Múcio expõe fragilidade da Defesa enquanto Exército acelera testes com drones diante de novas ameaças

Fragilidades da Defesa (Imagem ilustrativa, gerada por IA)

Ministro alerta que o País “não tem defesa”, enquanto o Alto Comando do Exército avalia tecnologias de baixo custo para enfrentar riscos crescentes, em meio a cortes bilionários no orçamento militar.

O Brasil condensou, em poucos dias, um dilema estratégico recorrente: expôs publicamente a precariedade da Defesa Nacional e, ao mesmo tempo, tentou acelerar a modernização do Exército diante de ameaças mais próximas, difusas e assimétricas. A análise é do jornalista Marcelo Godoy, do Estado de São Paulo.

Diagnóstico reservado, alerta público

Na manhã de quarta-feira, 27, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, falou a um grupo restrito de cerca de 30 executivos da Base Industrial de Defesa (BID), reunidos em Brasília. Sem a presença da imprensa, o ministro apresentou um diagnóstico direto e incomum para o cargo, ao sustentar que o País não dispõe de meios compatíveis com sua dimensão territorial, econômica e geopolítica.

“Nós fizemos um diagnóstico nosso, a Defesa é precaríssima. A Defesa brasileira é incompatível com o tamanho e as potencialidades do Brasil. Nós não temos defesa. Eu digo que a sociedade precisa saber. Muita gente pensa que nós temos como nos defender; nós não temos.”

Pressões externas reacendem o debate

Ao contextualizar o cenário internacional, Múcio atribuiu a fatores externos o reforço recente do discurso sobre Defesa no Brasil, especialmente as tensões envolvendo grandes potências e países vizinhos.

“Quem ajudou ultimamente a gente a engrossar o discurso de defesa foi Trump e Maduro.”

Em seguida, o ministro recorreu a um episódio concreto para demonstrar o despreparo estrutural brasileiro ao tratar das ameaças venezuelanas relacionadas à região de Essequibo.

“Eu vou contar uma coisa para os senhores, uma coisa grave sobre como nós não pensamos em Defesa. Quando Maduro ficou ameaçando invadir Essequibo, tinha que passar por Roraima. Nós deslocamos quase 10 mil homens para lá para nos prevenir e tomamos conhecimento de uma realidade que ninguém tinha.”

Operação Atlas expõe gargalos logísticos

O ministro se referia à Operação Atlas, realizada em 2025, o maior exercício conjunto das Forças Armadas brasileiras. Planejada como um ensaio de defesa da região Norte, a operação revelou entraves logísticos que limitam a capacidade de reação do País.

“Pois bem, a Marinha Brasileira mora no Rio de Janeiro: submarino, navios, fragatas e o povo todo. A operação foi no Norte. A Aeronáutica chega em duas, três horas lá. A Marinha demora 20 dias para chegar ao Norte. Os blindados do Exército, que ficam no Rio Grande do Sul, em Santa Maria, e aqui no Mato Grosso do Sul, demoram 55 dias para chegar. Ou seja, se houvesse um conflito real, quando nós chegássemos lá, o povo já estaria instalado.”

Tecnologia barata muda a lógica da guerra

Enquanto Múcio expunha essas fragilidades, parte dos executivos seguiu para o Setor Militar Urbano. No estande de tiro General Darcy Lázaro, o Alto Comando do Exército acompanhou uma demonstração de drones e sistemas robóticos desenvolvidos por empresas nacionais, evidenciando o esforço de adaptação à guerra moderna.

Organizada pelo Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT), a apresentação exibiu munições vagantes, equipamentos de vigilância e robôs terrestres, reforçando a aposta em soluções de menor custo capazes de neutralizar plataformas tradicionais mais caras.

Nova percepção de ameaça no entorno estratégico

Ao final da demonstração, o comandante do Exército, general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, sintetizou a mudança de percepção estratégica na América do Sul e no entorno brasileiro.

“No passado, a gente não tinha nenhuma ameaça na América do Sul. Hoje, a gente já viu que a gente tem uma percepção de ameaça. A gente viu que há olhares e atenções para ameaças na América do Sul, incluindo a nossa atuação constitucional de auxiliar o governo, auxiliar os Poderes da República na faixa de fronteira, que é uma preocupação enorme, uma faixa vasta, de 17 mil km.”

Fronteiras extensas exigem soluções tecnológicas

Segundo o comandante, a ampla presença do Exército na região de fronteira não elimina as dificuldades impostas pela extensão territorial e pela diversidade de biomas, o que exige investimento contínuo em tecnologia.

“Temos de olhar para ela e empregar cada vez mais a tecnologia, porque, em que pese o fato de nós sermos a instituição mais presente na faixa de fronteira, porque eu tenho 77 organizações militares ali – não tem nenhuma instituição que tem essa presença –, ainda assim, a faixa de fronteira é vasta, complexa, diversa, com biomas diferentes, e a gente tem de buscar soluções tecnológicas para mitigar o problema e melhorar a nossa atuação.”

Compras até 2028 e foco em drones

O planejamento do Exército prevê iniciar as aquisições ainda neste ano, com maior volume até 2028, combinando fornecedores nacionais e estrangeiros. O comandante citou visitas recentes à Turquia como parte do esforço de prospecção tecnológica.

“Você está vendo países que têm um poder militar relativamente inferior, bem inferior às potências tradicionais militares e que estão conseguindo um resultado de dissuasão e de manutenção de status quo, muito interessante, com uma tecnologia de ponta, mas barata.”

Drones menores devem ser distribuídos inicialmente a unidades operacionais específicas, enquanto equipamentos de maior autonomia ficarão sob responsabilidade de batalhões dedicados. A Cavalaria também deverá incorporar sistemas antidrones em seus blindados.

Venezuela como alerta estratégico

O comandante reconheceu que os episódios recentes envolvendo a Venezuela serviram de alerta para o planejamento militar brasileiro.

“Nós não podemos, sem fazer juízo de valor, deixar de, tecnicamente, olhar o que acontece lá e não olhar para vastidão do nosso território, para o nosso lugar de fala no concerto das nações em termos de segurança e defesa.”

Cortes e decisões internacionais apertam o prazo

No dia seguinte, o contexto tornou-se ainda mais desafiador. Os Estados Unidos classificaram o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, deslocando o enfrentamento dessas facções do campo policial para o militar. Em seguida, o governo brasileiro anunciou o contingenciamento de R$ 4,4 bilhões do orçamento do Ministério da Defesa.

Somados, os episódios deram pleno sentido ao alerta feito por José Múcio naquela manhã reservada. Entre planos, testes e discursos, permanece o desafio central apontado na análise de Marcelo Godoy: modernizar a Defesa brasileira antes que as ameaças se imponham — e antes que o tempo e os recursos se esgotem mais uma vez.

Respostas de 15

  1. Essas declarações do Minstrinho da defesinha, é calculada, premeditada e atende as ordens do Lule e seus aliados. Pra mim isso passa uma informação a esquerda que detesta as FFAA, deixando a impressão que o dever de casa da petralhadw tá sendo executada com êxito. Essas declarações são simplesmente um informe do governo aos seus integrantes.

  2. Múcio deveria expor que os soldados recebem 2k de salário!
    Múcio deveria expor que os sgt recebem 4k de salário!
    Múcio deveria expor que os ten recebem 7k de salário!

    Antes de falar em equipamentos deveriam falar dos Baixíssimos soldos!!!

  3. Não precisa de altos estudos para perceber que há muito essa concentração de OM do Exército no Rio Grande do sul, especialmente de blindados, e da Marinha no Rio de Janeiro é totalmente incoerente em pleno século XXI.

    Além da região Norte, temos o litoral nordestino completamente desprotegido. (Detalhe: a 5ª Frota americana atua no Atlântico Sul).

    Enfim, o Brasil teve de esperar a posse de um Presidente americano tresloucado para se dar conta de sua completa falta de capacidade de defender a sua Soberania.

    Brasil, um projeto de Republiqueta com ares de soberba.

  4. Tá critica a situação, milhares de famílias de praças em dificuldades. De ST para baixo, gari tá em melhor situação. A que ponto chegamos.

  5. Vai piorar mais ainda quando olharem direitinho o contracheque dos militares, e continuarem dando 28% a algumas categorias federais e 9% para os militares dividido em 2 vezes.

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