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Editorial do The New York Times
O presidente Barack Obama se opôs fortemente ao aumento de tropas do presidente George W. Bush no Iraque durante sua campanha presidencial e até mesmo agora nunca reconheceu publicamente que o mesmo foi amplamente bem-sucedido.
Mas na sala de situações da Casa Branca pouco mais de um mês atrás, ele disse aos seus assessores, “Acabou sendo uma coisa boa”. E como muitos dos próprios conselheiros de Obama recontaram nos dias recentes em entrevistas, a decisão de um aumento de 30 mil tropas no Afeganistão no próximo mês foi pelo menos em parte inspirada no sucesso do esforço no Iraque, que os assessores de Bush dizem ser a melhor esperança de que os historiadores lhes deem algum crédito quando a história dessa guerra altamente problemática for escrita.
Na verdade, as analogias ao Iraque têm circulado com tanta fúria nos dias recentes que o secretário da Defesa Robert M. Gates, o único remanescente do Gabinete da era Bush, disse ao Congresso, “Esse é o segundo reforço militar que venho aqui defender.”
Mas ao ponderar além da superfície, fica claro que Obama está entrando em sua nova estratégia com ouvidos cheios de alertas ¿ de alguns de seus próprios assessores e comandantes militares ¿ de que muitas das condições que fizeram o reforço militar no Iraque funcionar não existem no Afeganistão.
Como coloca um dos estrategistas intimamente envolvidos nos debates da sala de situações da Casa Branca, “Passamos muito tempo discutindo o fato de que a única coisa que o Iraque e o Afeganistão têm em comum é um monte de areia.”
Mesmo assim, as similaridades nos reforços militares são marcantes. O número absoluto de tropas é mais ou menos o mesmo: 30 mil. O número do Iraque, 28,5 mil tropas, na verdade acabou superando em sete mil a estimativa que Bush havia inicialmente anunciado; a equipe de Obama diz que isso não vai acontecer nesse caso.
O tempo de missão no caso do Iraque era de seis meses; dois meses atrás, quando o Pentágono abordou Obama pela primeira vez com um plano que aumentava a missão para 18 meses, ele foi contundente em seus questionamentos. Ele se virou ao general David H. Petraeus, hoje o chefe do Comando Central e o comandante no Iraque durante o reforço militar de Bush, e perguntou: “O que leva tanto tempo? O que é tão difícil nessa questão?” Funcionários da Casa Branca dizem que foi o próprio Obama quem pressionou pela ideia de um aumento de tropas, reconhecendo abertamente em uma reunião que ele havia criticado a mesma ideia duramente durante a campanha.
Ambos os reforços militares têm a intenção de conter a insurgência, que conquistou território e causou um elevado número de mortos, e de ganhar tempo e espaço para que as forças locais fossem treinadas para combate. “Nenhum desses reforços”, disse um oficial envolvido em ambas as decisões, “nasceu para explorar o sucesso. Eles foram concebidos para reverter um impulso.”
Ninguém na Casa Branca de Obama manifesta muita admiração pela herança deixada por Bush, por isso foi provavelmente inconsciente que, quando a estratégia do Afeganistão foi anunciada na quinta-feira, o anúncio tenha soado como o anterior. A apresentação do reforço militar de Bush teve o título “O Novo Caminho Adiante no Iraque”. O discurso de Obama trouxe o título “O Caminho Adiante no Afeganistão e Paquistão”.
Mas os pontos em comum terminam aí. O reforço militar no Iraque funcionou em grande parte porque havia um apoio poderoso na província de Anbar do chamado Despertar, movimento de tribos sunitas locais que se voltou contra os extremistas que matavam pessoas, se casavam à força com mulheres locais e cortavam as mãos de homens que fumavam em público. No Iraque, oficiais dos EUA acreditavam que a maioria dos líderes de uma oposição vigorosa, a Al-Qaeda na Mesopotâmia, fosse de estrangeiros.
Os Estados Unidos continuam com esperança de que podem aproveitar as milícias afegãs que se armaram contra o Talibã em áreas locais, mas uma série de relatórios de inteligência fornecidos a Obama desde setembro não revelou evidências no Afeganistão de qualquer coisa na escala do movimento Despertar iraquiano. Além disso, no Afeganistão, os extremistas, o Talibã, são nativos.
“Eles são parte da mobília no Afeganistão; eles sempre estiveram ali”, um dos especialistas contraterrorismo de Obama disse, explicando por que o objetivo de Obama é simplesmente a redução do poder do Talibã, e não sua derrota. No Iraque, o objetivo era derrotar os insurgentes, algo que foi em grande parte alcançado.
E também existe a questão sobre se as forças militares do Afeganistão podem ser treinadas. As forças do Iraque estavam precárias, mas o país possuía uma tradição de ordem militar. O almirante Mike Mullen, presidente da Junta de Chefes do Estado-Maior, lembrou os senadores esta semana que no Iraque foram necessários vários anos para conseguir resultados, e que no Afeganistão isso poderia levar mais tempo.
“Foi realmente apenas no final de 2007 que a polícia no Iraque começou mesmo a tomar frente”, ele disse, acrescentando posteriormente, “temos que ser cuidadosos ao fazer comparações.”
Talvez a maior diferença entre os dois reforços militares seja a seguinte: Bush nunca afirmou quanto tempo ele duraria, e Obama fez um esforço extra para declarar que a partir de julho de 2011, a maré de tropas começaria a baixar. O governo ¿ principalmente Gates ¿ passou a maior parte da semana explicando a relação lógica entre uma entrada militar forte e a sinalização do início de uma retirada, enfatizando muitas vezes que se as condições estivessem ruins, a redução das forças dos EUA seria lenta.
A ideia por trás do prazo assume que essa seja a única forma de mostrar ao presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, que a paciência dos EUA é limitada e que seu comprometimento não é infinito.
Gates novamente fez analogias ao Iraque, dizendo, “Acho que à medida que devolvermos mais distritos e províncias ao controle da segurança afegã, de modo muito similar ao que fizemos com o controle iraquiano provincial, haverá uma redução de nossas forças e uma gradual retirada.”
Mas para os críticos republicanos da estratégia ¿ e alguns dos arquitetos do reforço no Iraque ¿ o anúncio lança as sementes do fracasso antes do início do processo. “A questão é: isso é fatal para a estratégia geral?”, perguntou Meghan O’Sullivan, vice-conselheira de segurança nacional para o Iraque e o Afeganistão no governo Bush, e hoje professora da Escola Kennedy de Harvard. “Acho que pode ser.”
Seu argumento é de que muitos no Afeganistão, e a liderança no Paquistão, decidirão que a data é uma repetição em câmera lenta de 1989, quando os Estados Unidos começaram a se retirar do Afeganistão após os soviéticos saírem derrotados. Nas próximas semanas, membros do gabinete de guerra de Obama deverão aparecer em Islamabad e Cabul com uma mensagem: Não estamos indo embora. Mesmo.
Tradução: Amy Traduções

The New York Times

Comento: os “eleitores” brasileiros de Obama devem estar horrorizados. O anti-Bush repete o antecessor. Como diria o General Leônidas -” uma coisa é ser estilingue, outra, é ser vidraça”. Pelo visto, nos EUA, como no Brasil, para ganhar uma eleição vale tudo. Depois, são outros quinhentos…
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