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Em pouco mais de um mês, a cólera já deixou 1.250 mortos e 52 mil pessoas contaminadas

Laura Schenkel
Integrantes da Minustah, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, militares gaúchos e de outros Estados do Brasil enfrentam hoje um grande desafio: a epidemia de cólera que se espalha pelo país do Caribe. Em meio às precauções para evitar uma contaminação, os militares ajudam os haitianos a enfrentar a doença, com ações como a distribuição de água tratada.
Enviados ao Haiti como parte de uma missão de paz da Organização das Nações Unidas (ONU), militares brasileiros (entre eles, dezenas de gaúchos) tiveram um treinamento de seis meses para enfrentar as condições mais adversas, de furacões à destruição provocada pelo terremoto de janeiro — mas acabaram surpreendidos por uma epidemia mortal. Em pouco mais de um mês, a cólera já deixou 1.250 mortos e 52 mil pessoas contaminadas. 
— A cólera surgiu de repente, mas nossas unidades estão tomando todos os cuidados necessários para evitar a contaminação — conta o sargento gaúcho Clandio Abrante, 41 anos, desde julho no país caribenho, o mais pobre das Américas, em entrevista por telefone a Zero Hora. 
Como se não bastasse a epidemia, as tropas ainda viram parte dos haitianos se voltar contra tropas da ONU — a população suspeita de que soldados nepaleses sejam os culpados por levar a cólera ao país. Os esforços para conter a doença — que só se propaga facilmente em áreas sem saneamento básico e poucas condições de higiene — têm sido prejudicados nos últimos dias pelos confrontos entre manifestantes e os militares. 
Não tomar água nem comer fora da base brasileira são as principais medidas de precaução. Isso porque a contaminação só ocorre a partir da ingestão de alimentos ou líquidos contaminados (confira quadro). O problema é que a maioria dos haitianos não tem acesso a água tratada, situação que foi agravada após o terremoto de 12 de janeiro, com o surgimento de grandes acampamentos para os desabrigados. 
— O sentimento entre os haitianos é de preocupação. A epidemia aumentou bastante. Mas a situação não deixa nossos militares apavorados — afirma Abrante, da Companhia de Comando do Comando Militar do Sul, em Porto Alegre. 
Os protestos relacionados à epidemia ocorrem principalmente no norte do país, onde há menos médicos e o número de mortes cresce de forma mais rápida. Na última quinta-feira, ocorreu uma situação extrema para as tropas: jovens haitianos atacaram soldados brasileiros no centro da capital, Porto Príncipe, e levantaram barricadas para protestar contra a epidemia. Os manifestantes cercaram e atiraram pedras em um caminhão com os brasileiros, que tentaram afastar a multidão apontando suas armas, sem sucesso. Durante o confronto, um soldado caiu e foi atingido por várias pedras, mas conseguiu se levantar e embarcou no caminhão. Apesar do clima de animosidade, Abrante garante que a epidemia não alterou a boa imagem dos soldados brasileiros entre os haitianos. 
Regiões mais afetadas pela epidemia no Haiti

Além de auxiliar a população no combate à doença, com a distribuição de água tratada ou mesmo ensinando hábitos básicos de higiene, os brasileiros se preparam para auxiliar na segurança das urnas nas eleições, marcadas para 28 de novembro. Entretanto, quatro candidatos à presidência pediram o adiamento do pleito. “Nós exigimos que as autoridades transfiram a data das eleições e que estabeleçam e divulguem um plano para combater a epidemia”, defenderam Josette Bijou, Gerard Blot, Garaudy Laguerre e Wilson Jeudy, em um pronunciamento conjunto. Outros candidatos pedem que a votação ocorra no dia previsto, para evitar instabilidade política. 

Familiares acompanham notícias com preocupação
Como se não faltassem motivos para apreensão, a epidemia de cólera agora é uma das principais preocupações das mulheres de gaúchos em missão no Haiti. Em entrevista a ZH, elas contaram as mudanças na rotina e os cuidados que estão sendo tomados pelos militares enviados ao país. 
— Preocupação sempre tem. Mas o que nos informam é que não há perigo na base. Pode ser que alguém contraia a doença, mas é difícil que isso ocorra lá dentro. Estão tomando muitos cuidados — diz Aline Severo Vargas, 32 anos, mulher do sargento Aimoré Vargas, 43 anos, do 6º Batalhão de Engenharia de Combate, de São Gabriel, e mãe de Dari, 11 anos, e Leonardo, oito. 
Apesar da dificuldade de comunicação, Aline sabe que o marido saiu apenas três vezes da base, a última delas no sábado, para ajudar na distribuição de água — tarefa complicada pelas brigas entre pessoas que temem ficar sem e não aceitam esperar por sua vez. 
As medidas de prevenção implementadas na base brasileira, no entanto, não são suficientes para tranquilizar a nutricionista Carla Cunha, 39 anos, mãe de Maria Eduarda, 11 anos. Seu marido, o capitão Paulo Norberto Conceição Silva, 36 anos — também do batalhão de São Gabriel — informou, do Haiti, que as crianças de lá estão sendo orientadas sobre hábitos de higiene para evitar a cólera, mas a pobreza, os efeitos do terremoto e a falta de saneamento básico dão um tom dramático à situação. 
Silvia, mulher do sargento Jairo Luís Cabreira, também de São Gabriel, conversa com o marido uma vez por semana pelo Skype: 
— Eles estão bem, não tem tanto perigo. Meu marido pede que eu fique tranquila e mantenha a calma. 
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