Soldado russo deserta, busca asilo na Alemanha e teme deportação que pode levá-lo de volta à guerra

Arnold O. A. Pinto / Shutterstock
Moscovo, 24 de Julho de 2023. Um painel digital no centro da capital russa exibe uma campanha de promoção das forças armadas do país durante o conflito armado ainda em curso na Ucrânia.

Jovem afirma que sofreu pressão, violência e foi obrigado a assinar contrato militar antes de fugir da Rússia. Agora, aguarda decisão sobre seu pedido de asilo na Alemanha.

O russo Nikita Zvezdov, de 19 anos, aguarda uma decisão das autoridades alemãs sobre seu pedido de asilo enquanto tenta evitar uma deportação que, segundo ele, pode resultar em seu retorno à Rússia e, posteriormente, ao front da guerra na Ucrânia. Convocado para o Exército em 2024, o jovem afirma que foi submetido a violência física, intimidação e pressão para permanecer nas Forças Armadas antes de desertar. Zvezdov contou à emissora alemã Deutsche Welle (DW) que nunca quis participar do conflito. Após completar 18 anos, ele recebeu a convocação militar e foi incorporado a uma unidade próxima à cidade de Ussuriysk, no extremo leste da Rússia.

Pressão para permanecer nas Forças Armadas

Segundo o relato, oficiais pressionavam os recrutas a assinarem contratos de longo prazo, o que permitiria seu envio às áreas ocupadas pela Rússia na Ucrânia. O jovem afirma que resistiu inicialmente, mas acabou cedendo após sofrer sucessivas punições e ameaças. Ele relata que os militares impunham treinamentos exaustivos e castigos físicos. Entre eles, estavam centenas de flexões usando máscara de gás e corridas com coletes balísticos carregando peso adicional. Além disso, Zvezdov afirma que alguns oficiais disparavam contra as pernas de recrutas e aplicavam espancamentos como forma de disciplina. De acordo com seu depoimento, a situação provocou um grave abalo psicológico. O jovem diz que chegou a tentar tirar a própria vida, mas foi impedido por superiores. Em seguida, afirma ter sido obrigado a assinar um contrato de serviço militar.

Fuga antes do envio ao front

Pouco tempo depois, Zvezdov recebeu a informação de que seria transferido para uma unidade posicionada próxima à cidade ocupada de Melitopol, região conhecida pelo elevado número de baixas entre militares russos. Diante desse cenário, ele decidiu fugir. Aproveitou uma licença concedida antes da transferência, descartou o uniforme militar e atravessou a fronteira para a Armênia. Posteriormente, passou pela Bósnia e Herzegovina, seguiu para a Croácia e solicitou asilo político. Antes da conclusão desse processo, porém, viajou para a Alemanha, onde vive seu avô, e apresentou um novo pedido de proteção internacional.

Regras europeias dificultam permanência

As autoridades alemãs rejeitaram inicialmente o pedido com base no Regulamento de Dublin, mecanismo da União Europeia que estabelece que o primeiro país de entrada do solicitante deve analisar o processo de asilo. Como Zvezdov registrou sua primeira solicitação na Croácia, a responsabilidade pelo caso permaneceu com aquele país. Pelas normas europeias, a Alemanha teria até o fim de julho para efetuar a transferência. Caso isso não ocorra dentro do prazo, a responsabilidade pela análise passa automaticamente às autoridades alemãs. Enquanto aguarda esse desfecho, o jovem conseguiu abrigo por meio do chamado asilo eclesiástico, modalidade em que instituições religiosas acolhem temporariamente pessoas ameaçadas de deportação. Embora não tenha respaldo legal específico, esse mecanismo frequentemente leva o Estado alemão a suspender temporariamente a remoção do solicitante e reavaliar seu caso.

Chances de reconhecimento são reduzidas

Organizações de direitos humanos afirmam que desertores russos enfrentam crescente dificuldade para obter proteção internacional na Alemanha. Segundo Alexey Kozlov, integrante da organização Solidarus, a maioria dos pedidos tem sido rejeitada sob o entendimento de que os requerentes não demonstram risco individual suficiente de perseguição caso retornem à Rússia. O Escritório Federal de Migração e Refugiados da Alemanha (Bamf) informa que cada processo é analisado individualmente e que o status de refugiado somente é concedido quando existe comprovação de ameaça concreta e pessoal.

Relatos apontam abusos contra desertores

Diversos relatos reunidos por organizações independentes e pelo veículo russo Astra indicam que militares russos acusados de deserção ou de se recusarem a combater têm sido enviados para centros clandestinos de detenção em áreas ocupadas da Ucrânia e também em território russo. Segundo essas denúncias, soldados são submetidos a espancamentos, torturas, privação de alimentos, extorsão e outras formas de maus-tratos antes de serem novamente enviados às linhas de combate.

Futuro permanece incerto

Atualmente abrigado em uma igreja próxima à cidade alemã de Aachen, Zvezdov trabalha na manutenção das instalações e auxilia na cozinha enquanto aguarda a definição de seu processo. Caso o pedido de asilo seja definitivamente rejeitado, ele afirma que tentará buscar proteção em outro país fora da União Europeia. Segundo o jovem, retornar à Rússia significaria enfrentar prisão, punições militares ou o envio imediato para a guerra na Ucrânia. Fonte: Deutsche Welle (DW).

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