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Eu-Repórter: Porto 
Príncipe, dois meses depois do terremoto que atingiu o Haiti/ Foto do 
leitor Paulo Monteiro
Eu-Repórter: Porto 
Príncipe, dois meses depois do terremoto que atingiu o Haiti/ Foto do 
leitor Paulo Monteiro

PAULO EDUARDO MONTEIRO

Há experiências que, por vezes, de maneira quase que desapercebida, adquirimos em nossas vidas. São coisas do quotidiano, atividades corriqueiras ligadas ao trabalho, à família e até mesmo ao lazer. No entanto, em alguns casos, somos como que tomados de roldão e, de repente, surgem situações e circunstâncias verdadeiramente arrebatadoras. Não tenho como me furtar ao fato de que, neste exato momento, estou vivendo uma delas…
Completei no dia 20 de março os meus primeiros 15 dias na cidade de Porto Príncipe, no Haiti. Em consequência do terremoto devastador que atingiu esse país em janeiro deste ano, a ONU decidiu aumentar os efetivos de tropas e civis para melhor conduzir o já conturbado processo de estabilização do Haiti. Nesse contexto, houve uma maior demanda de Staff Officers – Oficiais de Estado-Maior – para trabalhar no planejamento e na coordenação geral dos diversos setores. Aqui estou.
Há várias maneiras de se chegar ao Haiti vindo do Brasil. Dentre elas, destaco as conexões aéreas por Miami ou pela cidade do Panamá. Outros sete oficiais do Exército Brasileiro e eu viemos pelos Estados Unidos. Na chegada a Porto Príncipe, o cenário, visto de cima, era meio que parecido com a Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, um misto de cidade grande com favelas que parecem não ter fim, num intenso ir e vir de pessoas, carros e ônibus. Aliás, o que chamo de ônibus, por aqui é conhecido como Tap-tap – um veículo que, um dia, foi um ônibus, mas agora é muiticolorido e tem a silhueta aumentada de maneira irregular, para comportar o dobro de pessoas que, diuturnamente, nele viajam, amontoadas… Diferente, de fato, foi contemplar os inúmeros acampamentos formados por barracas de todas as cores e tamanhos, também amontoadas umas sobre as outras, em alguns casos, e cobertas e alinhadas, em outros.
Logo após o pouso, já era possível observar as marcas do desastre natural de janeiro. As edificações do aeroporto estavam rachadas, e escoradas por pedaços de madeira e vigas. A sala de desembarque improvisada ainda ocupa um galpão cedido pela empresa Odebrecht, do Brasil.
Chamou a minha atenção a lotação do avião da American Airlines, com um grande número de civis de todas as partes do mundo. Eu sabia, é claro, da presença e do trabalho dos organismos internacionais de ajuda humanitária e de várias ONGs, mas não tinha ideia do tamanho da tragédia, nem tampouco, das dimensões da ajuda.
Chovia suavemente e a água misturada à poeira típica do local espalhava uma lama meio esbranquiçada por toda a parte. Na saída, com as pesadas malas sobre os precários carrinhos, nos deparamos com uma falange de pedintes, carregadores e taxistas que pareciam já acostumados àquele ritual de empurrões e gritos, na luta por uma gorjeta de U$ 1.
Com a ajuda dos brasileiros que foram nos buscar, nos dirigimos a um dos hotéis que ainda permaneciam de pé, o Galaxy. Curioso foi o fato de que, para chegar até lá, ultrapassando um incrível congestionamento, pudemos ver de perto os efeitos do terremoto recente, prédios rachados ou derrubados, numa paisagem de entulho e lixo, muito lixo. Tudo bem, havia apenas quatro quartos – todos no subsolo…
Ficamos com os quartos e perguntamos sobre um lugar para comer. Não havia. Então, o recepcionista do hotel, que mal falava um francês arranhado (o idioma local é o Creole, parente longínquo do francês), nos ofereceu os serviços de uma cozinheira. Ficamos receosos pela questão da higiene mas, após uma rápida avaliação, nos quotizamos para comprar os gêneros e alguns refrigerantes. Em cerca de duas horas estávamos saboreando uma gigantesca macarronada com linguiça.
Em função das lamentáveis circunstâncias, as condições de moradia da população local e de todos os contingentes civis e militares que aqui estão assumiram uma maior relevância no escopo das preocupações da ONU. Há cerca de 200 mil desabrigados, vivendo em barracas de todos os tipos. Além disso, muitos dos integrantes das ONGs também se valem de barracas como alojamentos. Bem, além dos terremotos, esta é uma região de tornados e furacões, especialmente, entre os meses de junho e novembro. O esforço está concentrado na construção de vilas residenciais, mas já se sabe que não haverá tempo…
Para minha sorte, a ONU fretou um navio (um senhor de 48 anos) – Olá Esmeralda, de bandeira venezuelana – pelo qual paga a bagatela de U$ 72 mil por dia para servir de hotel, ao menos, pelo período de seis meses. É claro que todos pagamos um certo valor para morar, mas a segurança não tem preço.
O terremoto deixou também duras marcas nas mentes e corações das pessoas que nos reportaram sobre os inúmeros corpos decepados e disformes que ajudaram a remover, a dor pelos amigos que foram encontrados e o desespero dos que não encontraram os seus entes queridos.
Tivemos ainda a oportunidade de circular pelos conhecidos e perigosos bairros de Cité Soleil e Bel Air. Ninguém respeita o trânsito. O cenário é triste e desolador. Parece um filme de horror, especialmente, à noite. É grande o número de construções ruídas, sendo que muitas delas, simplesmente, estão caídas sobre o próprio peso ainda, o que significa que há, além dos 250 mil corpos confirmados, ao menos, segundo as estimativas, mais 50 mil sobre os escombros, e não há previsão de que se vá procurá-los – não é prioridade. Note que falo de casas, escolas, etc.
Na cidade, não há energia elétrica, exceto a provida por geradores para quem pode – não é o caso da população -, nunca houve fornecimento de água encanada (o serviço é realizado por uma infindável frota de caminhões pipa), não há gás (as pessoas cozinham na rua, nas calçadas, utilizando apenas carvão), não há geladeiras, é claro (pela manhã, imensas barras de gelo são colocadas nas calçadas, para quem pode pagar), e a limpeza, bem, eis aonde quero chegar…
Há lixo por toda parte! Higiene, de que se trata? Quando alguém, homem ou mulher, deseja urinar, apenas se dá ao trabalho de arriar as calças e, ali mesmo, sem disfarce, faz…
Faz, faz junto aos seus, junto ao local onde cozinham, onde comercializam seus artesanatos, suas frutas, etc. Onde vivem, ou melhor, sobrevivem. Contudo, por mais paradoxal que possa parecer, andam bem vestidos, com um certo sorriso de quem, apesar de tudo, teima em sobreviver.
Por certo, ando questionando o papel da ajuda que aqui está, uma vez que estamos resolvendo o agora – e deve mesmo ser a prioridade – mas ainda não vi alguém está planejando o futuro dessas pessoas. Haverá um, mas depende da aquisição de valores morais e culturais, o que não se obtém com apoio humanitário.
Deus, que é pai de todos nós, pobres e ricos, jamais, jamais comete erros. Assim sendo, há uma ou mais razões para o que ocorreu e para o que ainda virá. Ainda que não tenhamos a capacidade de compreendê-las, entendo que devemos e podemos fazer parte da solução, com simplicidade e eficiência, mas constância.
Ajudar é mais do que necessário, é vital. Mas, permaneço com a dúvida: desastre natural ou desastre social? 
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