Há um século, jornal chamava reajuste militar de “privilégio”; discurso ainda reaparece no debate sobre salários das Forças Armadas

"Privilégios dos militares" - 1926/2026 - tema é recorrente há mais de um século

Publicação do Correio do Povo, de 1º de agosto de 1926, criticou o aumento dos vencimentos dos militares e classificou a medida como um privilégio. Cem anos depois, parte da imprensa continua recorrendo ao mesmo enquadramento ao tratar de reajustes salariais das Forças Armadas.

A discussão sobre reajustes salariais dos militares das Forças Armadas acompanha a história brasileira há décadas. Em diferentes períodos, jornais, analistas econômicos e setores políticos classificaram os aumentos concedidos à categoria como “privilégios”, sobretudo quando o país enfrentava dificuldades fiscais. Esse enquadramento não é recente. Há exatamente cem anos, em 1º de agosto de 1926, o jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, publicou um editorial condenando a aprovação de um projeto que elevava os vencimentos dos militares.

Editorial associava reajuste ao aumento das despesas públicas

Editorial Correio do Povo sobre privilégio dos militares - 1926
Editorial Correio do Povo sobre privilégio dos militares – 1926
Na ocasião, o jornal argumentou que o custo de vida atingia toda a população. Além disso, defendeu que nenhuma categoria deveria receber tratamento diferenciado diante da crise financeira do país. Segundo o editorial, ampliar despesas públicas agravaria os déficits orçamentários. Embora o contexto econômico, político e institucional seja completamente diferente do atual, o vocabulário empregado pelo editorial permanece presente em parte da cobertura jornalística contemporânea.

Expressão “privilégio” continua presente no debate

Ao longo das últimas décadas, veículos de comunicação frequentemente utilizaram expressões como “privilégios militares”, “tratamento diferenciado”, “benefícios exclusivos” e “gastos excessivos” ao abordar reajustes remuneratórios, mudanças previdenciárias ou reestruturações de carreira das Forças Armadas. Esse enquadramento ganhou força durante a discussão da reforma da Previdência de 2019. Posteriormente, voltou ao debate em diferentes ocasiões, sempre que governos anunciaram recomposições salariais para militares. Por outro lado, associações militares e especialistas em Defesa contestam essa classificação. Eles afirmam que a carreira militar possui características constitucionais próprias, como dedicação exclusiva, disponibilidade permanente, restrições ao exercício de atividades políticas, impossibilidade de sindicalização e limitações ao direito de greve. Dessa forma, sustentam que essas peculiaridades justificam tratamento remuneratório específico.

Editorial publicado em 1º de agosto de 1926

“A Comissão de Constituição do Senado assinou parecer favorável ao projeto do sr. Benjamin Barroso, aumentando os vencimentos dos militares. É sabido que esse aumento representa uma cifra respeitável que vai pesar sobre os nossos orçamentos deficitários. É bem possível que os vencimentos atuais das classes armadas, mesmo com a incorporação da tabela Lyra, que se lhe deu, em tempo, o privilégio, não dê para viver com grande largueza. Mas essa é a situação não só de todos os funcionários da Nação, mas mesmo de todos os cidadãos. A grita é geral. O preço da vida está pela hora da morte, não só para os militares de terra e mar, porém para todos. E não nos parece justo, diante da situação, criar vantagens especiais para uma classe e ficar surdo ao justo reclamo das outras. Os sacrifícios que a uns se impõem devem tocar a todos. De resto, não é aumentando periodicamente os vencimentos pagos pelos cofres públicos que se hão de melhorar as condições aflitivas em que se encontra o País. Ao contrário, esses aumentos são o meio mais seguro de manter a situação. Não é alargando despesas que havemos de conjurar os nossos apertos financeiros, mas realizando economias, cortando despesas.” Correio do Povo, edição de 1º de agosto de 1926.

Contexto histórico

Em 1926, o Brasil vivia a República Velha e enfrentava dificuldades fiscais, inflação e sucessivas pressões sobre as contas públicas. Nesse cenário, o projeto citado pelo jornal previa reajustes para militares do Exército e da Marinha. O editorial posicionou-se contra a proposta e utilizou o termo “privilégio” para definir a concessão do aumento. Cem anos depois, embora o contexto institucional seja outro, o mesmo argumento continua aparecendo em parte da cobertura jornalística sobre remuneração das Forças Armadas, demonstrando a permanência histórica desse enquadramento no debate público.

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Respostas de 16

  1. O militar brasileiro tem o “complexo de vira lata”. Enchem o peito para cantar os hinos e canções em formaturas, que exaltam as vitórias e sacrifícios da vida castrense. Mas morrem de vergonha de lutar por seus direitos. Sempre tentando justificar sua existência. Como se fosse um servidor de terceira classe ou menos. O judiciário tem orgulho de ser o judiciário. E sempre trabalham em prol dos seus integrantes, sem ficar se justificando. Outros servidores públicos também o fazem assim.
    Só a classe militar tem vergonha de ser humano, servindo ao Estado.
    Quando esse complexo de “vira lata”, de “patinho feio” deixar realmente de existir as três forças Armadas voltaram a serem grandes novamente. Precisamos de líderes que pensem e ajam a favor das 03 Forças Atmadas e que lutem por cada um dos seus integrantes. Do soldado mais moderno ao Militar reformado mais antigo.

    1. Perfeito o seu comentário!!

      Dois jargões sempre usados na caserna representam o que você escreveu:

      – “se acha que está ganhando pouco, vai embora, muda de profissão”.

      – “a profissão militar é um ‘sacerdócio’, não se pode visar remuneração, dinheiro”.

    2. Parabéns. Excelente suas palavras. Agora inventaram o Dia do Veterano. Formaturas e bla Bla Bla. Veterano é quem foi para guerra. Era Dia do Uniforme…só coisinhas e o bom que é salário nada

    3. Infelizmente, os militares das FFAA NÃO podem lutar por seus direitos devido ao previsto na CF/88 (proibição de sindicalização e greve). Os ÚNICOS q podem “lutar” são os Cmt das FFAA.

  2. Para quem aprecia a história militar, segue uma curiosidade.

    Quando o posto de Subtenente foi criado pelo Decreto nº 22.837, de 17 de junho de 1933, o militar era definido como praça especial, assemelhada ao aspirante a oficial, porém subordinada a este na hierarquia militar.

    Na época, o art. 8º do decreto estabelecia que os subtenentes perceberiam os mesmos vencimentos (soldo) do aspirante a oficial. Como exemplo, atualmente o soldo do aspirante a oficial é de aproximadamente R$ 7.988,00, enquanto o do subtenente é de R$ 6.737,00, uma diferença de cerca de R$ 1.251,00.

    O decreto que criou o posto de Subtenente (Decreto nº 22.837, de 17 de junho de 1933) foi posteriormente revogado pelo Decreto de 10 de maio de 1991.

    Trechos do Decreto nº 22.837/1933:

    Art. 1º Fica instituído no Exército o posto de Subtenente, colocado na hierarquia militar entre os segundos-tenentes e os sargentos-ajudantes.

    Art. 2º Os Subtenentes são praças especiais, assemelhadas aos aspirantes a oficial, mas a estes subordinadas na hierarquia militar.

    Art. 8º Os Subtenentes do Exército perceberão os vencimentos de aspirante a oficial e, após 20 anos de serviço, receberão, por cada ano completo de serviço sem licença que excedesse esse período, mais uma quota de 2% desses vencimentos.

    Fonte:
    https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1930-1939/decreto-22837-17-junho-1933-498398-publicacaooriginal-1-pe.html

  3. O meu amigo é capitão na cidade de Uruguaiana no RS. Ele está fazendo UBER direto. Disse que tira até 1.400 livre por semana. Ele roda de noite e finais de semana. Está muito difícil para todo Povo. Meu Deus tudo muito caro. Aqui em casa os meus netos falam vovo a gente vai virar pintinho 🐥 é só frango.

  4. Que profissão mais triste, me desculpem senhores, mas é desmotivante, você não escuta nenhum outro servidor aceitar perder direitos, você só escuta que deve se motivar com as coisas da força, mas ninguem que tá no topo fala um ai pelos de baixo. É uma vergonha.

  5. A profissão militar é a lógica de como o sistema vem sendo construído a muito tempo. Quem espera as coisas irão melhorar vai esperar vida inteira.
    Enquanto ficarmos esperando a próxima gestão resolver o que incomoda a caserna, teremos que rever isso para entender porque essa espera não tem fim.
    Deixa eu explicar o mecanismo, porque aqui tudo se explica, conforme o oficial sobe na hierarquia, o futuro dele não é resolver o problema da tropa, Seu objetivo é a carreira, a próxima comissão e a promoção chegar. O jogo dele é agradar quem está em cima, não cuidar que está abaixo, e aí acontece o que ninguém fala em voz alta o problema que envergonha um comandante não é resolvido, é enterrado, porque relatar que a tropa esta sangrando pega mal na ficha mostrar que sua unidade tem problemas atrapalha sua avaliação. Então o incentivo não é consertar, o incentivo é manter tudo bonito para cima, custe o que custar para quem está em baixo, ou seja, o silêncio é premiado e a realidade cotidiana é punida.
    Quem aponta um erro vira problema, quem esconde o erro vira gestor eficiente em um sistema que premia. Esconder em vez de resolver nunca jamais vai se consertar sozinho.
    Tem gente que acredita que um dia isso vai melhorar, precisamos entender que não é questão de esperar a pessoa certa chegar lá, é por isso que a coisa se perpetua.
    Todo mundo que tem o poder de mudar, chegou lá jogando exatamente esse jogo, para mudar o sistema o oficial teria que serrar o galho que o sustenta, e ninguém que passou décadas subindo no topo vai destruir a lógica que colocou ele ali, o sistema seleciona quem protege o próprio sistema, é um ciclo perfeito e fechado, e isso não é sobre existirem somente militares ruins, longe disso, tem o oficial excelente e honrado que se importa de verdade com a tropa, mas o indivíduo bom não vence a estrutura, e a estrutura é maior que ele, ela sempre vence no fim.
    Então a única conclusão que sobra é que não vai haver mudança, a vida militar não vai melhorar, com o passar do tempo a tendência é piorar. A única coisa de verdade que está em nossas mãos é o nosso próprio caminho, a saída é tomar a decisão de construir algo melhor por conta própria, porque esperar o sistema mudar e entregar nosso futuro para quem não tem nenhum incentivo para mudar ele e a nossa vida, será trágico e penoso para ficar refém desse sistema.

  6. Simples…

    QUANDO PRECISAREM DOS MILITARES, ESQUEÇAM!

    Quando houver uma reunião de Chefes de Estado, convoquem a Guarda Nacional, esqueçam os militares.
    Querem jatinho para transporte? Esqueçam, voem de forma particular.
    Manutenção e operações; escalem os Oficiais e não os Praças Graduados.
    Desastre da natureza, chamem a Defesa Civil, e esqueçam os militares.
    Êxodo nas FFAA já!

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