Atuação plena de mulheres na Marinha marca nova era nas Forças Armadas

A soldado Stephany da Silva em treinamento: ela pode se tornar a primeira mulher a entrar para a qualificação de Operações Especiais da Marinha — Foto: Marinha do Brasil

A inclusão feminina na corporação começou há 45 anos, quando a Marinha criou o Corpo Auxiliar Feminino da Reserva

Júlia Cople
Aos 20 anos, a soldado Stephany da Silva, dos Fuzileiros Navais, pode se tornar a primeira mulher a entrar para a qualificação de Operações Especiais da Marinha — um dos últimos cursos até pouco tempo atrás restritos aos homens. A formação faz parte do último degrau de inclusão feminina na corporação, a primeira entre as Forças Armadas do país a permitir a atuação plena das mulheres. Agora, elas podem operar submarinos, mergulhar e integrar missões de alto risco, como infiltração em território inimigo e contraterrorismo.

Stephany já concluiu o pré-teste físico e passa por exames de saúde antes de outra prova de esforço, em fevereiro. Será a última etapa seletiva para o curso, que inclui de instruções de combate — como atividades aquáticas, marchas e visão noturna — a orientações de primeiros socorros, topografia e manejo de armas.

— Embora ainda não tenha uma referência feminina direta, estou ciente de que o curso exigirá grande preparo físico e psicológico. Reconheço as diferenças fisiológicas entre homens e mulheres, mas encaro como um desafio a ser superado. É superar meus limites e mostrar que é possível manter o alto padrão do curso sem que minha presença comprometa sua mística, tradição ou nível de exigência — diz.

Início da inclusão
A inclusão começou há 45 anos, quando a Marinha criou o Corpo Auxiliar Feminino da Reserva. Maria Cecília Barbosa se lembra de ver, pela TV, as primeiras mulheres fardadas. Na época, decidiu mirar outro sonho, a Medicina, e só anos mais tarde descobriu que poderia ser médica militar. Em 1995, iniciou a carreira no Hospital Marcílio Dias, o principal da Força, para onde retornou em abril, como diretora.

Maria Cecília conta que precisou lidar com desafios como o de comandar o Hospital Naval de Salvador durante a pandemia de Covid-19. Nem mesmo quando Dalva Mendes se tornou a primeira oficial-general da Marinha, em 2012, pensou que chegaria ao generalato. A promoção veio em 2023: a primeira contra-almirante negra.

— A instituição foi crescendo com a sociedade. A gente sabe que as primeiras turmas de mulheres, dos anos 1980, sentiram discriminação maior. Elas deixaram a casa mais estabilizada — avalia. — Nunca sofri assédio por ser mulher nem negra; às vezes, percebo um estranhamento. É velado. Mas a hierarquia e a disciplina são pilares da instituição. Se estou na chefia, o subordinado deve respeitar.

Maria Cecília destaca que o apoio do marido, que muitas vezes precisou abrir mão da vida profissional, foi fundamental para conciliar a ascensão com a criação dos filhos, hoje com 25 e 20 anos. Este ano, a Marinha promoveu quatro mulheres a contra-almirante, inclusive a geriatra Gisele Mello, morta meses antes baleada durante uma operação policial no Rio.

Também este ano, as segundos-tenentes Isabela Amorim, de 27 anos, e Helena Moraes, de 25, começaram o curso para serem as primeiras aviadoras da Marinha.

Criada em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, onde há uma base da Força Aérea Brasileira, Isabela pegou gosto pelo voo ao participar de um churrasco com controladores e embarcar num helicóptero. Como já havia prestado concurso para a Escola Naval, achou ter perdido o filão.

— Mas, quando entrei na Marinha, descobri que tinha aviação. Eu me inspirava nas veteranas por serem ótimos exemplos, mas elas não iam fazer a carreira que eu queria. Você não sabe como é pilotar até pilotar. Cada voo é uma avaliação. Tem que treinar o corpo para reagir da forma correta — diz.

Isabela e Helena já aprenderam as manobras básicas e fizeram dois voos solo. Agora, se preparam para uma viagem de São Pedro da Aldeia (RJ) a Foz do Iguaçu (PR), durante a qual aprenderão a administrar a aeronave, as cartas e as comunicações.

Helena diz ter se encantado com o militarismo depois de ir a uma competição no Colégio Naval, à época fechado às meninas. Hesitou em escolher a aviação. O incentivo especial partiu do marido, seu ex-colega de Escola Naval e que hoje também estuda para ser aviador.

— O convívio sempre foi muito bom, tanto que eu e Isabela nos casamos com meninos da nossa turma. O comando sempre disse que tudo funcionava por meritocracia. Nas etapas físicas, eu pensava: “É um desafio novo para eu vencer”. Nunca facilitaram nem dificultaram as tarefas. Busco dar meu melhor porque sei que pessoas vão se inspirar. Houve outras mulheres que passaram pela Escola e não puderam seguir esse projeto, mas alguém abriria essas portas. Deus quis que fosse a gente — afirma Helena.

Ineditismo
Outras duas jovens militares se capacitaram de forma inédita, este ano, para operar o 4×4 JLTV, blindado de última geração dos Fuzileiros Navais. Em setembro, na Operação Atlas — Armas Combinadas, as soldados Ana Beatriz Lugon e Jennifer Assunção colocaram em prática as instruções sobre o veículo, voltado a ações diversas de reconhecimento, patrulha e até operações especiais.

Ana Beatriz, de 20 anos, decidiu o que queria da vida ao ver com a mãe os militares fardados, em viaturas, nos desfiles de 7 de Setembro.

— É desafiador por ser a primeira, mas eu sempre tive interesse em operar um blindado. Encaro como uma conquista e uma responsabilidade. Não represento só meu esforço, mas também o potencial das mulheres na Força. É mostrar que o profissionalismo e a competência não têm gênero — destaca ela, que pretende, “assim que possível”, aprender a conduzir o M113 (sobre lagarta ou esteiras que substituem as rodas) e o Piranha (sobre rodas), ambos de transporte de tropas e apoio a combates.

Missão de Paz
Primeira mulher dos Fuzileiros Navais a integrar uma missão de paz no exterior, no Haiti, a capitão-tenente Débora Sabino hoje coordena o curso de Operações de Paz para Mulheres, que instrui civis e militares sobre essas ações. Ela cresceu na igreja evangélica e, formada em música, passou dois anos na banda militar antes de prestar concurso para a área operacional. Foi pioneira na especialização em guerra anfíbia, que forma comandantes de pelotão de infantaria, a linha de frente.

— O treinamento era intenso. Fiz funcional, usei pesos na mochila, para aguentar. Era muito difícil para as mulheres, até pela parte fisiológica, como a menstruação. O banheiro era na mata. O psicológico também precisava estar no lugar. Diziam: “Se está com a unha pintada, seu pelotão vai pagar”. Foi um período de zero vaidade. Meu cabelo ficava arrepiado quando eu tirava o capacete. Consegui umas meias e adaptei para segurá-los, inclusive quando nadava, senão o pelotão pagava prenda — relembra.

Antes de embarcar, Débora passou por um treinamento de seis meses, com simulações e o básico do creole. Ela ressalta a importância da presença feminina.
O GLOBO – Edição: Montedo.com

Respostas de 4

  1. Cultur wolke….Essas instituições fazem de tudo….tudo mesmo para agradar a Turma. e por esses motivos que o ocidente chegou ao fundo do poço, só de adotar esse pensamento de agradar a midea. Alguns dias vamos ver Almirantes, Brig e Gen da roupa feminina.

  2. Me desculpa, mas estive no EB por 35 anos, as mulheres sempre foram protegidas, muitas fazem corpo mole, e não servem para o combate, e nem agora curso operacional, pq ela alteram os parâmetros para elas nos cursos, pela parte biológica, porém no combate não terá essa separação, em um corpo de de combate a coesão e vital, um elo fraco quebra tudo . A MB fez média com essa turma de FN feminino, mas elas não foram testadas como os homens e daqui uns anos a maioria vai embora, pq ser FN e uma dureza e ganha pouco. Fi pqdt com mulher e e não não cobradas igual a gente. Pra mim elas tem que continuar na ADM e apoio somente, a não ser que aguentem a porrada igual.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *