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O Exército inicia oficialmente nesta quinta-feira a segunda fase da ocupação dos complexos do Alemão e Penha. O governador Sérgio Cabral e o ministro Nelson Jobim assinarão, pela manhã, na quadra da Rua Canitá, no Morro da Fazendinha, o acordo para organização e emprego da Força de Pacificação no Rio de Janeiro.
Revistas e cumprimento de mandados de prisão – responsabilidades das polícias Militar e Civil – só poderão ser cumpridas na presença de um militar do Exército. Na manhã de ontem, soldados recuperavam ruas, tapando buracos onde antes havia barricadas, circulavam pelas comunidades para reconhecer a área. Um cenário que não parecia o que havia ocorrido 12 horas antes, quando houve tiros e uma prisão.
Por volta de 23h de terça-feira, pela primeira vez após a pacificação, dois tiroteios diferentes assustaram moradores. Na primeira ação, soldados da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército evitaram que um assaltante roubasse um ônibus na esquina da Avenida Itaoca com Estrada do Itararé, perto de um dos acessos ao Alemão. Foi quando balas traçantes vindas do alto do morro causaram apreensão. Tiros atingiram uma clínica e três casas na Av. Itaoca, sem ferir ninguém.
Ações quase simultâneas
Evandro Delfino Ataíde, 37 anos, que tentara roubar um ônibus com arma de brinquedo, correu para fugir dos militares, mas acabou baleado nas nádegas. Ele foi socorrido na base da Brigada Paraquedista, antes de ser levado para o Hospital Getúlio Vargas, na Penha.
Logo depois, os soldados revidaram os tiros disparados por três homens dentro de um carro na mesma avenida. “Foi tudo muito rápido. Vi os soldados dando tiro para o alto e depois dispararam em direção ao cara, que caiu no chão. Depois veio um carro disparando tiros. Foi quase ao mesmo tempo. Não deu para ver direito porque procurei me abrigar para não levar uma bala perdida”, contou um frentista.
O major Fabiano Lima de Carvalho, oficial de comunicação da brigada, garantiu que os dois episódios não têm ligação e não vão mudar o planejamento do Exército. “Não vivenciamos nada semelhante em quase um mês de ocupação, mas nada vai alterar nossas estratégias de ação até porque, aparentemente, foram dois eventos isolados”, afirmou o major, que abriu Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar os detalhes sobre os disparos.
Cavalos da PM viram atração
A Polícia Militar promoveu ontem uma série de atividades esportivas e recreativas nos complexos da Penha e do Alemão. A grande sensação foram os cavalos do Regimento de Cavalaria da PM. Guiadas por policias, crianças se divertiram dando voltas montadas nos animais
“Não fiquei com medo. Ele (o policial) te leva e você segura. É muito legal”, contou Sara Bastos, de 6 anos, moradora da Nova Brasília. As crianças davam uma volta e corriam para o fim da fila para montar mais uma vez.
Com duas medalhas no peito, Ana Carolina Santana Santos, de 9 anos, se orgulhou de ter ganho as competições de basquete e taekwondo. “Eu nunca havia feito. Mas eles me ensinaram e eu fiz certinho. E já ganhei medalha. Mas o que eu quero mesmo e fazer balé e natação”, contou a menina.
À tarde, houve ainda palestras, atendimento médico, peça de teatro e uma apresentação da Banda Sinfônica da Polícia Militar, com temas natalinos. Na festa das criançada, Papai Noel distribui 10 mil brinquedos
Às vésperas da ocupação do Exército e do Natal, o dia ontem foi de festa no Complexo do Alemão. Na Favela da Grota, um Papai Noel e seus ajudantes distribuíram para crianças 10 mil brinquedos. As doações foram arrecadadas numa em 200 agências do Banco Santander numa campanha feita numa parceria com o AfroReggae.
A pequena Evelyn, de 3 anos, empolgou-se ao receber um embrulho: “vou abrir na minha casa com a minha mamãe para mostrar para o meu pai. Sabe quem me deu esse presente? O Papai Noel!”.
Moradores da Grota, Micheas Felipe, de 4 anos e Ana Clara Felipe, de 7, foram de carona na bicicleta do pai, José Teodoro. “Ganhei uma bola. Eu queria um presente. Estou feliz”, disse o menino, complementado por seu pai: “Papai Noel chegou mais cedo este ano”.
Em meio à bagunça promovida pelas crianças, uma senhora disse estar emocionada: “nunca pensei em viver para ver isso acontecer aqui. Fico até arrepiada. Obrigada, Deus!”. Sem querer se identificar, ela afirmou ainda temer pela volta dos traficantes. “É uma felicidade. Estou com 68 anos e nunca havia visto essa paz. Essa tranquilidade. Mas não quero falar. Desculpa. A gente ainda não sabe se isso vai realmente vingar. Sabe como é, né?”, ponderou.
Tamires, de 9 anos, aproveitou para tirar uma foto com o Bom Velhinho. “Sabia que era o meu pai que me dava presentes. Hoje foi o Papai Noel mesmo quem me deu”, festejou.
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