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*Manoel Soriano Neto

Generalidades
O Brasil é um País singular, em especial por sua população, preponderantemente cordial, generosa, alegre, miscigenada e acolhedora de povos de diversas origens. É a “Nação do Sol”, onde se encontra, em abundância, a trilogia para a existência da vida: ar, água e sol; e o exemplo superlativo é a Amazônia – o nosso grande desafio.
A Pan-Amazônia ocupa 1/10 da América do Sul e 3/5 do Brasil, que detém 60% de toda a sua extensão. A Amazônia brasileira possui seis grandes tesouros: 1) a população amazônida, mestiça, com “stocks” indígenas de inúmeras etnias; 2) a sua bacia potamográfica, um verdadeiro mar interior, o “Mare Nostrum Brasileiro”, sendo os principais rios, navegáveis por navios de qualquer calado; 3) a água doce de seus cursos d’água; 4) as jazidas de minérios, muitos deles, estratégicos; 5) a biodiversidade da floresta, com o maior banco genético do mundo; e 6) a posição geoestratégica, eis que cortada pela linha do Equador, o que propicia o lançamento, em excelentes condições, de sondas, satélites, mísseis, foguetes e até de naves espaciais. Acrescente-se, por ilustração, que podem ser feitos lançamentos, a partir de plataformas navais, mesmo do interior da selva, utilizando-se do longo trecho do rio Negro, próximo e paralelo à linha equatorial.
A Fragilidade Militar Brasileira
Para uma eficaz defesa do território nacional e da costa marítima, rica em petróleo (a “Amazônia Azul”), o Brasil carece de FFAA compatíveis com a sua estatura político-estratégica. Porém, desafortunadamente, tal não ocorre e a situação deveras piorou. Nas útimas duas décadas, o Brasil, por vontade de seus governantes e elites dirigentes, fragilizou-se quanto à expressão militar do Poder Nacional, renunciando à aspiração de ser, pelo menos, uma potência regional. Assim, aderimos, em 1995, ao “Tratado dos Mísseis” – o MTCR -, que podou a nossa capacidade de uso do aeroespaço; sujeitamo-nos aos ditames da Convenção de Ottawa, de 1996, de proscrição de minas terrestres e armadilhas; assinamos, em 1998, o Tratado de Não- Proliferação Nuclear – o TNP; abdicamos de nossa incipiente e pujante indústria de material bélico; retardamos o projeto do submarino à energia atômica; criamos, em 1999, o Ministério da Defesa, que só trouxe desprestígio e progressivo sucateamento às FFAA; assinamos, em 2000, com os EEUU, o entreguista “Acordo de Alcântara”; e, atualmente, se cogita da “desmilitarização” do controle do tráfego aéreo. E mais: criamos e demarcamos, em área contínua, descomunais Reservas Indígenas, como as Ianomami (1991) e Raposa Serra do Sol (2005), da qual querem, agora, expulsar brasileiros não-índios, para que se cumpram decisões da ONU, como a absurda Resolução (de 17 Set 07), aprovada pelo Brasil (!) e que confere um status de quase independência às “nações indígenas”, ficando proibidas operações militares nas terras dos índios… Tudo pode ser resumido em simples expressão: falta de patriotismo e de altivez. É que as elites pensantes brasileiras são, o mais das vezes, subservientes aos poderosos, vassalas do colonialismo econômico-cultural, como se sofressem do “complexo de vira-lata”, no dizer do saudoso Nelson Rodrigues.

A Estratégia da Resistência
O Brasil possui 16.886 km de fronteiras terrestres, dos quais 75% localizam-se em nossa cobiçada Amazônia, hoje infestada de ONGs estrangeiras predadoras e espiãs. E é relevante assinalar que, em vizinhos países amazônicos, existem 20 (!) bases aéreas ou de radar dos EEUU (as “forward bases”); ora: se fosse concedida uma “soberania limitada ou restrita” àquele País, em Alcântara, como constava do vexatório Acordo, arquivado no Congresso – portanto, ainda insepulto -, um cerco estratégico estaria formado na região… Em vista dessa assustadora realidade, urge guardar e defender a Hiléia Amazônica, preciosíssimo patrimônio legado por nossos indômitos avoengos, que não trepidaram em verter o seu generoso sangue, a fim de manter a sua integridade. Todavia, em face de tantos óbices, como o da proibição do uso de minas e armadilhas, as FFAA deparam-se com um dilema: como proceder para obstar veleidades de nação ou de coalizão de nações hegemônicas, atentatórias à soberania nacional na “Amazônia Verde”?
Da percuciente análise da História Militar, pode-se inferir que é possível a países militarmente inferiorizados, resistirem a um incontrastável poderio bélico inimigo. Há exemplos disso, inclusive recentes, como o do Vietnã – contra franceses e norte-americanos, em quase vinte anos de guerra. Na historiografia militar brasileira, também são registradas memoráveis ações de Resistência, máxime na Insurreição Pernambucana, de 1630 a 1654.
A “estratégia da resistência”, é uma estratégia de segurança nacional, de dissuasão, também conhecida como “da lassidão, da usura, do cansaço ou do desgaste”, e baseada em milenar ensinamento do chinês Sun Tsu: “Se não podes vencer a guerra contra um inimigo muito mais forte, que, pelo menos, saibas não perdê-la”. É imprescindível, pois, para o prolongamento de um conflito assimétrico, uma Vontade Nacional muito firme e forte, não se permitindo ao resistente, sentar-se à mesa de negociações, após um êxito inicial do invasor.
A Resistência prevê atitudes defensivas no campo estratégico e ofensivas, no tático, com o objetivo de desgastar o inimigo, debilitando o seu moral, até levá-lo à capitulação. O confronto direto, convencional, deve ser evitado, e são empregadas, à larga, técnicas de guerra irregular, com a convicção inabalável de “saber durar”, sejam quais forem os sacrifícios de uma campanha prolongada, de Davi contra Golias, e que poderá se estender a outros Teatros de Operação.
O Exército, em 1994, iniciou estudos que resultaram na “estratégia da resistência”, com a indispensável participação das outras Forças Singulares. Destarte, estabeleceu-se uma doutrina (“Gama-Resistência”), com previsão de combates na selva, a qual não pode ser cedida ao agressor. Aduza-se que o Comando Militar da Amazônia conta com a melhor Escola para guerra em ambiente de floresta tropical, o Centro de Instrução de Guerra na Selva – CIGS. Simpósios acerca do assunto vêm, sistematicamente, sendo realizados, sendo que o primeiro deles ocorreu em 1995, na cidade de Manaus. No ano de 2004, um grupo de Oficiais do Exército estagiou no Vietnã, onde hauriu fundamentais ensinamentos.
Por derradeiro, à guisa de Conclusão, quando tanto se fala em internacionalização da Amazônia, assunto minimizado por vendilhões da Pátria, que já disseram ser “um mero delírio de nacionalisteiros paranóicos”, lembremo-nos do Barão do Rio Branco. Por ocasião da “Questão de Palmas”, ele respondeu, com altivez, ao plenipotenciário argentino: “Senhor. Um palmo de terra que seja, em sendo brasileiro, deve ser defendido, pelos brasileiros, a ferro, a fogo e a sangue”.
Quanta saudade do Barão…
*Coronel do Exército e Historiador
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