Liderança no Exército: lições de Hierarquia e Humanidade (artigo)

Liderança militar

Em um ambiente marcado pela disciplina e pela hierarquia, a liderança militar vai muito além do exercício da autoridade. Neste artigo, Joana Versailles revisita experiências vividas no Exército para refletir sobre diferentes estilos de comando e mostrar como respeito, exemplo e humanidade podem influenciar a formação de líderes e o desenvolvimento das equipes.

 

Joana Versailles
Liderança no Exército é um tema que pode gerar reflexões profundas, especialmente quando se observa a dinâmica entre oficiais e subordinados. Uma experiência singular que tive no início da minha carreira no Exército me ensinou lições valiosas sobre liderança e respeito. Após um final de semana intenso, em que consegui a matrícula em um vestibular crucial, recebi ajuda inesperada de um sargento, que me ofereceu carona no momento em que meu carro estava em manutenção. Essa ação, embora bem-intencionada, acabou revelando como a hierarquia tradicional pode ser rígida e, muitas vezes, desumana. Na segunda-feira seguinte, durante uma reunião tensa, o coronel-comandante criticou minha atitude, enfatizando que respeito no Exército é baseado em posições, não em relacionamentos. Essa experiência ficou gravada em minha memória e moldou meus princípios de liderança.

Esse episódio é emblemático para entender a lógica da hierarquia no contexto militar, onde a disciplina e a ordem são essenciais. No Brasil, as estruturas de comando no Exército sempre refletiram essas diretrizes. Ao longo dos anos, muitos jovens oficiais, como eu, enfrentaram desafios semelhantes, aprendendo que a proximidade entre os postos pode ser vista como uma erosão do respeito. Na visão tradicional, quanto maior a distância entre os níveis hierárquicos, maior seria o respeito. Tal perspectiva, no entanto, coloca em dúvida a eficácia de uma liderança colaborativa e humana, que valoriza o respeito mútuo.

Reações a essa abordagem de liderança são variadas. Especialistas em liderança e comportamento organizacional frequentemente apontam que o respeito deve ser cultivado através de relacionamentos, e não apenas baseado em hierarquias. A crítica do coronel foi recebida com silêncios cúmplices entre meus colegas, mas em conversas posteriores, muitos concordaram que liderança é, de fato, uma via de mão dupla. “O respeito deve ser conquistado não só pela posição, mas, principalmente, pela capacidade de ouvir e apoiar”, ressalta um ex-oficial que trabalhou comigo.

Quais lições aprendi com os líderes que tive?

A experiência com o coronel-comandante foi apenas uma parte da minha formação no Exército. Outra figura marcante foi o coronel Briones, que reconheceu meu potencial e me incentivou a expandir meus horizontes através da leitura e da viagem. A frase “você vai longe, mas ainda falta crescer um pouco” ficou ecoando em minha mente. Ele me forneceu uma lista de cem livros, enfatizando que o conhecimento é fundamental, mas que as experiências de vida são igualmente valiosas. “Se não quiser ler, viaje. Conheça o mundo”, disse ele, e essa visão se tornou um mantra em minha trajetória.

Essas duas referências, um em lados opostos do espectro da liderança, ressaltam a complexidade da hierarquia militar. O coronel Briones, ao invés de utilizar sua posição como um muro, optou por ser um mentor. Isso, sem dúvida, impactou minha vida e carreira de maneira decisiva. Comparando ambos os estilos, observei que liderança não deve ser uma barreira, mas sim uma ponte que conecta e desenvolve os indivíduos sob seu comando.

Em termos de impacto prático, a abordagem do coronel Briones favoreceu não apenas meu crescimento pessoal, mas também provocou mudanças na dinâmica entre oficiais e subordinados. O desenvolvimento de uma cultura que valoriza a mentoria e o apoio mútuo pode resultar em equipes mais coesas e eficazes. Sem dúvida, o Residencial de Oficiais se beneficiaria de uma hierarquia que encoraja a proximidade e o diálogo, ao invés do medo e da distância.

Como combinar disciplina e humanidade na liderança?

A reflexão sobre como equilibrar disciplina e humanidade na liderança é vital não apenas para o Exército, mas para qualquer organização. A experiência de ter um líder como o coronel Briones representa um modelo de liderança que pode alavancar o desenvolvimento de habilidades tanto pessoais quanto profissionais. A capacidade de ouvir e se importar, enquanto impõe a disciplina quando necessário, é uma habilidade rara que deve ser cultivada. Essa abordagem fortalece a confiança e a moral dentro de equipes, essenciais para o sucesso em qualquer missão.

Ao observar as práticas de liderança em contextos corporativos, pode-se notar uma mudança gradual rumo a modelos mais colaborativos, semelhantes ao encorajado pelo coronel Briones. Empresas que adotam valores humanos e relações de respeito frequentemente se destacam em inovação e produtividade. Esse direcionamento pode ser promissor, especialmente em tempos desafiadores, onde o apoio emocional é tão necessário.

No contexto atual, as organizações precisam refletir sobre as lições do passado e integrar os princípios dessa nova abordagem no ambiente de trabalho. A evolução da liderança no Exército e em empresas pode criar oportunidades significativas para o desenvolvimento de talentos e para a formação de líderes que priorizem a inclusão e o respeito, garantindo um futuro mais promissor.

Diário do Estado – Edição: Montedo

Respostas de 13

    1. Hoje eu concordo com teu comentário. O falso líder hierárquico teme a ascensão dos lideres natos. Com isso perde-se credibilidade e confiança.

      1. Obrigado!

        Poderia concordar com mais comentários meus!

        Sei de cada coisa… ah, se não fosse o sigilo profissional!

        Pega esquerda e direita. Mas a esquerda pelo menos assume ser corrupto.

        😉

        1. Aí que vc se engana….a esquerda varre a corrpcao pra debaixo do tapete….o Luladrao se diz o cara mais honesto da face da Terra…mas todos sabemos a verdade

  1. Papo furado! O Exército americano estava virando um exercito de burocratas cheio dessa gente que so quer ficar teorizando. O trump e o atual secretario de defesa sacudiram a roseira. Em uma palestra do secretario de defesa, que por sinal muito boa, ele expos como estava as FA americanas. Aqui e tudo o que ele falou mais um pouco. “Livros e viagens”…. Ser militar com as agruras de ser militar nao querem! Nosso EB esta muito mal! Precisamos de guerra UU! Ohh nao sou contra livros nem viagens, inclusive tenho formacao fora da caixa! Rss mas dar voz pra esses malas ja e demais!

  2. Joana Versailles: Jornalista com atuação em política e cotidiano. Matéria educativa, emblemática, sem incisos condenatórios mas repreensivo e diplomático, principalmente para aqueles lideres instrutores e escalão superior que fazem seus recrutas como prisioneiros de guerra e, infelizmente, promovem traumas para toda a vida quando não, causam a morte de seus tutelados e sofrimento de familiares.

  3. A hierarquia não tem relação com comando, liderança ou qualquer outra atribuição; ela consiste apenas na obrigação de o subordinado cumprir as ordens do superior. No meio militar, serve como forma de impedir que o subordinado conteste seu chefe, independentemente das ordens que receba, sejam elas razoáveis ou absurdas. Pode haver um graduado com anos de experiência em combate e diversos cursos de especialização que, ainda assim, deve receber ordens de um oficial com pouquíssimo tempo de formação e sem experiência prática. Mesmo nessa situação, deve obedecê-lo, independentemente de qualquer questão relacionada à liderança.

    Da mesma forma ocorre com cargos políticos de chefia, que nem sempre exigem qualificação em liderança, mas cujas determinações devem ser cumpridas pelos subordinados.

    Essa teoria de que a chefia decorre da liderança nem sempre funciona na prática. Os líderes não são necessariamente escolhidos por suas qualidades de liderança, nem existe consenso sobre o que seria um líder bom ou ruim. Na realidade, há pessoas investidas de autoridade para dar ordens e outras encarregadas de executá-las.

    1. Você foi perguntar para a inteligência artificial o que é hierarquia. Como a inteligência artificial é soberana na sua programação ela te respondeu roboticamente. Agora, nesse caso basta eliminar a humanidade e permitir robô no comando dando ordens hierárquicas a outro robô. E, se o robô humanoide te ordenar para comer cocô, compra a missão.

  4. Meu medo e surgir a “brilhante” ideia de um peruador, querendo se “consagrar”, termo mais utilizado no exercito nos dias de hoje junto aqueles que so fazem as coisas para aparecer bem na foto, para benesses futuras, convidar a dignissima para dar palestra de liderança na ECEME, todos sentadinhos com seus cabelos penteados, e depois na ESAO para os capitaes agonizando! E na sequencia para os demais. Ela vai falar que o maior exemplo de lideranca que ela viu foi um Coronel desmotivado, que nao tem coragem de ir pra reserva, querendo se fazer de “legal”, dando conselhos pra “militar do segmento feminino”, se fosse homem ele nao daria este conselho, de viagens e livros, coisas que provavelmente ele nao faz, nem ler, nem viajar 😂😂😂

    1. Até o Marcola pode dar palestras sobre os assuntos que ele domina. Uma coisa são opiniões outra coisa são resultados práticos. Que cada um faça a filtragem que lhe convém e aprendam a pensar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *