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Kaiser Konrad (texto e fotos)
Porto Príncipe – Haiti

Campo Charlie, Base do Batalhão Brasileiro de Força de Paz, 19 horas
No horizonte uma série de relâmpagos ilumina as montanhas que cercam a cidade. Os trovões anunciam que mais uma tempestade está por vir. Na Base do Batalhão Brasileiro um grupo de militares se apronta para enfrentar a adversidade do tempo e os perigos da noite haitiana para cumprir mais uma missão.

A situação de segurança no Haiti atualmente inspira uma relativa tranqüilidade. Isso se deve somente à presença ostensiva das tropas da ONU nas ruas, inibindo ações criminosas executadas por gangues responsáveis por crimes como tráfico de armas e drogas.

Nessa noite os militares do Exército Brasileiro vão realizar uma patrulha mecanizada e a pé em Cité Soleil, o bairro mais perigoso do Haiti.Essas patrulhas acontecem 13 vezes por noite e são feitas pelo Esquadrão de Fuzileiros Mecanizado. Tem duração de aproximadamente três horas e são executadas nas áreas de responsabilidade do Batalhão Brasileiro, que são os bairros de Cité Soleil, Cité Militaire, área portuária, Bel Air e central.

Um briefing de segurança apresentado pelo Tenente Bragança, comandante do Primeiro Pelotão do Quarto Esquadrão de Cavalaria Mecanizado, mostra os locais por onde a patrulha vai passar, confirma a existência de força adversa na região e os procedimentos a serem seguidos no caso de contato da tropa com ela.

No atual estágio da missão, a situação de segurança requer ações de Garantia da Lei e da Ordem. Por isso, o armamento teve que se adequado a esta nova fase. Os militares estão equipados com espingardas calibre 12 – com munição de borracha -, lançador de granadas AM 600 – com munição não-letal -, gás lacrimogênio e spray de pimenta. Na contramão da MINUSTAH o Exército ainda utiliza o fuzil calibre 7,62 mm Para-FAL; perdendo a oportunidade ideal de testar no combate em localidade o fuzil nacional MD97 5,56 mm.

Os 4 pelotões de cavalaria do 11º Brabat são oriundos do 13º Regimento de Cavalaria Mecanizado, de Pirassununga-SP, e do 1º Esquadrão de Cavalaria Mecanizado Leve, de Valença-RJ.

Os três Urutus já tripulados, com seus soldados de fuzis a postos sobre as escotilhas saem em comboio da base com sirenes ligadas em meio à escuridão da noite na capital haitiana. Anos atrás essas patrulhas eram extremamente perigosas, principalmente nos bairros residenciais, condição de emprego que obrigou o exército a realizar uma série de adaptações nas viaturas, com a colocação de placas e vidros blindados para proteção do artilheiro, já que o Urutu não foi desenvolvido para o combate urbano, ou em locais aonde a força adversa pudesse realizar ataques próximos num ângulo de tiro superior.
O comboio de Urutus consegue impor respeito por onde passa. Embora completamente defasados tecnologicamente, eles conseguem desempenhar sua missão no Haiti com eficácia e segurança, prova disso é que o Brasil nunca perdeu um militar em combate durante estas patrulhas.

Ao passar pelo Ponto Forte 16 as viaturas reduzem a velocidade e observam com atenção a situação. Nenhum detalhe pode passar despercebido, pois podem existir atiradores escondidos e trincheiras cavadas, de forma a tentar paralisar o veículo e cercar a tropa, numa ação irregular com o objetivo de roubar as armas dos soldados, numa situação semelhante à enfrentada por uma patrulha uruguaia anos atrás.

Com holofotes os militares procuram enxergar alguma anormalidade na escuridão. Permanecem em seu caminho conforme os planos da patrulha. Os haitianos parecem não dormir e enchem as ruas de pessoas, o que exige dos motoristas extrema perícia para evitar um acidente que naquelas circunstâncias provocaria a revolta de populares e poderia colocar a tropa em risco numa situação que fugiria do controle rapidamente.

Ao chegar à zona portuária as viaturas param. Os militares descem e montam um perímetro de segurança. Com atenção redobrada eles iniciam a patrulha a pé. A partir de agora eles não tem mais a blindagem e a imponência do Urutu. Sua segurança depende dos capacetes e coletes a prova de balas, da vigilância dos próprios colegas e, principalmente, do treinamento massificado que tiveram no Brasil. Leia mais.
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