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“Eu jurei a mim mesma que não vou parar de escrever, pois cada uma das minhas linhas é a prece de quem não pode mais”
Yoani Sánchez
Um amigo jurou-me, fazem uns dez anos, que não voltaria à praia até que pudesse comprar – perto da areia – uma cerveja em moeda nacional. Suas panturrilhas branquíssimas me confirmam que não tem estado no mar por uma década, entretanto espera uma Cristal paga com seu próprio salário. A vizinha da esquina deu a palavra de não cortar o cabelo antes de certa data saudosa, por tantos cubanos, há muito tempo. Os piolhos a fizeram quebrar o compromisso – no início dos noventa – quando a cabeleira tocava sua cintura. Recentemente mudou a estratégia e colocou um pote de água sobre o armário e só o retirará quando seus filhos exilados possam voltar a viver com ela.
Pequenas casas de madeira descansam sobre uma tumba no cemitério de Havana. São a expressão material desses pedidos que a Milagrosa recebe para prover com uma vivenda os que querem escapar da casa paterna ou do abarrotado albergue coletivo. Ao lado dessas miniaturas há aviões e barcos de brinquedo, para conseguir o sonho de sair do horizonte estreito dentro de um em tamanho natural. Na mesma necrópole, porém mais ao sul, está o panteão de conhecida médium que recebia o espírito de Tá José. Um galo – com a cabeça cortada alí mesmo – foi oferecido por aquele jovem que finalmente conseguiu o emprego numa firma estrangeira.
Outros aguardam pelo milagre de uma permissão de saída, pela liberação de um preso político ou por uma licença para abrir um pequeno restaurante. Esta parece ser a ilha dos impossíveis, a terra das promessas por cumprir, o país das oferendas retidas até que se alcance o pedido. Eu jurei a mim mesma que não vou parar de escrever, pois cada uma das minhas linhas é a prece de quem não pode mais, o voto virtual de quem já deixou crescer o cabelo, colocou a oferenda sobre o mármore e viu vários potes de água secarem.
Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto
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