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Ricardo Montedo
Janeiro é ensolarado. Entretanto, minhas lembranças daquele dia longínquo sempre retornam envoltas numa bruma cinza.
Foi quando me despedi de minha mãe. Ao virar às costas aos seus olhos marejados e embarcar rumo à outra vida, algo se quebrou dentro de mim.
Naquele preciso momento, deixei pra trás infância, adolescência, lar, família e, sobretudo, a fortaleza chamada mãe, para a qual, até ali, eu regressava a salvo ante qualquer sobressalto.
Tornei-me um soldado que nunca mais retornou para casa e passou a vida sonhando em voltar a ser o menino que, engasgando o pranto ao mirar o infinito pela janela do ônibus que o arrancava do seu mundo, dizia de si para si: Homem não chora, homem não chora!
Perdi a conta das vezes em que a profissão privou-me de abraçar minha mãe no seu dia.
Mas ela sempre esteve ao alcance de um: Alô! Oi, mãe! Tudo bem? Feliz Dia das Mães!
Hoje, não. Já não tenho quem abraçar, ou mesmo para quem ligar.
É meu primeiro Dia das Mães sem Mãe. Dói. E como.
Trinta anos depois, respondo ao menino: Homem chora, sim! E lágrimas saudosas escorrem-me pela face, ressaltando nela os sinais do tempo.
E minha alma repete, como se fosse um mantra: Mãe, eu te amo!
Do teu filho-soldado.
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