Centenas de militares teriam deixado centros de treinamento alemães desde 2022. Alguns alegam recrutamento forçado, abusos ou recusa em retornar à guerra.
Centenas de militares ucranianos teriam desertado durante períodos de treinamento na Alemanha desde o início da guerra contra a Rússia. A informação foi divulgada pela imprensa alemã.
Mais de 25 mil ucranianos receberam treinamento
Segundo a reportagem do Die Zeit, mais de 80 soldados desapareceram apenas do centro de treinamento de Altengrabow, na Saxônia-Anhalt. Em todo o país, o número chegaria a várias centenas.
Desde fevereiro de 2022, a Alemanha participa do treinamento das forças ucranianas por meio da missão EUMAM UA. Até o início de 2026, mais de 25 mil militares receberam treinamento em território alemão.
Além disso, a missão europeia já capacitou mais de 86 mil militares ucranianos em diferentes países. Na Alemanha, o Special Training Command coordena treinamentos em dezenas de locais.
A preparação inclui operações de combate, comando, logística, manutenção e emprego de sistemas de armas. Também envolve treinamentos com equipamentos como Leopard 1A5 e Patriot.
Saiba mais sobre a missão EUMAM UA na Alemanha.
Desertores relatam diferentes motivos
De acordo com os relatos reunidos pelo Die Zeit, os motivos para a fuga variam entre os militares.
Alguns afirmam que sofreram abusos de superiores. Outros dizem que desejavam reencontrar familiares residentes na União Europeia.
Além disso, parte dos soldados afirma que não deseja continuar participando da guerra. Um dos entrevistados resumiu sua decisão com uma declaração direta: não queria morrer nem matar.
A deserção, portanto, expõe uma dificuldade adicional para Kiev. O prolongamento do conflito aumentou a pressão sobre o sistema de recrutamento ucraniano.
Recrutamento enfrenta resistência
Nos primeiros anos da guerra, muitos militares enviados para treinamento eram voluntários experientes. Entretanto, a mobilização passou a incluir recrutas com pouca experiência.
Ao mesmo tempo, a Ucrânia enfrenta dificuldades para recompor suas unidades. A resistência ao recrutamento também aumentou, segundo dados citados pela imprensa alemã.
A reportagem menciona estimativas de dezenas de milhares de desertores. Outros militares teriam deixado suas unidades temporariamente sem autorização.
Desertores podem enfrentar prisão
A legislação ucraniana considera a deserção um crime. Portanto, militares que retornarem ao país podem enfrentar processos e penas de prisão.
Entretanto, a situação jurídica dos desertores que permanecem na Alemanha apresenta outras possibilidades.
Militares enviados oficialmente para treinamento não recebem automaticamente a proteção temporária concedida pela União Europeia aos refugiados civis ucranianos.
Ainda assim, eles podem solicitar asilo individualmente. Para isso, precisam demonstrar risco de perseguição ou violação de direitos em caso de retorno à Ucrânia.
Pelo menos um desertor já iniciou esse procedimento na Alemanha e permanece em um centro de acolhimento.
Pressão sobre as Forças Armadas ucranianas
A deserção ocorre enquanto as forças ucranianas enfrentam dificuldades para manter seus efetivos. Além disso, Kiev precisa substituir continuamente as baixas provocadas pelo conflito.
Nesse cenário, o governo de Volodimir Zelenski enfrenta crescente pressão para ampliar o recrutamento. Ao mesmo tempo, parte da população militarmente elegível busca alternativas para evitar o serviço.
Segundo os dados citados pela imprensa alemã, cerca de 1,3 milhão de homens possuem algum tipo de isenção. Entre eles estão trabalhadores de setores considerados essenciais, estudantes e pais de famílias numerosas.
Além disso, homens com menos de 25 anos estão fora da obrigação geral de mobilização. Atletas, artistas e profissionais de determinadas áreas também podem obter isenções.
Treinamento alemão continua
Apesar dos episódios de deserção, a Alemanha mantém o programa de capacitação militar ucraniano.
A Bundeswehr afirma que a EUMAM UA busca fortalecer a capacidade de defesa das forças ucranianas. A missão também prepara militares para operar equipamentos fornecidos pelos países europeus.
Confira as informações oficiais da Bundeswehr sobre a EUMAM UA.
Em julho de 2026, a Bundeswehr informou que militares ucranianos continuavam recebendo treinamento especializado na Alemanha.
Veja detalhes sobre o treinamento especializado de militares ucranianos.
Assim, enquanto os países europeus ampliam o apoio militar a Kiev, a deserção revela outro aspecto da guerra. O conflito prolongado também aumenta o desgaste humano e a resistência à mobilização.
Fonte
Deutsche Welle, com informações atribuídas ao jornal alemão Die Zeit.