Proposta resgata a história de dois patrimônios ligados à Guerra do Paraguai e defende reciprocidade como gesto de respeito e reconciliação entre os países.
Troca justa?
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O historiador Paulo Rezzutti chamou a atenção para uma questão histórica que merece ser conhecida por mais brasileiros.
Muito se fala na devolução ao Paraguai do canhão El Cristiano, hoje preservado no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. Para os paraguaios, compreensivelmente, ele possui enorme valor histórico e simbólico.
Mas existe o outro lado dessa história — e quase ninguém fala sobre ele.
No Paraguai encontra-se a Anhambaí, uma canhoneira da Marinha Imperial Brasileira construída na Inglaterra e incorporada à nossa Armada em 1858.
E não estamos falando de uma embarcação qualquer.
Em dezembro de 1864, no início da Guerra do Paraguai, a Anhambaí participou da defesa do Forte de Coimbra, no então Mato Grosso, e auxiliou na retirada dos defensores brasileiros.
Pouco depois, foi alcançada e capturada pelas forças paraguaias, com perda de integrantes de sua tripulação, sendo posteriormente incorporada à Marinha paraguaia.
Depois de muitas décadas, seus remanescentes foram recuperados e preservados pelo Paraguai. Hoje, a Anhambaí encontra-se exposta no Parque Nacional Vapor Cué, em Caraguatay.
E aqui começa uma conversa interessante.
O El Cristiano é uma peça histórica paraguaia que veio para o Brasil como consequência daquela guerra.
A Anhambaí é uma embarcação histórica brasileira que ficou no Paraguai como consequência da mesma guerra.
Então por que discutir somente uma devolução?
Se brasileiros e paraguaios desejam transformar esses objetos de guerra em símbolos de amizade e reconciliação, existe uma solução muito mais bonita: reciprocidade.
O Brasil devolve o El Cristiano ao Paraguai.
O Paraguai devolve a Anhambaí ao Brasil.
Não se trata de exigir reparações, muito menos de alimentar ressentimentos de uma guerra encerrada há mais de 150 anos. Trata-se justamente do contrário: reconhecer que cada povo tem o direito de preservar e conhecer a própria história.
Também devemos reconhecer algo importante: os paraguaios preservaram a Anhambaí. Se esse patrimônio chegou aos nossos dias, devemos respeitar o trabalho realizado por eles em Vapor Cué.
Uma eventual devolução deveria, portanto, ser construída diplomaticamente como um gesto de amizade entre os dois países.
Imagine a Anhambaí restaurada e preservada no Brasil, contando às novas gerações a história da Marinha Imperial, da defesa do Forte de Coimbra e dos homens que combateram naquele pequeno navio em 1864.
E imagine o El Cristiano novamente no Paraguai, contando aos paraguaios a sua própria parte dessa mesma história.
Dois países.
Dois patrimônios.
Uma guerra que pertence ao passado.
E dois gestos de respeito que poderiam apontar para o futuro.
Por isso considero muito pertinente o alerta feito pelo historiador Paulo Rezzutti e acredito que essa proposta merece ser conhecida e debatida.
Se vamos conversar sobre devolver o El Cristiano, conversemos também sobre trazer a Anhambaí de volta para casa.
El Cristiano pelo Anhambaí.
Seria uma troca justa?
Eu acredito que sim.
E você?
Brasil Imperial (Facebook) – Edição: Montedo.com
Respostas de 6
Oportuna a lembrança. Vejamos: 2 dos integrantes do Marques de Olinda, Clião Pereira Arouca e Francisco Maria Coelho, que acompanhavam o presidente da Província e Comandante das Armas de Mato Grosso, foram capturados em dezembro de 1864 e soltos somente às vésperas da batalha de Cerro Corá, em março de 1870. Comeram literalmente o pão que o diabo amassou: cozinhavam couro abandonado e sabugos de milho para sobreviverem em cativeiro, pois os paraguaios, também com deficiência alimentar não lhes davam o que de comer. Foram amarrados juntos, provavelmente, aos canhões El Cristiano e Mariscal Lopez, que se querem devolver hoje em dia, nas batalhas de Humaitá e Curupaiti, conforme relato do mercenário inglês Thompson, contratado por Lopez. Somente foram liberados diante da ordem do General do Exército Imperial Brasileiro Vitorino, que deu ordem para degolar os paraguaios que escoltassem prisioneiros brasileiros, diante dos relatos verdadeiros de maus tratos. Garanto que a visão Estratégica de Lula não sabe disso. Aliás não sabe de nada inocente…
Francisco Maria Coelho, assim como Clião Pereira Arouca, eram oficiais da Marinha e o 1º era irmão de Antônio Maria Coelho oficial do Exército Imperial brasileiro, que comandou a retomada de Corumbá em 1867. Os 2 sobreviventes relataram como sucumbiu no cativeiro o Coronel Francisco Carneiro de Campos presidente e comandante de armas da província de Mato Grosso e o cirurgião mor baiano que auxiliou no tratamento dos doentes e permitiu que uns poucos sobrevivessem ao final do conflito, ex tripulação do Marques de Olinda, apresado covardemente por Lopez. Lula não leu a retirada da Laguna de Taunay, leitura obrigatória nas escolas nas décadas de 1950 e 1960, segundo meu pai, aliás o Nine nunca deve ter frequentado escola alguma.
Vc e professor de história militar? Bela explicação e parabéns pelo seu conhecimento infelizmente nossos comandantes não briga pela tropa.
Obrigado, só me interesso por ler bastante pelo assunto, não sou professor de história militar.
A Anhambaí aliás foi capturada pelos paraguaios quando fugia pelo Rio Paraguai de Corumbá para Cuiabá e no retorno exibia os corpos dos militares Brasileiros mutilados pregados no casco, em princípio de 1865. Isso Dom Lula não sabe e nem lhe contaram.
Certa vez um político baiano propôs ao Comandante do Exército que se fizesse uma denominação histórica de algum batalhão na Bahia como “zuavos da Bahia”, excelentes guerreiros infantes, mestres nos combates com armas brancas, sabre (baioneta) e facão. Terror dos paraguaios que os chamavam pejorativamente de “cambás”. Mas nenhuma homenagem foi prestada a esses valorosos afrodescendentes, nem mesmo um uniforme histórica para uma guarda ao quartel ou guarda bandeira sequer foi aprovada. País sem passado, não sabe quem é nem para onde vai…