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Único soldado de Quatro Barras em Missão no Haiti retorna para casa
Cabo Zanella retornou do Haiti no começo deste ano
“Vi uma galinha tentando comer um rato, e depois vi que uma criança disputava o rato com a galinha. A criança ia comer o rato”
Não há forma melhor de retratar um país devastado do que ouvir as experiências diárias de quem esteve lá. Depois do terremoto que abalou o Haiti em janeiro do ano passado, as tropas do Exército Brasileiro intensificaram o trabalho de estabilização e manutenção da ordem que já ocorria desde 2004. Durante os últimos seis meses de 2010, o soldado Renan Mendes Zanella – único militar residente em Quatro Barras que integrou a Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah) – acompanhou diariamente os reflexos de um país pobre e desestruturado em todos os sentidos.
Aos 21 anos, Renan conta que se candidatou como voluntário para integrar a Minustah e no dia 27 de julho pisou pela primeira vez no país caribenho, considerado o mais pobre das Américas. “Todos os militares enviados ao Haiti são voluntários. No meu caso, me candidatei porque acredito na importância desta missão, que garante ajuda ao país, e permite contribuir para seu crescimento. Integrar a Minustah foi um motivo de honra não só para mim, mas para toda a minha família”, contou.
A atuação do soldado, segundo ele, se baseava em patrulhas nas ruas, escolta de comboios de alimentos e apoio às ações de ajuda humanitária. Renan fez parte do 13º contingente do Exército Brasileiro, composto prioritariamente por militares do Paraná e Santa Catarina, além de outras regiões do Brasil. A tropa foi enviada a Porto Príncipe – capital do Haiti e um dos locais mais atingidos pelo terremoto, onde está localizada a base brasileira – com a proposta de manter a estabilidade do país, afetado não apenas pela catástrofe, mas também pela instabilidade política e por grandes agraves sociais.
“Nossa missão era manter o ambiente seguro e estável para que outras organizações pudessem atuar”, explicou. Ele conta que as operações geralmente contavam com o apoio da Polícia Nacional do Haiti, e que durante as patrulhas, em alguns casos isolados, o Exército também auxiliou na apreensão de infratores. “A população sempre cooperou muito, aliás o que mais me surpreendeu foi o carinho que o povo haitiano tem pelos brasileiros. A população respeita muito as tropas brasileiras”, disse.
Num cenário de miséria, fome e destruição, segundo o soldado, sobressaíam-se a garra daqueles que sobreviveram. “O que víamos todos os dias era basicamente um cenário cinza, favelas, casas com telhas de zinco, porcos e cabras nas ruas, crianças descalças, muito lixo e entulho por toda a parte, além de sentir constantemente um cheiro muito forte. Mas a acolhida do povo e o carinho sempre surpreenderam. As crianças vinham falar conosco, até mesmo em português”, contou o soldado, ao lembrar que no Haiti as línguas mais faladas são o creole e o francês.
Se os problemas que afetavam a região já eram grandes, só pioraram com a epidemia de cólera que se seguiu logo após o terremoto. Renan conta que não houve militares infectados pela doença, e que o Exército também se posicionou neste sentido, auxiliando em campanhas preventivas e de conscientização. “Distribuímos panfletos que falavam sobre os sintomas da doença e medidas de prevenção, tudo no idioma local”, disse.
Experiências
De uma missão que considerou marcante em sua totalidade, Renan descreveu uma cena que chamou a atenção. “Vi uma galinha tentando comer um rato, e depois vi que uma criança disputava o rato com a galinha. A criança ia comer o rato”, descreveu. “O que mais incomodava era a vontade de ajudar todos simultaneamente e não poder”, disse Renan, se referindo principalmente à fome.
“Tivemos um bom treinamento antes de chegar ao Haiti, sabíamos o que iríamos encontrar e como iríamos encontrar. Recebemos instruções inclusive do idioma, o que facilitou nossa atuação”, explicou. Das lições que trouxe para casa, ele enumerou algumas. “Em primeiro lugar, dar valor à vida, ao trabalho, à nossa casa; dar valor ao Brasil. Foi uma experiência única poder ajudar as pessoas independente de cor, raça ou crença, não tem quem tire isso de mim”, disse.
Uma experiência que agora está direcionando seus próximos passos. Renan vai servir ao Exército por mais 4 anos, e ainda em 2011 vai prestar concurso para ser um oficial do Bombeiro. “Pretendo estudar e prestar concurso. Quero continuar ajudando as pessoas, por isso essa é a profissão perfeita para mim”, contou.
Missão
As tropas brasileiras continuam no Haiti, e são revezadas a cada seis meses. Segundo informações do Exército, a troca de contingente tem duração de três semanas, quando são enviados em média 150 militares por vôo, através das aeronaves da Força Aérea Brasileira. O contingente total é de aproximadamente mil soldados. Todas as regiões do Brasil já deram sua contribuição, enviando homens para integrar a Base Brasileira no Haiti. Para substituir os militares que retornaram ao Brasil no início deste ano, o Exército enviou agora seu 14º contingente.
PREFEITURA MUNICIPAL DE QUATRO BARRAS
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