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Por João Manuel Rocha

Criado inicialmente para quebrar a resistência polaca, o campo que se tornaria símbolo do Holocausto nazi recebeu a 14 de Junho de 1940 o primeiro grupo de prisioneiros políticos
Combatentes de 1939, membros da resistência clandestina, estudantes, alguns judeus. Há 70 anos chegava a uma antiga caserna do Sul da Polónia um comboio com 728 prisioneiros políticos. Era o primeiro de uma longa série que daria a Auschwitz, lugar de extermínio de 1,1 milhões de pessoas, a triste fama de símbolo do Holocausto.
A viagem desse primeiro comboio, que a 14 de Junho de 1940 levou prisioneiros de Tarnów para o recém-criado campo de concentração, foi ontem evocada pela Associação de Famílias de Auschwitz para homenagear “todas as vítimas dos campos nazis”. A marcha lenta, o calor sufocante, as carruagens de janelas fechadas, a incerteza do destino, terão vindo à memória dos poucos sobreviventes que cumpriram os 140 quilómetros do percurso.
“Disseram-nos que nos levavam para um campo de concentração, mas nenhum de nós sabia o que era um campo de concentração”, contou à AFP Kazimierz Zajac, 86 anos, no comboio que evocou a viagem inicial.
Antes da partida de ontem, no cais da estação de Tarnów, foi inaugurado um pequeno monumento com os nomes dos 728 prisioneiros, um triângulo vermelho, cor dos detidos políticos, e a letra P de polacos. Pelo menos 227 ocupantes desse primeiro comboio viriam a morrer em Auschwitz, 300 sobreviveram, segundo dados divulgados pela agência.
Tal como há 70 anos, o comboio parou em Cracóvia, onde os prisioneiros de 1940 souberam da tomada de Paris pelas tropas nazis. “Foi como se o chão desaparecesse debaixo dos nossos pés. Tínhamos querido chegar a França, ao Exército polaco, e eis que Paris estava ocupada e a França se rendia”, recordou Kazimierz Albin, 17 anos à época.
Tatuados com números de 31 a 758 – os primeiros 30 eram prisioneiros alemães de delito comum que serviam de auxiliares, os kapos – souberam à chegada que “qualquer desobediência ou tentativa de evasão [seria] punida com a morte,” recorda Albin.
Com as prisões cheias, os ocupantes tinham começado a construir campos de concentração. A antiga caserna da cidade de Oswiecim, baptizada como Auschwitz pelos nazis, fora escolhida em finais de Abril pelo chefe das SS, Heirich Himmler, para receber resistentes polacos. Alargado em Março seguinte, viria a ser cenário, em Setembro de 1941, ainda antes do lançamento da Solução Final, do primeiro assassinato em massa, com gás Zyklon B, de cerca de 600 prisioneiros soviéticos e 250 polacos.
Até à Primavera de 1942, Auschwitz foi essencialmente ocupado por polacos não judeus. Nessa altura, começaram as chegadas de judeus de toda a Europa, num afluxo que obrigaria à criação de Auschwitz-II, ou Birkenau. Kazimierz Zajac, o número 261, que ali ficou até Dezembro de 1944, recorda o inferno em que o campo se tornou e o destino que um SS lhes traçava: “Os judeus não viverão mais de um mês, os padres três meses e para os outros a única saída possível é a chaminé do forno crematório.”
Em Auschwitz-Birkenau morreram, segundo os dados do museu do campo, um milhão de judeus, 70 mil a 75 mil polacos não judeus, 21 mil ciganos, 15 mil prisioneiros de guerra soviéticos e dez mil a 15 mil outros prisioneiros, entre os quais resistentes. E nem sequer se pode dizer que ninguém sabia: desde Novembro de 1940, escassos cinco meses após a sua abertura, e ao longo de dois anos e meio, Witold Pilecki, capitão polaco e resistente à ocupação, que viria a participar no levantamento de Varsóvia e seria executado pelo regime comunista do pós-guerra, enviou para o exterior informações, que terão chegado desde Março de 1941 aos britânicos.
Pilecki, que se fizera prender para preparar uma insurreição, recolheu informações com dados sobre extermínio de judeus, câmaras de gás e construção de fornos crematórios. Evadiu-se em Abril de 1943, mas não conseguiu convencer os aliados sobre o Holocausto que ali decorria. “A maior parte dos que receberam as suas informações não acreditaram”, designadamente dirigentes britânicos e norte-americanos, escreveu o historiador britânico Michael Foot, recordado pela AFP.
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