Com o mercado internacional super aquecido, a credibilidade de defesa do Brasil fica em cheque pelos paios vazios
Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet
O Brasil vive hoje uma contradição perigosa: mantém uma das maiores forças armadas da América Latina em números, mas carece do elemento mais básico para sustentar qualquer conflito moderno — munição. Não se trata mais de um problema pontual ou administrativo, mas de uma falha estrutural que empurra o país para uma situação operacional alarmante. Em um cenário internacional instável, com guerras de alta intensidade voltando ao centro da geopolítica, o Brasil corre o risco de descobrir, tarde demais, que sua capacidade militar é, em grande parte, apenas aparente.
Na Força Aérea Brasileira, o quadro é particularmente simbólico. Poucos caças voam e treinam, mas sua real capacidade de combate é extremamente limitada. Os mísseis BVR Derby, da Rafael, que deveriam garantir engajamentos além do alcance visual, estão vencidos e jamais foram empregados em lançamentos operacionais pelos F-5 modernizados. Já os mísseis Python 4 existem em números tão reduzidos que, durante grandes eventos internacionais, aeronaves chegaram a voar armadas com apenas um míssil em uma das asas — algo impensável em forças aéreas minimamente preparadas para o combate. A situação se agrava com a ausência dos mísseis IRIS-T, da alemã Diehl — justamente o míssil WVR, Within Visual Range (Alcance Visual), escolhido para equipar o Gripen E — que não foram entregues, possivelmente em função de restrições de exportação.
Nesse contexto, a única capacidade real de combate ar-ar da aviação de caça brasileira passa a se concentrar nos mísseis Meteor, integrados ao Gripen E. Sem eles, os caças mais modernos da Força Aérea estariam, na prática, completamente “sem dentes”, incapazes de exercer superioridade aérea de forma crível. O resultado é claro: o Brasil possui aviões de combate modernos, mas não dispõe de um conjunto equilibrado e disponível de armamentos — em quantidade e validade — para empregá-los de forma efetiva em todo o espectro de combate.
No mar, a realidade não é mais tranquilizadora. As novas fragatas da classe Tamandaré, apresentadas como símbolo da renovação naval brasileira, enfrentam um problema básico e constrangedor: não possuem munição disponível para seus canhões de 76 mm, reflexo direto da falta de orçamento. Na prática, isso transforma navios modernos em plataformas de presença, mas não de combate. Uma marinha que não consegue garantir capacidade de engajamento real perde sua função dissuasória e passa a operar mais como instrumento político do que militar.
No Exército Brasileiro, a situação é ainda mais grave e se aproxima de um colapso logístico. Faltam munições de todos os tipos — desde armas leves até sistemas de maior calibre. Há escassez de munição para armas coletivas, estoques limitados para morteiros e disponibilidade de artilharia restrita praticamente ao consumo anual de instrução. Os estoques de munição 105 mm dos carros de combate Leopard 1, todos os tipos, estão praticamente esgotados. Mais preocupante ainda é o caso dos modernos Centauro II: apesar da incorporação recente, esses blindados dispararam apenas em testes, sem que o Exército tenha adquirido munição operacional para seu emprego real. Ou seja, o país investe em plataformas modernas, mas não garante o mínimo necessário para utilizá-las.
A situação se agrava com a concentração de estoques em regiões sensíveis. Grande parte da munição disponível foi deslocada para Roraima, como medida preventiva diante das tensões entre Venezuela e Guiana. Embora compreensível do ponto de vista estratégico regional, essa decisão deixa o restante do território nacional ainda mais vulnerável, reduzindo drasticamente a capacidade de resposta em outras frentes.
O mais paradoxal é que o Brasil possui uma base industrial relevante no setor de defesa, com capacidade inclusive de exportação de munições. Ainda assim, as próprias Forças Armadas enfrentam escassez interna. O problema, portanto, não está na capacidade de produção, mas na prioridade orçamentária. A maior parte dos recursos da defesa é consumida por despesas obrigatórias, como salários e pensões, restando uma parcela insuficiente para investimentos, manutenção e aquisição de insumos críticos.
Em um mundo onde o consumo de munição em conflitos modernos é massivo e contínuo — como evidenciado na guerra da Ucrânia — o Brasil entra em qualquer cenário de crise já em desvantagem. Sem estoques adequados, sem reposição contínua e com cadeias logísticas frágeis, o país não teria capacidade de sustentar sequer um conflito regional prolongado, quanto mais um cenário de guerra de maior intensidade.
O Brasil ainda preserva a aparência de potência regional, com grande efetivo, programas de modernização em andamento e presença internacional relevante. No entanto, essa imagem esconde uma fragilidade fundamental. Força militar sem munição é uma ilusão — uma estrutura oca, incapaz de sustentar combate real. Se não houver uma mudança profunda nas prioridades, no planejamento e na alocação de recursos, o país corre o risco de manter forças armadas que existem no papel, desfilam em cerimônias, mas não estão preparadas para lutar.
Nota DefesaNet
Relevantes também as munições de armas leves para as tropas de infantaria e segurança. Embora as munições de diversos calibres para toda a gama de pistolas (9mm, 45mm, etc), fuzis (5,56mm, 7,62mm) e metralhadoras (.30 e ,50) são fabricados por empresas brasileiras. Com um mercado internacional aquecido nem sempre os prazos de entrega consguem ser atendidos.
Defesa Net – Edição: Montedo.com
Respostas de 14
Paióis e bolsos vazios são duas combinações explosivas.
É comp sempre falo aqui, o nosso soldado executa apenas 15 a 25 tiros na sua formação. E se engajar, não é certo que fará exercícios de tiros anuais. Mas se o fizer – situão rara – também não passará de 20 tiros.
Infelizmente, hoje só se preocupam com formaturas, apresentação da banda em shopping, cortar a grama da praça municipal, e a vida vegetativa dos quarteis.
A atividade-fim há muito foi relevada a segundo plano.
Falta de recursos! Sei. Mas não faltam recursos para diárias e movimentações a cada 12 meses de militares com bordados na lapela.
Errata: …relegada a segundo plano.
Com a extinção dos irrelevantes cargos de PTTC sobraria dinheiro para aquisição de munição, pelo menos encartuchada, para um decente treinamento dos soldados.
concordo
Se acabar com as inúteis temporadas hípicas e torneios de pólo (e consequentemente, os rCG), ajudaria muito a poupar recursos para serem usadas para compra de munições.
Precisamos de mais dinheiro…temos bundas e barrigas pra sustentar.
Só lembrando que o submarino será “sabor” nuclear, suas armas serão convencionais.
“O problema, portanto, não está na capacidade de produção, mas na prioridade orçamentária. A maior parte dos recursos da defesa é consumida por despesas obrigatórias, como salários e pensões, restando uma parcela insuficiente para investimentos, manutenção e aquisição de insumos críticos.” essa falácia de tentar misturar investimento com despesas obrigatórias é muito irritante, ou o jornalista é inocente e não sabe do que fala, ou está tentando dizer que basta cortar salários e pensões e o problema está resolvido. Na verdade o problema do orçamento das FFAA é que a cada ano ele é menor e, o que sobra, só paga salários e pensões, a solução simples seria aumentar o orçamento.
Plano de reserva remunerada voluntária já. Incorporação e formação de temporários em larga escala. Reformulação administrativa. Sem renovação do PTTC.
E mesmo que os paiois estivessem cheios, são obsoletos e instalados em pontos que virariam alvos fáceis para a Artilharia Peruana.
Não existe soberania sem Forças Armadas BEM Equipadas e bem pagas!!
O resto é retórica de idiota!
Não são somente paióis vazios… O bolso das praças segue a mesma saga… Bolsos vazios e sem qq tipo de reajuste acima da inflação desde 2016… Nossos comandantes militares e seus oficiais encheram seus bolsos e esqueceram da instituição e de seus subordinados… O governo Bolsotrevas prevendo um golpe e fixo na teoria de que um Cabo e um soldado eram suficientes para isso… Renegaram as necessidades da força no que tange as diversas classes de suprimento e tbm as necessidades de seus recursos humanos… O chamado chão de fábrica… Aqueles que realmente carregam o piano… O resultado está aí… Forças Armadas sucateadas sem investimentos significativos… Generais no Olimpo da pirâmide… Oficiais satisfeitos… E a tropa concentrada no alicerce da pirâmide… Literalmente espremida… Carregando todo o peso das mordomias dos senhores da guerra… Exército brasileiro… O melhor Exército do Brasil…
Nao se preocupe não. Daqui a pouco tbm faltará mao-de-obra especializada para operar o pouco de equipamento disponível.
I, 4 bilhão em gastos do cartão corporativo até o início de 2026 do atual desgoverno, sendo a maioria em sigilo. O próprio ministro da defesa deu declaração de que “O Brasil não vai se armar”. Defesa nunca foi prioridade, vamos parar de demagogia barata!