Com dois mil generais, exército venezuelano virou “partido político em armas”

A cúpula militar do chavismo dá apoio a Nicolás Maduro Foto: REUTERS/Manaure Quintero

 

Excesso de generais explica inação da Venezuela perante ataques dos EUA; promoção indiscriminada de generais e critério de ideológico causaram defasagem nas Forças Armadas venezuelanas

 

Renato Vasconcelos
São Paulo
– A cúpula do governo da Venezuela, incluindo o líder chavista Nicolás Maduro, exaltou por meses as capacidades da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB), prometendo uma resistência ferrenha caso tropas americanas avançassem contra o país, enquanto as tensões regionais provocadas pelo envio de aparatos militares para a região escalavam. Quando Washington bombardeou alvos estratégicos em Caracas e capturou Maduro e a primeira-dama, Cilia Flores, de um complexo fortificado da capital, pouca resistência foi vista, sem nenhum agente americano morto ou veículo aéreo abatido.

Analistas ouvidos pelo GLOBO apontam que a operação americana do último sábado demonstra tanto a superioridade do poderio militar dos EUA quanto a defasagem das Forças Armadas venezuelanas — em um processo de declínio operacional intrinsecamente ligado à interferência de fatores políticos na nomeação de militares e na conversão das Forças Armadas em uma extensão do regime chavista.

— A Venezuela não tem Forças Armadas profissionais — afirmou o analista venezuelano radicado no Brasil Ricardo Salvador De Toma-García, doutor em Estudos Estratégicos Internacionais. — Quando você tem um conjunto de oficiais que defendem abertamente uma pessoa, que fazem culto ao indivíduo, que falam de questões ideológicas, você perde o carácter profissional. O que se vê é uma ausência de capacidades defensivas desde o ponto de vista técnico e operacional, produto do declínio das Forças Armadas, que passaram a ser parte de um partido político em armas.

Embora o chavismo tenha origem nos quartéis venezuelanos — o grande idealizador do movimento socialista no país, Hugo Chávez, chegou à patente de tenente-coronel —, a liderança política sempre olhou com desconfiança para a caserna. Ainda sob o comando de Chávez, vítima de uma tentativa de golpe em 2002, o governo iniciou um movimento institucional de pulverização da primazia do uso da força, criando grupos armados como os “coletivos” e a Milícia Nacional Bolivariana, ao mesmo tempo em que estreitou laços militares.

— Com Chávez, houve um processo de transformação das Forças Armadas não necessariamente para torná-las mais profissionais, capazes e operacionais, mas sim em um braço político fardado do regime — disse o professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme) Sandro Teixeira Moita. — Esse processo teve um aumento dramático com Maduro, que ampliou a promoção de generais e fez algo que mesmo Chávez via com restrição: tirar os militares de atribuições de segurança e defesa para atribuições no Estado venezuelano, fundindo-se de maneira umbilical às Forças Armadas.

Imagens de satélite mostram o complexo militar de Fuerte Tiuna, em Caracas, antes e depois da operação dos EUA que levou à captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro de 2026 — Foto: Vantor/AFP

A estratégia sob Maduro aconteceu em duas frentes. Enquanto o presidente acelerou a promoção de militares por um critério de lealdade ao Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), militares de alta patente, entre aqueles considerados simpáticos ao regime, passaram a receber cargos estratégicos em ministérios, empresas públicas — incluindo a PDVSA, estatal de petróleo — e diversas outras áreas.

— A Força Armada Nacional Bolivariana é orgânica à estrutura de poder chavista. O militar das FANB tem um juramento de lealdade política, e não chega ao cargo por mérito ou por necessidades específicas das forças — afirmou o professor Tássio Franchi, que também leciona na ECEME e é docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares do Instituto Meira Mattos. — Essa quantidade de oficiais [nomeados] é uma forma do próprio partido, da elite política, ocupar cargos políticos de confiança.

Duas vezes mais que os EUA
Estimativas apontam que as FANB tenham atualmente 2 mil generais e almirantes em suas fileiras — um número mais de duas vezes maior que o das Forças Armadas dos EUA, embora o total de pessoal militar americano seja mais de 10 vezes superior. A prática não criou apenas uma elite militar fisiológica, arraigada às benesses recebidas, mas também representou prejuízos no campo operacional.

— Quando você tem um número de generais que excede as capacidades reais de comando, deixa de ter um sentido tático e operacional diante de cenários de guerra — afirmou De Toma-García, o analista venezuelano ouvido pelo GLOBO. — Quantos generais você têm no papel? E quantas divisões você tem efetivamente? Isso é um grande problema.

O processo de nomeação criou distorções na FANB pouco vistas em outras partes do mundo. Teixeira Moita aponta que o sistema de promoção enfraqueceu critérios consagrados para estabelecimento de hierarquia, como o etário e o meritório.

— No momento em que a política e a questão da afinidade ideológica se tornam principal critério para uma carreira bem-sucedida, isso gera uma erosão da capacidade técnica e operacional. Os oficiais param de procurar entender como funciona o sistema de armas, como funciona o estudo da estratégia, como funciona o desenvolvimento de operações, de novas técnicas operacionais, como deve se realizar uma manobra, como se deve realizar uma operação militar — explicou.

Lições do ataque
O fulminante ataque americano deixou lições sobre as reais capacidades venezuelanas.

— Se a Venezuela utilizasse aquilo que ela tinha, no papel, contra os EUA, o desafio seria muito grande. E a operação americana foi pensada para o desafio do papel — disse Teixeira. — Você não decola bombardeiros B-1, utiliza mísseis Tomahawk ou desloca um porta-aviões se não tiver certeza de que seu adversário tem alguma capacidade de resistência. Fontes locais falam em 90% das defesas da Venezuela destruídas no dia 3.

Para Toma-García, no plano operacional, o que se viu foi uma combinação de inteligência, infiltração e uso de força cinética inovadoras, associadas a uma atualização de doutrina militar e novos meios de guerra. Por outro lado, o analista deu destaque para a reação imediata das autoridades venezuelanas — ou para a inação.

— A FANB tem um tipo de coesão que surpreende muito pela sua passividade. Em um país normal, o ministro da Defesa já teria se demitido ou pedido a renúncia — afirmou. — O que eu vejo é que existe um temor, um forte temor, pelo histórico de repressão violenta e de tortura a oficiais que tentaram contestar questões que julgavam erradas ou que tentaram conspirar.
O GLOBO – Edição: Montedo.com

Respostas de 12

  1. 2.000 generais?!?!?!

    O Brasil com dimensão continental possui pouco mais de 150 generais no EB, sendo que esse número já é excessivo.

    Mas lá são 2.000!!

    E ainda tem brasileiro que acredita no tal “socialismo bolivariano” como alternativa para o jardim do Éden.

    1. Em excesso e com privilégios gigantescos enquanto a tropa sofre na miséria e foi facilmente comprada para não reagir ao ataque norte americano!

    2. Nós não vamos atingir a meta, vamos deixar a meta aberta, daí quando atingirmos a meta( independente de esquerda ou direita) vamos dobrar a meta. Praça ganhando mal… pessoal independente de quem ganhar…graduados acordem… não se iludam com essa politica nogenta…o sistema é deles….

    3. As FFAA brasileiras possuem, atualmente na ativa, 116 Almirantes, 146 Gen e 64 Brigadeiros. E para os Chão de fábrica, Praças, é uma quantidade excessiva, comparados, naturalmente com as FFAA dos países de 1° Mundo. Essa quantidade absurda de Of Gen, tal qual a Venezuela, é típico de ditaduras Esquerdopatas. 😡😠🤬😤

  2. ” Quando você tem um conjunto de oficiais que defendem abertamente uma pessoa, que fazem culto ao indivíduo, que falam de questões ideológicas, você perde o caráter profissional…”

    O texto do autor traduz o que seria o Brasil se o golpe tivesse exito. Qualquer regime que não respeite o cidadão, envolva seitas em questões de Estado, adote uma postura subserviente em relação a outro Estado, compre militares com postos, cargos e gratificações, sendo ele de esquerda, direita, frente, retaguarda, vai se transformar em uma Venezuela de Maduro. Os traidores da Pátria devem ser presos e acorrentados a suas ambições pessoais, pagar o preço de sua prepotência e arrogância, dormirem longos anos pensando em seus atos covardes contra a Pátria que tudo lhes deu. Aos omissos, aos colaboracionistas o mesmo destino, que o povo cuspam-lhes a face.

        1. Fico pensando e não consigo achar uma resposta: como pode alguém defender um partido que esta a mais de 40 anos no poder e não faz nada pelo povo….Roubaram até pessoas idosas iNSS. e Não e a primeira vez….depois ficam reclamando quando são asssaltados.

  3. Anônimo 8 de janeiro de 2026 às 13:50.

    Sem mais. Só lembrando, Bolsonaro foi admirador de Chavez, iniciou um processo semelhante no Brasil.

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