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Vila Cruzeiro: perfuração em corpo de menino não condiz com armas de militares
Polícia investiga se tiro foi feito por traficantes, que teriam usado pistolas
“O tráfico pressiona os moradores a acusarem o Exército. Apesar de os militares dominarem o território, o controle psicológico daquele local ainda é do tráfico.”
(Procuradora da Justiça Militar Hevelize Jourdan)

Hevelize se reuniu com militares da Força de Pacificação-Divulgação/Exército
Marcelo Bastos
As chances de o tiro que matou Abraão da Silva Maximiliano, de 15 anos, na praça do Caracol, no Complexo da Penha, ter sido disparado por um traficante aumentaram, após o resultado parcial do laudo cadavérico feito pelo IML (Instituto Médico-Legal) no corpo do adolescente.
Uma fonte, que acompanha as investigações feitas pela Delegacia da Penha (22ª DP) e o inquérito policial militar instaurado pelo Exército, informou que, de acordo com o laudo, tanto a perfuração de entrada, quanto a de saída do projétil no corpo de Abraão, têm o mesmo tamanho.
– Um tiro de fuzil deixaria uma perfuração pequena na entrada, mas na saída deixaria um ferimento do tamanho de uma laranja, principalmente se fosse um tiro de fuzil calibre 7.62, o mesmo usado pelos militares no momento do suposto confronto, e a uma distância aproximada de 15 metros, a mesma entre os militares e o menor.
O orifício pequeno seria um forte indício de que o tiro que atingiu o adolescente partiu de uma pistola, armamento que não era usado pelos militares no momento do confronto. Outro aspecto que aponta na direção de traficantes é o fato de o tiro ter atingido Abraão de lado. Na posição em que estavam, o menor e os militares, seria mais provável que o tiro fosse frontal e não lateral.
– O tráfico pressiona os moradores a acusarem o Exército. Apesar de os militares dominarem o território, o controle psicológico daquele local ainda é do tráfico. Já há até informações de moradores passadas ao Disque-Denúncia confirmando a versão dos militares, de que houve confronto com traficantes.
Na última sexta-feira (30), a procuradora de Justiça Militar Hevelize Jourdan se reuniu com representantes da Força de Pacificação, no Complexo do Alemão. Ela disse que pretende pedir a exumação do corpo de Abraão, caso seja necessário.
– O laudo feito pelo IML é um exame médico legal, que determina a causa da morte, trajetória do projétil e danos causados pelo tiro, mas é ambíguo no que diz respeito ao calibre da arma que matou Abraão. Pode ter sido um tiro de fuzil ou de pistola calibre 9 mm. Isso é muito importante, porque os militares não usaram pistolas, só fuzis. Caso seja necessário um exame de balística mais aprofundado, nós vamos requisitar a exumação do corpo.
A procuradora admitiu que uma das hipóteses investigadas é de que o disparo que atingiu o adolescente possa ter partido de traficantes, que teriam trocado tiros com os militares no momento em que Abraão foi baleado. Entretanto, o projétil atravessou o corpo do jovem e não foi encontrado pela perícia.
– Nós queremos saber de qual arma partiu o tiro e quem é o autor. Se foi um tiro de fuzil, é um indicativo de que tenha partido da tropa. Caso tenha sido um tiro de pistola, pode ter sido disparado pelo tráfico. Agora, se houve excesso na conduta dos militares, eles serão punidos.
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Reconstituição no próximo dia 4
Para esclarecer as circunstâncias da morte do adolescente a Polícia Civil vai fazer uma reconstituição no próximo dia 4. Segundo o delegado José Pedro Costa da Silva, titular da 22ª DP, a reconstituição vai comprovar tudo o que tem sido dito nos depoimentos, tanto dos militares quanto das testemunhas e, para a polícia, é o exame principal para a conclusão do inquérito.
– A reconstituição será feita no mesmo horário do crime. Todos os militares envolvidos, os familiares do menino e as testemunhas vão participar. Queremos checar se o que eles dizem condiz com a realidade. Vamos verificar, por exemplo, a distância entre os militares e a vítima e a luminosidade, para saber se era possível ver o suposto traficante e identificá-lo a ponto de efetuar disparos.
O delegado explicou que a perícia de local não esclareceu dúvidas porque projéteis não foram encontrados, apenas alguns cartuchos, que serão periciados. O fato de o lugar ser aberto prejudica a análise de um confronto, por exemplo.
José Pedro informou que investigações feitas pela 22ª DP mostram que a praça do Caracol, onde aconteceu o tiroteio, era usado como ponto de venda de drogas, mesmo após a presença do Exército, que ocupou a região há pouco mais de um ano. O delegado lembrou, no entanto, que não há como saber se havia venda de drogas no momento em que Abraão foi morto.
Primo diz que foi ameaçado
Nesta quarta-feira, o primo da vítima, Welington Lopes da Silva, de 20 anos, prestou depoimento na 22ª DP. Ele chegou ao local do crime logo após Abraão ser baleado. Segundo o delegado, ele contou que um grupo de aproximadamente 20 militares estava no local e que o tiroteio durou aproximadamente um minuto, com direito a rajadas.
Welington também disse ter sido ameaçado pelos militares, enquanto tentava socorrer o primo.
– Eles apontaram a arma para mim. Eu disse que queria socorrer ele, mas eles disseram que eu iria morrer junto com ele para não contar nada à polícia. Vi meu primo caído e não pude socorrê-lo.
Dos quatro militares ouvidos formalmente, um admitiu ter feito um disparo de fuzil para o alto, outro admitiu ter disparado uma vez com uma escopeta carregada com armamento não-letal e os outros dois admitiram ter disparado seis vezes cada, com seus fuzis. As quatro armas foram recolhidas para perícia.
Militares foram afastados
De acordo com o Comando Militar do Leste, os oito militares envolvidos foram afastados das ruas e vão responder a Inquérito Policial Militar. Segundo com o coronel Malbatan Leal, porta-voz da Força de Pacificação, os militares continuam a trabalhar na unidade no Alemão, porém, sem atuar na patrulha nas ruas. Os agentes da 22ª DP também investigam de onde partiu o tiro de fuzil [?]que atingiu o jovem.
O Ministério Público Militar disponibilizou um telefone de atendimento ao cidadão para informações ou denúncias que possam colaborar com as investigações. O número é 0800 021 7500. A ligação é gratuita.
R7/montedo.com

Nota do editor:
[?] Note que, mesmo depois de praticamente admitir que o tiro foi de pistola, o repórter volta a afirmar que a investigação é sobre um tiro de fuzil. E viva a imparcialidade da mídia!
Comento:
Pela descrição da Procuradora, a dúvida sobre o tipo de armamento e munição que vitimaram o rapaz é apenas formal. A partir dessa constatação, fica mais fácil perceber a orquestração dos protestos contra os militares, no vídeo abaixo, postado na quinta-feira. Assista novamente e preste muita atenção:


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