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Janio de Freitas:
Contrato militar Brasil-França segue opiniões de civis, como Lula, e não a de militares habilitados a defini-las
O contrato militar que os presidentes Lula e Sarkozy assinam amanhã, e atrela o Brasil aos caros armamentos e às concepções francesas, tem uma peculiaridade bem brasileira: segue basicamente as opiniões de civis, como o próprio Lula, o ministro Nelson Jobim e o ex-ministro Mangabeira Unger, e não a dos militares habilitados a defini-las.
A partir da peculiaridade, a iniciativa militarizadora cerca-se de uma tapeação gigantesca do governo Lula quanto ao custo estimado do plano, pelo menos dez vezes superior à maior cifra citada.
Não precisou de explicações a atitude original da FAB sobre os aviões de caça que devessem ser comprados: apenas entregou à decisão governamental apreciações sobre cada uma das marcas de caça possíveis, e não a indicação do modelo de maior conveniência para o Brasil em conformidade com os longos estudos e testes realizados.
Ou seja, feita e declarada por antecipação a escolha do caça francês Rafale por Lula, a FAB dispôs-se a aceitá-la sem a subscrever. Ou quis deixar claro que a escolha era dos civis, ou que não chegara à mesma escolha a que Lula foi induzido.
Os quatro submarinos mais modernos da Marinha são modelos alemães e foram construídos com assistência e transferência de tecnologia alemãs. Ou a Marinha escolheu mal, para fazê-los, ou, para acrescentar outros quatro à flotilha, quer passar como autora da escolha de submarinos que já veio, agora, no pacote transado com a França.
A discrição da FAB não foi acompanhada pela Marinha, que tratou as escassas referências jornalísticas ao negócio dos submarinos de modo agressivo, com notas insultuosas ainda à maneira de tempos idos (mas, vê-se, nem tanto) e com afirmações duvidosas, quando não de inverdade explícita.
Os alemães negam, por exemplo, que não tenham oferecido transferência de tecnologia inclusive para o casco de um submarino nuclear. Importa porém, para a peculiaridade do episódio, que os pequenos submarinos franceses já vieram no pacote decidido por civis.
Se a concorrência em qualificações militares foi por aí, a concorrência financeira simplesmente inexiste. E não são poucos os indícios de que o mais pesado dentro do pacote são os preços das partes, incluída a exigência absurda de que uma nova base naval e um estaleiro sejam construídos pela empreiteira Odebrecht. Sem concorrência e a custo estabelecido, sem trocadilho, aereamente. Só mesmo em país onde sobra dinheiro para saúde, educação e alimentação de 40 milhões de pobres e miseráveis.
E onde, por isso mesmo, o Senado aprova sem discussão e sem repercussão em imprensa e TV, como ocorreu na quarta-feira, a tomada de empréstimo externo e o gasto pelo governo de 6,1 bilhões. Dos quais, perto de um terço com 50 helicópteros, a serem divididos entre FAB, Marinha e Exército, e cerca de dois terços com quatro submarinos convencionais e orientação tecnológica para o submarino nuclear.
Mas esses 6,1 bilhões -no câmbio atual e irreal, mais ou menos R$ 17 bilhões- não representam um terço do projeto militar, cujo custo em 10 a 20 anos foi citado, tão depressa quanto possível, em 20 bilhões, não se sabe de reais, de dólares ou de euros. Assinate, leia mais.

FOLHA DE SÃO PAULO

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