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Paulo Ricardo da Rocha Paiva*
O ano é 1998, governo de FHC, o Brasil adere ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares optando, por força de pressão dominante, no caso da efetivação de “intervenção da Amazônia pelo bem da humanidade”, ter que admiti-la primeiro por absoluta incapacidade dissuasória para, só depois de concretizada, pensar em reagir. O segmento militar da sociedade brasileira, mais informado quanto às ameaças que estão sempre a rondar o país, via morrer a aspiração de, mais dia menos dia, dar-se um basta às ameaças e bravatas de notórios líderes dos “todo-poderosos”, que entendem a nossa Região Norte como sendo uma reserva ecológica internacional.
Festejar para que, se engolimos desde então a postura humilhante de irresponsáveis para o desenvolvimento de armas de grande poder letal, como se fôssemos um bando de talibãs incompetentes e ignorantes? Irracionalidade, amadorismo, falta de compromisso com o porvir da nacionalidade, com a altivez da descendência, tudo enfim parece ter entorpecido o miolo de quantos tinham o dever de não apor assinaturas em dispositivos que subtrairiam o direito legítimo que temos de dissuadir para, sim, evitar a luta.
Por que comemorar se, de FHC para cá, toda a expectativa de defesa da nação, é de pasmar, foi sendo virtualmente despedaçada pelo posicionamento passivo, agravado por Lula e coadjuvado pela omissão de uma elite que, outrora mais responsável e patriota, perdeu toda e qualquer noção de brio para se fazer valer nas questões que comprometem a soberania do país? Contentamo-nos e, quem sabe, até nos julguemos comportados o bastante para não sermos incluídos no “eixo do mal” pelo “irmão Caim do Norte”. É lamentável, assumimos a condição de submissos, dominados e sem rumo.
Como se pode hoje fazer ressuscitar o Exército se, por falta absoluta de opção dissuasória mas imediata e verdadeiramente contundente, a Força terrestre está manietada, forçada a se adestrar em combate de resistência nos moldes do empregado na selva pelos vietcongues? Atenção, que ninguém duvide, essa forma de luta é a de maior sacrifício para nós, haja vista o desgaste, a longa duração e a sangueira sem limites que encerra em seu bojo. É de se questionar o tipo de combate a que nos restringimos, pela imposição velada da estratégia de lassidão e até que ponto se acredita nela. A propósito, os soldados universais, aqueles das notórias coalizões, seriam ainda adestrados pelos competentes instrutores do “Centro de Instrução de Guerra na Selva”, justo na única estratégia que nos foi permitida e exatamente na região que deve ser negada ao inimigo?
Se isto ocorre, Sun Tzu, o mestre da guerra, está sendo violentado em seu jazigo. Perigo! Hoje a Otan já visualiza incorporar a Rússia, uma inclusão que tem tudo a ver com a garantia dos recursos energéticos dos oceanos para os “não chineses”: vai sobrar para o nosso pré-sal! O que vão festejar nossos aviadores e marinheiros mal armados se, agora, não têm nenhuma capacidade para fazer frente às ameaças das forças aeronavais de última geração da “santa aliança” encastelada no CS/ONU?
Não há como não admitir, atingimos um limite em que todos, civis e militares, temos que clamar ao Estado brasileiro pelo fortalecimento urgente e emergencial das Forças Armadas. Aos nossos oficiais e graduados repugna a simples possibilidade de justificar uma derrota pelo fato de seus comandados estarem mal armados. Um fato é o compromisso que nossos soldados assumem de “manter a soberania da pátria, se preciso for, com o sacrifício da própria vida”, o outro é o dever que tem a sociedade de pressionar os agentes do governo a garantirem, sem paliativos, os meios de combate para que este sacrifício seja o menos traumático possível.
* coronel de Infantaria e Estado-Maior
Jornal do Brasil
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