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Paulo Ricardo da Rocha Paiva
Do autor para o Plano Brasil
Preciso deixar correr a mão que escreve transmitindo a angústia, a tristeza que emana do coração do soldado. Falar pelos que já nasceram soldados, porque assim viveram e assim vão morrer. Pensar, avaliar a frustração nos marinheiros e nos aviadores, posto que são todos eles simples e crédulos guerreiros da Pátria. Pedir ao cidadão, à mídia, que os olhem como acreditam ser, pelo que juraram, pelo que os emula, já que na luta devem ser valentes, cumprir a missão vencendo o inimigo, sem lamentar derrotas.
 Nossos filhos fardados precisam de ajuda, de solidariedade. Os rapazes estão indefesos, desarmados, incapazes de garantir o porvir de uma descendência que não é só deles mas de todo um povo! Em verdade, o sentimento é de que o Brasil os esqueceu e se importa pouco se vão morrer desaparelhados, absolutamente inferiorizados, com carros de combate, submarinos e aviões de caça que ainda são negociados no exterior. Para variar, o Ministério da Defesa este ano é o mais afetado pelos cortes no orçamento, uma retenção infame de R$ 5,37 bilhões.
  Que alguém responda: -“Como usufruir dos investimentos em educação, na saúde, no PAC afinal, se cruzando as ruas das capitais estaduais na Amazônia estiverem os blindados das divisões de marines, se ancorados, montando guarda às nossas plataformas de exploração no pré-sal, estiverem os cruzadores de uma coalizão?” O fato é que a urgência e a emergência em termos de um “poder de dissuasão sério” estão a exigir uma mudança total de mentalidade que não comporta mais medidas paliativas de padrão convencional.
  Lamentar pelo marinheiro, herdeiro da coragem de um Marcílio Dias que teve os braços amputados pelo inimigo quando impedia a arriação da Bandeira do Império. Reclamar pelo soldado, guerreiro anônimo herdeiro do Brigadeiro Sampaio, que, três vezes ferido em Tuiutí só passou o comando de sua divisão no estrito cumprimento de ordens emanadas do também bravo General Osório. Clamar pelo aviador arrojado, o falcão agressivo senhor do passado de glórias do 1º Grupo de Aviação de Caça, destacado nos céus da Itália em 1944. Por que não?
  A emoldurar entretanto esta legião de heróis estava o símbolo, a marca registrada da vitória, da glória, da honra militar dos que lutaram o bom combate, enfim dos que venceram porque estavam armados para a ocasião. Cidadão civil, trabalhador anônimo e diuturno, hoje, não espere deles tal desempenho. Não se engane, serão sacrificados em missão, não poderão garantir a tua terra, a tua casa, os teus pertences. E tudo isso por quê? Porque, ao invés de desencorajar, vão ter que combater absolutamente fragilizados.
   Tchê paisano, companheiro de infância, dos bancos escolares, do bate-papo entre vizinhos, você testemunhou os governantes e políticos de retórica inútil, demagogos contumazes, patriotas de ocasião discursando no melhor estilo mensaleiro: -“Realmente, é preciso, nossas Forças Armadas estão no desmanche… é necessário… vamos providenciar a altura, fazer e acontecer. O Ministério da Defesa quer comprar aí uns yellow submarines e alguns caças. Mas isto não resolve, Amazônia e pré-sal, convencional por convencional o gap é irreversível; vão combater na selva e no mar com atiradeiras e traques de São João. Ah! Mas o TNP é clausula pétrea, Deus nos livre, podem nos incluir no eixo do mal. Sabe de uma coisa, vamos pagar para ver. A propósito quantos de nós podem se candidatar a cargos eletivos? Sim porque agora existe uma tal de ficha limpa obrigatória”.  Quanta cretinice! Um dia serão tomados de remorso pela incúria, pela desfaçatez, justiça seja feita, pela falta de brasilidade!
 Publicado no “A RAZÃO” de Santa Maria em 14 de setembro de  2010.     
*Coronel de Infantaria e Estado-Maior
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