Escolha uma Página

Ricardo Montedo
Esta semana, fui intimado por meu filho caçula a adquirir uma fantasia para uma tal festa de elouín.
Elouín?! estranhei, em minha santa ignorância.
– Dia das Bruxas, pai, explicou o pequeno, com paciência.
– Ah! Halloween! Exclamei, compreendendo finalmente.
“Mais um modismo americano importado pelo Brasil!” pensei com meus botões, sem ânimo de iniciar uma discussão doméstica.
Lembrei do porque “los hermanos” nos chamarem de “macaquitos”. Além da óbvia conotação racista, a expressão também se aplica a nossa mania de copiar quase tudo da cultura dos “irmãos do norte”.
Foi assim que o Natal transformou-se em festa comercial, onde o aniversariante é figura secundária e o personagem principal tem características bem tropicais: usa capotão e gorro de arminho, mora no Pólo Norte e conduz um trenó puxado por renas, uma das quais tem nariz vermelho. Tudo isso emoldurado por intensas nevascas, coisa comum no Brasil, ainda mais em dezembro.
Ji-Paraná, em Rondônia, se auto-intitula, orgulhosamente, “Capital Country da Amazônia”. Ao circular por suas ruas, não é raro encontrar amazônidas vestidos (ou fantasiados?) de cowboys americanos. Quem vai a um rodeio na paulista Barretos tem a sensação de estar numa cidade do Alabama.
Mas nem só de americanismos é que se vive. Nós, gaúchos, tão ciosos de nossos costumes e tradições, somos vítimas da aculturação café-com-leite nos festejos juninos. Sem exceção, o que assistimos são “festas no arraiá”, com casamento na roça, todos trajados à caipira, roupas remendadas, dentes pintados de preto, bochechas femininas avermelhadas e com pintinhas pretas, cavanhaques e bigodes traçados à carvão, enfim, festas típicas de paulistas e mineiros, sem absolutamente nada a ver com os belíssimos festejos juninos do folclore e da cultura gaúchos.
Antes que me acusem de provincianismo excessivo (uma vez que entendo ser ele salutar, em certa dose), esclareço que compreendo perfeitamente que neste mundo on line é impossível manter-se alheio a enxurrada de novas informações com que tomamos contato a cada página virtual ou no zap-zap do controle remoto.
O que me surpreende é a facilidade com que substituímos nossas referências históricas e valores culturais por outras, que não tem nada a ver com a realidade em que vivemos.
Você observou as vitrines das lojas esta semana? Repletas de lanternas de abóboras, chapéus e vassouras de bruxas, estilo Maga Patalójika (se não souber quem é, pergunte pro seu pai – he he he), máscaras do Jason, do Pânico e outros monstros. Venderam mais do que pastel em cancha de carreira, e a festa do Dia das Bruxas bombou em inúmeras escolas.
Porém, voltemos há dois meses atrás: Semana da Independência, Sete de Setembro, Grito do Ipiranga, sabe, aquele papo chato de civismo, patriotismo, etc.
Você lembra de alguma vitrine decorada com motivos verde-amarelos? Uma fitinha, uma miserável bandeirinha do Brasil? Alguma imagem de Dom Pedro I, José Bonifácio, esses caras?
Lembra de ter visto pelas ruas bandeiras hasteadas?
Sabe de alguma escola que tenha reunido seus alunos para cantar o Hino Nacional durante aquela semana?
O surto de gripe A motivou a suspensão do desfile de Sete de Setembro. Mas serviu também como pretexto para que o Fogo Simbólico ficasse recolhido ao interior de um quartel, para que as bandeiras nacional, do estado e do município não fossem hasteadas nem no palanque, nem tampouco no prédio da Prefeitura. A gripe foi, também, a desculpa para que o Hino Nacional não fosse executado uma única vez em praça pública.
No embalo, a imensa maioria tratou de ignorar solenemente aquela que deveria ser a maior data da Nação. E o Dia da Pátria passou como outro qualquer, engordando a lista já extensa de feriadões.
Penso que o sucesso do Dia das Bruxas tem muito a ver com o fracasso das comemorações(?) da Independência.
Essa comparação é um claro sinal de que estamos perdendo nossa identidade cultural, os valores nacionais, a essência do sentido de Pátria, de Nação.
Estamos perdendo o orgulho de ser brasileiros, sem que necessariamente tenhamos vergonha dessa condição. Apenas, nós não estamos nem aí!
Afinal, uma festa de Halloween é muito mais divertida do que passar horas em pé esperando para desfilar, não é mesmo?
Esse papo de civismo, patriotismo, orgulho nacional, a gente deixa pra Seleção na Copa do Mundo. E já está de bom tamanho.
Concluindo, pergunto: se é para imitar os americanos, porque não começamos pelo patriotismo?

Skip to content