Oficial da reserva após 35 anos de serviço, compositor soma mais de 200 sambas, quase dez Estandartes de Ouro e chega a 2026 como um dos nomes centrais do Grupo Especial do Rio
Durante mais de três décadas, o Exército Brasileiro conheceu apenas o Capitão Cláudio Malheiros, oficial disciplinado, cumpridor rigoroso dos regulamentos e da hierarquia militar. O que poucos colegas de farda sabiam é que, fora dos portões do quartel, o capitão assumia outra identidade: Cláudio Russo, um dos compositores mais premiados do Carnaval carioca, com mais de 200 sambas assinados e quase dez Estandartes de Ouro no currículo.
A separação entre as duas trajetórias sempre foi absoluta. “O Cláudio Russo nunca entrou no quartel. E o Capitão Malheiros nunca entrou na quadra”, resumiu o compositor em entrevista ao Agenda do Poder. Segundo ele, a opção pelo silêncio era estratégica. “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Não havia motivo para misturar”.
Russo ingressou no Exército ainda jovem, motivado menos por vocação e mais pela necessidade. Filho de família pobre e com facilidade para os estudos, viu na carreira militar uma oportunidade de estabilidade e ascensão social. “O Exército é uma instituição de Estado, com regras rígidas, disciplina e tradição. Eu cumpri isso à risca”, afirma. Ao longo de 35 anos de serviço ativo, nunca faltou, nunca pediu dispensa para compromissos artísticos e jamais usou o samba como justificativa para flexibilizar obrigações militares.
A rigidez da caserna contrastava com sua identidade fora da farda. Progressista, praticante de religiões de matriz africana e sambista atuante, Russo se define como um militar “fora da curva”. “Sou militar com três características que 99% deles não são: sou progressista, macumbeiro e sambista. Tinha tudo para dar errado”, diz. Para ele, manter os dois mundos separados foi a única forma de preservar ambos.

Hoje capitão da reserva, aos 53 anos, Russo afirma viver uma nova fase. “Sou um privilegiado num país em que poucos conseguem se aposentar com salário integral”, diz. Com mais tempo disponível, ele chega ao Carnaval de 2026 com ambição renovada e foco total no samba.
Neste ano, Cláudio Russo é um dos responsáveis pelo samba-enredo da Paraíso do Tuiuti, escola que desfila no Grupo Especial do Rio de Janeiro na terça-feira, 17, abrindo o último dia de apresentações na Marquês de Sapucaí. A obra, intitulada “Lonã Ifá Lukumi”, aborda a travessia da tradição iorubá até Cuba e o surgimento da Santería, religião preservada por africanos escravizados.
Ao lado de parceiros como Gustavo Clarão e do historiador Luiz Antônio Simas, Russo assume novamente a responsabilidade do samba encomendado — formato que, segundo ele, impõe cobrança ainda maior. “Na disputa, se você perde, acabou. Na encomenda, não. Existe um compromisso moral com a escola. A responsabilidade dobra”, afirma.
Com pós-graduação em História da África e Cultura Afro-Brasileira, Russo destaca que sua facilidade em abordar temas afro-religiosos vai além da formação acadêmica. Criado em um terreiro de Umbanda, neto de mãe de santo e filho de ogã, ele afirma que a vivência pessoal é a principal fonte de inspiração. “As pessoas acham que o samba afro bom surge do nada. Não surge. Ele vem da vivência”.
Apesar da trajetória consagrada, o compositor mantém um olhar crítico sobre os rumos do Carnaval. Para ele, o samba-enredo não deve se transformar em tratado acadêmico. “Carnaval é popular, é democrático. É onde o servo vira rei e o rei vira servo”, diz. “O samba ensina quando fala a língua do povo”.
Do adolescente tímido que fazia paródias na escola ao capitão do Exército que se tornou referência no Grupo Especial, Cláudio Russo construiu uma trajetória rara no país. Entre a disciplina da caserna e a liberdade da quadra, segue motivado. “Enquanto existir uma sinopse e vontade de escrever, eu continuo feliz”.
Leia a entrevista completa: Agenda do Poder
Respostas de 5
Isso é o que eu chamo de cultura inútil.
Exatamente
A inveja é uma merd@.
Até o capitão faz bicos kkkkk
Tá certo…. progressista….Huumm…mortadela detectado