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THIAGO TUFANO
Primeira brasileira a se classificar para os Jogos Olímpicos de Londres 2012, Ana Luiza Mello está confiante para a competição na capital britânica. Aos 36 anos, a atiradora carimbou o passaporte para Londres 2012 na prova de pistola de 25 metros no Campeonato das Américas. Além disso, Ana Luiza é a primeira atleta do País a se classificar nesta modalidade desde Barcelona 92, um feito histórico para o Brasil.
Mas diferente da maioria dos esportistas, Ana Luiza não se apaixonou pelo esporte desde criança. Muito pelo contrário. Em entrevista exclusiva ao Terra ela admite que assistir a uma competição de tiro não é muito agradável. Antes de se tornar uma atiradora de competições, a brasileira se formou em biologia, deu aulas no Colégio Militar e ainda tornou-se major do Exército. O responsável pela sua paixão pelo tiro esportivo é o também atirador Volney Filho, seu ex-marido.
Terra: Como começou sua carreira? Por que decidiu fazer tiro esportivo? 
Ana Luiza: Entrei para o exército em 95 e nunca tinha pego em uma arma na minha vida, nem sabia que existia esse esporte. Conheci meu ex-marido que era atleta de tiro e ele participava de competições. Isso foi um grande incentivo para mim. Ele que me ensinou e assim foi. São 11 anos e nós nos separamos, mas eu não me separei do tiro. Comecei mais para acompanhá-lo nas competições e pensei que fosse um esporte chato. É muito chato assistir, mas participar de uma competição é outra coisa. Eu já tinha todo o material, mas o início requer uma insistência para começar. Depois que você começa a competir, representar o Brasil em competições, isso incentiva ainda mais.
Terra: Mesmo com a rotina de treinos, ainda tem tempo para dar aulas de biologia? 
Ana Luiza: Minha carreira de professora está parada, porque sinto que sou mais útil como atleta. Me formei em biologia e fiz prova para ser professora de biologia no Colégio Militar. Eu gosto das duas coisas, mas confesso que sinto muito prazer nos treinamentos, de me destacar. Essa vaga para Olimpíada que não era conquistada desde 92, em Barcelona. Esse tipo de coisa que faz com que eu sinta ainda mais prazer nesse esporte. Estou me sentindo mais útil como atiradora do que como professora.
Terra: Quais são as expectativas para Londres 2012?
Ana Luiza: A expectativa é que, faltando ainda um ano e meio, eu possa treinar ainda mais e participar de competições no exterior. Isso ajuda no treinamento psicológico. Preciso também aprimorar ainda mais a minha técnica para chegar à Olimpíada para brigar por medalhas.
Terra: Como está a preparação para a Olimpíada? 
Ana Luiza: Eu conquistei a vaga no penúltimo campeonato do ano. Participei depois de uma competição militar e agora estou de férias. No ano que vem vou sentar e fazer um planejamento. Esse planejamento ainda não está definido, mas é certo que vamos ter a mesma carga de treinamentos por dia. De manhã e à tarde, incluindo aeróbica e outros treinos, mas ainda vou traçar esse planejamento.
Terra: Como são os treinos de tiro? 
Ana Luiza: Eu treino mais ou menos quatro horas pela manhã e mais duas horas de tarde. Existem vários modos de treinar. A gente dá muitos tiros em seco, sem munição, só para acompanhar a parada da arma. Existem também treinos específicos com o peso da pistola. O tiro é dividido em alguns fundamentos. Separamos esses fundamentos para treinar cada um. O treino é como se fosse uma competição. O preparo físico não é tão rigoroso como em outros esportes, tanto é que é um esporte que tem uma longevidade. É necessário o conjunto para você estar bem. Mas o físico não é tão imprescindível. O bom é você ter um condicionamento aeróbico bom para a freqüência cardíaca estar baixa, mesmo com a adrenalina. É um esporte que a adrenalina ajuda, ela sempre vai existir, mas tem que saber controlar.
Terra: Dá para sonhar com uma vaga nas Olimpíadas de 2016? 
Ana Luiza: É muito cedo para pensar isso. Dá para sonhar, porque é um esporte que tem uma longevidade maior. A experiência conta muito. No tiro isso ajuda muito. Não estou pensando nisso, mas seria um grande sonho.
Terra: Quais são as dificuldades do tiro esportivo, uma modalidade pouco divulgada? 
Ana Luiza: Um ou outro atleta que consegue patrocínio. Isso é muito difícil, ainda mais no tiro. Agora as pessoas estão divulgando mais, mas nunca me ofereceram patrocínio, porque é muito difícil um empresário querer vincular o nome de sua marca ao esporte. É muito complicado. Na nossa cidade, por exemplo, é facilmente confundido com outra coisa. A questão da munição é cara, o material todo é muito caro. É um investimento muito alto. É mais difícil do que outro esporte. A natação, por exemplo. Se você quer fazer natação tem uma academia perto de casa. Já com o tiro é diferente, mas melhorou muito nos últimos anos.
Terra: Acha que sua classificação e a medalha da equipe feminina no Mundial de tiro podem simbolizar uma virada na carreira? 
Ana Luiza: Eu acho que sim. Espero que contribua com o esporte e não só com a minha carreira. Tenho uma situação tranqüila para treinamento. Sou militar. Tenho armamento,munição, e isso já ajuda muito. Espero que essa vaga que consegui em Londres 2012 sirva para as pessoas que queiram começar, para pessoas que se interessam, patrocinadores. Acho que tudo isso vai ajudar o esporte.
Terra: Já presenciou algum acidente durante uma competição ou treinamento do tiro esportivo? 
Ana Luiza: Nunca, porque existe muitas regras. Eles são bem rígidos quanto a isso. A arma tem que estar apontada para o alto, você não pode tocar na munição nem no armamento antes da ordem dos juízes. E isso é muito observado. Qualquer movimento em falso o atleta é classificado. Existem ordem para tudo. Nunca vi nenhum acidente, nem um atirador com uma arma de competição se envolver em algum acidente. Às vezes ouvimos falar, mas não em uma situação de competição. A arma de competição tem um calibre menor do que o usado em uma arma de defesa. Ela tem um cabo de madeira, anatômico. É muito diferente.
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