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MPF apura cárcere privado durante treinamento no CIGS
Cerca de 5 mil já fizeram o treinamento militar no centro de instrução do exército.
O Ministério Público Federal (MPF) converteu em Inquérito Civil Público o procedimento administrativo que investiga denúncias de cárcere privado e excessos praticados durante treinamento militar realizado no Centro de Instrução de Guerra na Selva (Cigs), do Comando Militar da Amazônia (CMA), em Manaus.
A Portaria foi publicada no Diário Oficial da União (DOU), que circulou ontem. O inquérito vai apurar denúncia anônima contra o Exército Brasileiro. Desde 2006, quatro militares morreram durante treinamentos militares em Manaus. Os sargentos Alexsandro de Oliveira Sales, 27, e Antônio Carlos Duarte Angelim, 30, morreram, no dia 16 de julho de 2006, quando faziam um treinamento na piscina do Cigs. Em 2007, o capitão do Exército Anderson Márcio Gomes da Silva, 33 anos, morreu afogado, durante um treinamento do Curso de Operações de Selva, no Lago do Puraquequara, zona Leste de Manaus. Um primeiro tenente do Exército, que conduzia as atividades do treinamento na época foi condenado por homicídio culposo, sem intenção de matar.
No curso de operações na selva, militares passam fome, sede, cansaço, forte calor e chegam a dormir uma hora por dia. Até 30% desistem do treinamento na selva, que pode durar de 9 a 11 semanas. Os militares ficam suscetíveis a doenças como malária e leishmaniose, além de enfrentarem o calor, o cansaço e as pressões psicológicas causadas pelo isolamento. Segundo dados do Cigs, quanto menor é a patente do militar, maior é o índice de desistência. Cerca de 5 mil profissionais já fizeram o treinamento.
Os militares defendem o treinamento pesado como sendo essencial para a sobrevivência e adaptação. Entendem que quem não está totalmente obstinado, determinado a concluir o curso desiste, até porque nenhum deles é obrigado a concluir e, em um ambiente de guerra a hostilidade é bem pior e o nível de dificuldade é multiplicado.
Em entrevista ao DIÁRIO, em 2009, o coronel George Divério informou que o número de mortes nos cursos é muito pequeno levando em consideração a quantidade de alunos formados no Cigs. “As mortes podem ocorrer por uma fatalidade, porque a atividade militar é uma atividade de risco. Quando a morte é provocada por conduta adotada pelo instrutor, é aberto um procedimento administrativo”, destacou.
A assessoria de imprensa do CMA informou que o Exército só irá se pronunciar sobre a Ação Civil Pública do MPF quando for oficialmente notificado. A portaria publicada ontem, manda que seja oficiado o Ministério Público Militar, solicitando cópia dos Inquéritos Policiais (ou ações penais), que têm como ofendidos os militares Alexsandro de Oliveira Sales, Antonio Carlos Duarte, Elias Matias da Silva Junior, Anderson Márcio Gomes da Silva e Leandro Barbosa Cabritta, dando prazo de dez dias para as respostas.

Comento:
É evidente que, vez ou outra, existem excessos nos cursos militares e esses devem ser punidos com rigor. Até aí, nada demais. Agora, pretender que cursos como os do CIGS, que formam os melhores guerreiros de selva do mundo, assumam a forma de meros acampamentos de recrutas, revela um total desconhecimento da finalidade da formação de profissionais militares nessa área específica. O guerreiro de selva é formado para combater num ambiente terrivelmente inóspito, onde a capacidade de resistência é vital para a sobrevivência e a vitória. Como prepará-lo para tal, sem exigí-lo ao máximo?
Ações como essa do MPF do Amazonas são reveladoras de que – de tanto ver a barriga dos milicos crescer dentro da farda de passeio usada nos gabinetes – boa parte da sociedade esqueceu que a atividade militar é de alto risco! O militar, em essência, é formado para matar ou morrer. E não será com o afrouxamento dos cursos de elite que teremos profissionais preparados para isso.
Pelo visto, os nobres procuradores entendem que os brevês, estrelas e divisas dos militares devem ser colados com cuspe, e não à custa de suor, sacrifício, dedicação, superação e sangue.
É o fim dos tempos.
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