfiar do outro? É a maneira de nos prevenir da tirania.
Se o Executivo compra o Legislativo com um mensalão, estamos no caminho da tirania. Se a imprensa é controlada para só dizer o que interessa aos donos do poder, tirania outra vez. A propósito, homenageio aqui o Millôr, repetindo-o: “Imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”.
Se disserem que as Forças Armadas são um mal, eternamente preparando um golpe, desconfie. É certo que você também deve desconfiar delas, mas há lemas que saem de lá extremamente confiáveis: “O preço da liberdade é a eterna vigilância”; Si vis pacem, para bellum (se queres a paz, prepara-te para a guerra).
Esta última me lembra as “passeatas pela paz”, todos de branco, achando que iam comover os meliantes, enquanto eles gargalhavam dos otários. Tinha vontade de vomitar ao ver essas cenas pela TV. E adorei ver os tanques entrando no complexo do Alemão, enquanto os “malfeitores” fugiam. O que foi mais eficiente? As passeatas pacifistas ou as UPP?
De mais a mais, não há lei sem desconfiança e punição para quem a transgride. Se a lei quer punir a senhora cega, velha e surda que matou o invasor de sua casa armado de uma faca, desconfie da lei. Se o candidato não tem currículo, tem folha corrida, movimente-se pela desconfiança para fazer uma lei da Ficha Limpa.
Dois movimentos atuais me produzem intensa desconfiança: o “politicamente correto” e o “ecologicamente correto”. Suspeito que os governos estão querendo invadir minha praia, roubar minha individualidade, “com as melhores intenções”, aquelas que desde sempre têm forrado o inferno.
Folha de São Paulo/montedo.com
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