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“Não conseguiremos colocar a Amazônia e suas incalculáveis riquezas em uma redoma. É injusto que os povos da floresta sejam privados de explorar os recursos da selva, de forma sustentável e planejada.” General Augusto Heleno

O General-de-Exército Augusto Heleno Ribeiro Pereira é hoje um dos chefes militares mais respeitados e prestigiados do Exército Brasileiro. A partir de posicionamentos firmes, claros e sempre fiéis aos valores universais que temos orgulho de cultuar, granjeou uma legião de admiradores. Tem demonstrado especial apreço pelo Clube Militar, seja proferindo palestras e, assim, colaborando na discussão de temas nacionais importantes, seja comparecendo, seguidamente, a eventos programados nesta associação, apesar de residir fora do Rio de Janeiro, em Brasília. O Gen Heleno concordou em conceder esta entrevista à Revista do Clube Militar.

Revista – Gen Heleno, sua primeira participação no Clube foi proferindo uma palestra, sobre a Amazônia, que se tornou memorável. Após esse evento a situação da área de Raposa Serra do Sol evoluiu, a partir de uma decisão do STF. VExa julga que o desfecho do rumoroso caso foi satisfatório?
Gen Heleno – À época, exercia o cargo de Comandante Militar da Amazônia. Raposa Serra do Sol en quadrava-se em um contexto maior, no qual se destacava um documento intitulado “Declaração de Direitos dos Povos Indígenas”, cujo texto, em minha opinião, poderia motivar ações prejudiciais à integridade ter ritorial e à segurança nacional. Em princípio, as decisões da Suprema Corte devem ser cumpridas e não discutidas. Vale a pena ressaltar que, no voto do Supremo Tribunal Fede ral, constam dezenove recomendações que reforçam e/ou estabelecem princípios relevantes com relação à demarcação, ocupação e explora ção econômica de terras indígenas. Quem desejar maiores detalhes so bre a situação atual, aconselho a leitura da matéria da revista VEJA, de 05 de maio de 2010, sob o título “A Farra da Antropologia Oportunista”.

Revista – Como VExa avalia a situação atual da Amazônia, em termos de ameaças à soberania brasileira?
Gen Heleno – Apesar das restrições orçamentárias a que as Forças Armadas vêm sendo submetidas, com reflexos evidentes nos investi mentos para sua modernização, julgo que não há ameaças iminentes à nossa soberania na Amazônia. Graças ao trabalho incansável e com­petente das Forças Armadas (única presença visível do Estado em muitas regiões da brasileira Amazônia), ao conhecimento que adquirimos da área e de suas peculiaridades e, prin­cipalmente, ao fato de possuirmos, em nossas organizações militares de fronteira, combatentes de selva reconhecidos internacionalmente como os melhores do planeta, pre­servamos um poder de combate e de dissuasão compatível. Recente reportagem do jornal “O GLOBO” fala sobre a prisão de um dirigente das FARC, em Manaus. Sabemos perfeitamente que a Cabeça do Cachorro, extensa área de selva, per corrida por inúmeros cursos d’água, favorece o tráfico da cocaína produzida na Colômbia e controlada, em grande parte, por aquele movimento ilegal que se vale de táticas terroristas. Isso não significa que as FARC tenham bases guerrilheiras estabelecidas em território brasileiro. O que foi descrito na matéria jornalística nada tem a ver com ações militares. É preciso deixar claro que nossa fronteira, em área de selva, se estende por mais de 11 mil quilômetros. A fronteira México – EUA, com apenas 3200 km, não chega a ser perfeitamente controlada, apesar de todos os recursos disponíveis e de se tratar de terreno desértico. Melhorar o controle de nossas fronteiras, aí incluído o combate aos ilícitos transnacionais, exige melhor aparelhamento das Forças Armadas e um trabalho conjunto e efetivo de todos os órgãos com responsabilidade nessa dificílima tarefa: Polícia Federal, Receita Federal, INCRA, IBAMA, Funai, Polícias Militares e Civis Estaduais etc. A Estratégia Nacional de Defesa contempla a Amazônia com flagrante e justa prioridade. Prevê, inclusive, a instalação de mais de vinte novas organizações militares na faixa de fronteira, além de largo aporte de recursos tecnológicos. Esperamos que isso aconteça.

Revista – A imprensa, nacional e internacional, tem apontado a existência de inúmeros problemas liga dos à Ecologia na área amazônica. Como VExa vê essa exposição relativamente frequente?
Gen Heleno – Sabemos que a ambição de riqueza leva o homem a ignorar os limites da lei. O desmatamento da Amazônia Oriental, a exploração ilegal de madeiras, a extração clandestina de minérios, o tráfico de peles e animais silvestres, o roubo de nossa inesgotável biodiversidade preocupam e exigem me didas educativas e repressivas que coíbam os crimes ambientais. Não conseguiremos colocar a Amazônia e suas incalculáveis riquezas em uma redoma. É injusto que os povos da floresta sejam privados de explorar os recursos da selva, de forma sustentável e planejada. Serão eles, se jam ribeirinhos, indígenas, mestiços, habitantes de povoados e cidades da Amazônia, os grandes responsáveis pela preservação ecológica. Terão interesse em zelar intensamente pelo meio ambiente se dele retira rem recursos que atendam seus an seios. Precisam sentir-se amparados por ações governamentais que lhes proporcionem saúde, educação, se gurança, infraestrutura, conforto, enfim, uma vida digna e próspera. Governantes sabem perfeitamente o que fazer para atingir esses objetivos. Não precisamos, nem devemos aceitar que estrangeiros, mesmo bem intencionados, interfiram ou intervenham em problemas genuinamente nacionais, principalmente quando o passado os condena e lhes falta força moral para nos ensinar qualquer coisa sobre Ecologia ou so bre relacionamento com indígenas.

Revista – Como VExa poderia resumir a situação do índio na região amazônica?
Gen Heleno – Antes de mais nada, reafirmo que o Exército Brasileiro é o maior interessado no bem-estar dos nossos povos indígenas. Em alguns batalhões da Amazônia, eles são maioria absoluta. Voluntários, representantes de numerosas etnias, orgulham-se de ser brasileiros, soldados, e constituem nosso grupo humano mais valioso. A eles devemos os ensinamentos que nos tornaram combatentes diferenciados em área de selva. A política indigenista, contestada por diversos setores, tem merecido maior atenção governamental. Providências e re sultados ainda são bastante modes tos diante da grandiosidade do pro blema, agravado pelas divergências em sua abordagem. Há muito que fa­zer, pelos órgãos competentes. Aos índios, na minha opinião, devemos oferecer a oportunidade de escolha entre o isolamento e a integração ao, impropriamente chamado, “mundo civilizado”. Não se justifica o abandono em que vivem algumas etnias e comunidades, muitas delas ávidas pelo acesso aos recursos mais de senvolvidos.É possível preservar a cultura e os costumes desses povos e, ao mesmo tempo, proporcionar-lhes saúde, educação, tecnologia e infraestrutura. Torço para que isso aconteça no mais curto prazo.

Revista – Após concluída a missão na Amazônia, VExa recebeu a missão de dirigir outra importante área do Exército, embora completa-mente distinta da anterior. Como foi sua adaptação ao setor de Ciência e Tecnologia?
Gen Heleno – A adaptação continua até hoje. Aprendo diariamente e estou convencido da importância capital da Ciência e Tecnologia no mundo moderno e, obviamente, no campo militar. No caso específico do Exército, lutamos por uma mudança de mentalidade que nos proporcione resultados. Avançamos bastante nesse aspecto. Queremos, a partir de objetivos claros e factíveis estabelecidos pelo Estado-Maior do Exército, dentro dos critérios de necessidades, prioridades e pra zos, aproveitar as privilegiadas inteligências, lapidadas pelo Instituto Militar de Engenharia, para produzir o material de emprego militar da nossa Força Terrestre. Pesquisa e desenvolvimento de projetos de pendem de investimento continuado e compatível. Exigem massa crítica de engenheiros, sem perda de qualidade, e gestores competentes. Seguindo orientação expressa da Estratégia Nacional de Defesa, nãomais se farão aquisições sem que se garanta o offset, ou seja, a transferência de tecnologia, por mais que esse conceito seja polêmico e complexo. Se não formos autônomos na produção de itens estratégicos, po deremos, em situação de crise, per der a capacidade de atuar.

Revista – Quais os projetos, nessa área, com maior potencial de provo car impactos positivos na evolução da Força Terrestre?
Gen Heleno – São 85 projetos em desenvolvimento no Sistema de Ciência e Tecnologia. Vou destacar alguns que me parecem de fundamental importância:
– a prioridade um é a família de blindados sobre rodas. O protótipo será testado ainda esse ano;
– o radar Saber M60, tipicamente dual, poderá elevar consideravelmente nossa capacidade de vigilância na faixa de fronteira. Interessa à Petrobras, a Infraero, a Itaipu Binacional, ao CENSIPAN (Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amaz6nia) etc;
– o levantamento cartográfico da Amazônia é revolucionário. O radar empregado permite que a sondagem ultrapasse a copa das arvores e reflita exatamente o terreno, o que não acontecia anteriormente. Além da produção de cartas militares, haverá enorme progresso em mapeamento geológico, censo florestal, cartas de navegação fluvial, construção de hidroelétricas, traçado de rodovias etc.
Poderíamos acrescentar a essa lista: os óculos de visão termal, o projeto da fibra de carbono, o equipamento de comando e controle, o fuzil 5.56 mm e o novo FAL 7,62 mm, o míssil solo-solo AC, a Arma Leve Anticarro, a pilha térmica, o Veiculo Aéreo Não-Tripulado e os simuladores de helicóptero e do tiro de pistola. Temos, portanto, um leque ambicioso de produtos, bem encaminhados, de alto valor estratégico, que dependem de investimento e de encomendas.

Revista – O que VExa pode destacar sobre o IME, reconhecidamente uma das melhores escolas de engenharia do país?
Gen Heleno – O IME, desde sua fundação em 1792, mantém o conceito de excelência que o coloca, sem ufanismo, como uma das melhores, senão a melhor escola de engenharia do país. Destaca-se, anualmente, de forma exponencial no ENADE, instrumento de medida de qualidade dos cursos de nível superior. Forma engenheiros para o meio civil e para o Exército Brasileiro. Transmite a esses jovens, de inteligência privilegiada, valores de disciplina, persistência, amor a pesquisa, ética, além de conhecimentos profissionais de altíssimo nível, em graduação e pós-graduação, graças a qualidade dos seus docentes e discentes.

Revista – Ciência, sabidamente, não se faz sem recursos financeiros. Quais as perspectivas para os próximos anos?
Gen Heleno – Talvez seja esse o ponto crítico das nossas aspirações e perspectivas. Recursos orçamentários muito aquém de nossas reais necessidades nos impedem, há décadas, de investir, e nos obrigam a utilizar todo nosso estoicismo e flexibilidade para cumprir as missões que nos são atribuídas. Pode ser que a Estratégia Nacional de Defesa desperte a sociedade para a urgência em dotar nossas Forcas Armadas de efetivos, equipamentos e estrutura compatíveis com a grandeza estratégica do Brasil. Precisamos manter nossa capacidade de dissuasão e ganhar capacidade de projetar poder, única forma de nos fazer presentes, em tempo hábil, com a potência pertinente, em qualquer ponto de um País continental.

Revista – Na internet, especulou-se bastante sobre uma possível candidatura sua a Deputado, a Senador e até a Presidente da Republica. VExa admite, para o futuro, pensar em um projeto na área política?
Gen Heleno – Não tenho qualquer aspiração nessa área. Respeito os que exercem a Política, com ética e dignidade, no entanto meu perfil não se alinha com os requisitos básicos para o desempenho dessa atividade, na atual conjuntura. Além do mais, não gostaria que meus pares e subordinados deduzissem que minhas atitudes, ao longo da carreira, escondiam aspirações políticas.

Revista – A Revista do Clube Militar põe à disposição de VExa um espaço para outras considerações que deseje expor.
Gen Heleno – Gostaria de lembrar, principalmente aos mais jo vens, que nós, militares, somos formados para a adversidade, para o inesperado e para decidir, com sabedoria, nos momentos de crise. Nosso espírito de cumprimento de missão e os valores que cultuamos, ao longo da História, permitem que nos superemos quando exigidos e que, invariavelmente, coloquemos o Brasil Acima de Tudo.
Nota do ForTe: Essa entrevista com o General-de-Exército Heleno, concedida à Revista do Clube Militar, foi realizada entre maio e julho deste ano e chegou, recentemente, ao nosso conhecimento, sendo que, apesar de ter sido realizada há alguns meses, somos de parecer que seu conteúdo é atual e importante, bem como é de interesse de nosso Blog publicá-lo para o conhecimento de nossos leitores e comentaristas.
FONTE: Revista do Clube Militar, Ano LXXXIII, n° 437, 2010.

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