‘Fizeram pouco caso’: mãe relata abandono e desconfiança após mørtε do filho no Exército

Jean Carlos Franco, de 19 anos, estava em seu segundo ano no Exército | Foto: Arquivo pessoal

 

Mãe cogita hipótese diferente de conclusão do Exército

Atenção: esta reportagem trata de saúde mental e suicídio — o que pode gerar gatilhos. Caso você não esteja bem e precise conversar com alguém, a Ponte recomenda entrar em contato com o Centro de Valorização à Vida (CVV), que funciona 24 horas e pode ser acionado através do telefone 188 (ligação gratuita) ou a partir deste site. Você ainda pode buscar uma unidade de saúde mais próxima da sua casa por meio do Mapa da Saúde Mental.

Paulo Batistella
Adriana Franco Alves Martins, de 51 anos, diz que a morte do filho caçula lhe exigiu um longo processo de silêncio e luto. Aos 19 anos, Jean Carlos Franco Alves Martins foi encontrado morto na guarita [do Arsenal de Guerra de São Paulo] em Barueri, na região metropolitana [da capital paulista], em 26 de março de 2022.

Uma investigação do próprio Exército concluiu ter se tratado de suicídio. A mãe do jovem, no entanto, carrega desde então uma desconfiança nessa versão e uma sensação de abandono pela corporação, o que só agora tem conseguido colocar para fora. “Na hora, a gente não pensa em nada, em fazer isso ou aquilo. Eu me destruí. Agora, beirando quatro anos, que eu fui ter um pouquinho mais de força para fazer algo. Eu não tinha essa força”, conta Adriana à Ponte.

Jean entrou no Exército em 2021 para prestar serviço militar obrigatório. Após o primeiro ano como recruta, quis permanecer e já fazia planos de ingressar na Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx) ou na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). Em outros momentos, se dizia cansado com a rotina. “Ele falava que tinha gente que pegava no pé dele. O primeiro ano foi bem difícil: era muito humilhado, perseguido. Eles judiam mesmo”, diz a mãe.

Inquérito ouviu colegas de farda e requisitou perícias
Jean foi encontrado morto no Quartel do Arsenal de Guerra de São Paulo, unidade onde são guardadas armas. Na ocasião, uma manhã de sábado, ele cumpria sozinho expediente de sentinela no posto 6, uma guarita com dois metros quadrados. Colegas de farda que estavam em um alojamento ao lado se deram conta de que alguma coisa havia acontecido ao ouvirem um barulho de tiro.

Um deles se deslocou ao posto, o P6, gritando por Jean, que não respondeu. Ao subir a escada que dá acesso à guarita, ele se deparou com o colega caído, conforme registrou um inquérito policial militar (IPM) instaurado pelo Exército e obtido em parte pela Ponte.

O jovem tinha um ferimento na cabeça e um fuzil calibre 7,62 mm, de alto impacto, sobre o colo. Naquela altura, ele já estava morto, o que foi confirmado por uma equipe médica acionada para prestar socorro. O IPM afastou a hipótese de um acidente, sob o argumento de que Jean tinha treinamento para usar a arma e havia passado por uma checagem do fuzil ao iniciar o expediente.

Um laudo da Polícia Científica, vinculada à Secretaria da Segurança Pública paulista (SSP-SP) e acionada pelo Exército para colaborar na apuração, rejeitou a possibilidade de homicídio ao analisar o corpo da vítima e a guarita. “Não há elementos de ordem material que contrariam a hipótese de que houve suicídio”, aponta o documento.

Mãe cogita hipótese diferente de conclusão do Exército
A investigação também quebrou o sigilo dos dados do celular de Jean e ouviu ao menos 22 pessoas, incluindo militares do quartel e os pais do soldado. Os familiares relataram que ele não tinha histórico de depressão. Colegas de farda disseram que o jovem era tranquilo e não guardava inimizades.

Alguns deles ponderaram, contudo, que a vítima parecia triste nos dias anteriores, o que atribuíram ao término de um relacionamento. “Eles [do Exército] não quiseram debater muito. Falaram que era a família, que ele [Jean] estava brigado com a namorada, que ele estava muito triste. E eu me questiono: se ele estava tão triste, por que deixaram ele com armamento?”, afirma a mãe.

Adriana diz que, além da conclusão do caso, o tratamento dado pelo Exército deixou uma sensação de injustiça. “Foi bem seco. Foi uma coisa assim: eu não tenho nada a ver com isso, aconteceu e acabou. Foi como se fosse, Deus me livre, um lixo. E acabou”, diz. “Depois disso, o Exército desapareceu. Não fizeram contato nenhum, fizeram pouco caso. A gente que precisou fazer contato.”

Ela cogita que o filho, metódico e disciplinado, possa ter sido morto ao testemunhar algo indevido no quartel, embora não tenha evidências disso. “Eu não acredito no que aconteceu. Eu peço a Deus por justiça, mas a gente vê que isso sempre volta a acontecer”, diz Adriana, que, em seu processo de luto, conheceu outras pessoas que perderam entes no Exército — é o caso de Juliana Korosi Paiva, de 40 anos, que também contesta a versão da instituição de que o filho, o soldado Christian Paiva Korosi, de 19 anos, morreu por suicídio em um batalhão em São Paulo, conforme mostrou a Ponte.

Estudos indicam preocupação crescente com suicídios no Exército
O Exército não divulga ativamente números sobre suicídios na tropa, mas estudos sobre o tema têm dado conta de que esse é um problema crescente. De 2010 a outubro de 2016, houve 107 casos, conforme identificou um artigo publicado na Revista Interdisciplinar de Ciências Aplicadas à Atividade Militar, da Escola de Formação Complementar do Exército e Colégio Militar de Salvador (EsFCEx/CM), a partir de dados cedidos pelo Gabinete do Comandante do Exército.

Um outro artigo publicado na Revista Eletrônica Saúde Mental Álcool e Drogas (SMAD), da Universidade de São Paulo (USP), estimou em 25,7% a prevalência de transtornos mentais comuns (TMC), como ansiedade e estresse, em um grupo de militares brasileiros selecionados para a pesquisa. O índice foi considerado elevado se comparado até com a condição de agentes em guerra.

“Eles [os militares] constituem uma população mais vulnerável e suscetível à apresentação de sofrimentos psíquicos, mesmo em tempos de não guerra, visto que seu processo de trabalho diário exige alto grau de disciplina, exposição a um cenário de constante risco, pressão, tensão, disponibilidade 24 horas e cobrança institucional”, escreveram as autoras da pesquisa amostral.

Já um estudo mais recente, de 2025, elaborado na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), identificou que, apenas na 1ª Região Militar, a maior entre as 12 divisões territoriais do Exército, houve sete casos de suicídio e outras 40 tentativas entre 2023 e 2024. A mesma publicação reconheceu um patamar elevado de afastamentos por transtorno de adaptação a cada ano — o problema foi mais recorrente entre cabos e soldados, geralmente jovens e em início de carreira.

Ocorrências no Exército se assemelham a problema nas polícias
A Ponte tenta obter, desde novembro do ano passado, dados mais recentes sobre suicídios na corporação, por meio de um pedido via Lei de Acesso à Informação (LAI). Em resposta, o Serviço de Informações ao Cidadão do Exército alegou não registrar a causa das mortes envolvendo militares em sua Base de Dados Corporativa de Pessoal (BDCP) — a reportagem ainda recorre da negativa.

Também a partir de trabalhos acadêmicos, é possível ao menos saber que o interesse sobre o tema dentro do Exército tem sido crescente. Uma pesquisa feita na Escola de Saúde do Exército identificou um aumento do número de publicações sobre o assunto a partir de 2016, ano em que a corporação lançou um Programa de Valorização da Vida (PVV), voltado para prevenção de suicídios. A maioria dos autores dos estudos guarda vínculo com a própria instituição, conforme mostrou ainda o levantamento.

Coordenadora-adjunta da área de ensino e pesquisa do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (Ippes), a socióloga Fernanda Novaes Cruz diz que a ocorrência de suicídios no Exército se assemelha em certa medida à realidade das polícias militares. O Ippes tem produzido desde 2016 estudos sobre o comportamento suicida entre agentes de segurança pública.

“Um primeiro parâmetro de semelhança é o fácil acesso ao meio que esses profissionais têm [armas de fogo]. Na Polícia Militar, a maior parte das vítimas também é de jovens de baixa patente. E há uma série de questões organizacionais: a própria estrutura militarizada é um fator de risco no caso dos policiais militares, e isso pode acontecer também nas Forças Armadas. Nos casos que acompanhei das Forças Armadas, aparecem ali esses ciclos de treinamento extenuantes e práticas de humilhação. Então, esses aspectos são muitos semelhantes [com o que ocorre nas polícias]”, afirma.

Entidade defende ações de posvenção e transparência ao acolher famílias
Fernanda diz ainda que o Ippes reconheceu, a partir de estudos sobre suicídios de policiais no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, a necessidade não só de políticas públicas de prevenção, mas também de “posvenção” — práticas que acolham familiares e colegas das pessoas mortas após o ocorrido. Uma diretriz fundamental nesse sentido é a transparência na investigação das causas desses óbitos.

“A morte por suicídio é cheia de tabus, e esses tabus se reproduzem de várias formas, como em questionamentos de pessoas próximas: o que aconteceu? Por que aconteceu? A narrativa de fato é essa? Nesse estudo no Rio, tivemos casos em que um familiar de uma vítima acreditava ter sido suicídio enquanto outro achava ter sido homicídio. Isso mostra para gente que existe uma demanda pelo esclarecimento dessas mortes, e, ao mesmo tempo, nem sempre essas instituições têm o ímpeto de investigar esses casos e também de comunicar as famílias sobre os desdobramentos”, diz.

“As instituições ainda falham muito nas ações de posvenção para as pessoas que foram afetadas por aquela morte. Isso é muito importante inclusive para evitar novos casos, porque a ocorrência de um suicídio é um fator de risco para outros, tanto de um familiar, quanto de colegas. Isso ainda é algo muito tímido dentro das instituições. Elas fazem campanhas de prevenção, mas vemos menos isso no caso da posvenção e no que tange os familiares. É uma morte que muda a dinâmica da família, então a transparência e a comunicação adequada com os familiares faz muita diferença.”

Família pede reabertura do caso
Para a mãe de Jean, mesmo quase quatro anos depois, a vontade é de que a investigação sobre a morte do filho seja reaberta. “Sinceramente, é o que eu gostaria, mas não sei se é possível pelo tempo que passou. Hoje, eu me sinto mais forte para lutar e saber realmente o que aconteceu”, diz Adriana.

E ainda que isso não seja possível, ela diz acreditar que preservar a memória de Jean pode ajudar a evitar que casos desse tipo se repitam no Exército. “Eu não quero que isso aconteça com outros rapazes. Alguém tem que fazer alguma coisa, parar com isso. É um lugar que a gente pensa que a pessoa vai entrar para sair alguém melhor e ter um futuro, mas ela sai de lá em um caixão. Não pode acontecer isso.”

A Ponte questionou o Exército e o Ministério da Defesa sobre em quais circunstâncias o caso poderia ser reaberto. Perguntou também o que a instituição faz para prevenir ocorrências deste tipo e acolher familiares de vítimas após episódios de suicídio. Ainda não houve retorno.
ponte – Edição: Montedo.com

Respostas de 13

  1. Essas mamães deveriam ser contratadas para trabalhar como peritas, legistas e investigadoras, pois são gastos milhões com equipamentos e formação de profissionais, mas uma mãe, através de sua intuição feminina, é capaz de colocar em xeque todo e qualquer trabalho realizado de forma técnica. No mínimo algum “devogado” de porta de cadeia do estilo “dura lex sed lex” deve tê-la procurado e dito que dá para ganhar uma indenização gorda da instituição.

    1. Comentário infeliz este seu. Cuidado com a Lei da semeadura. O Senhor já perdeu um filho (a). Uma dor que não desejo para meu maior inimigo. Abrir o guarda roupas e ver as coisas seu filho (a) e saber que ele (a) não voltam mais. Seu “postulão” A mãe esta certa. Estude e seja Advogado também.

      1. Ui, mexi com você, Devogado? Está me mandando estudar igual você fez, formando-se no EAD da UNIESQUINA? Não tenho medo da lei da semeadura e quem pode me julgar através dela é Deus e não você. Vá lá “devogar” para ela então, contra a Instituição que te acolheu. Além disso, quando for perguntar algo não esqueça de usar a interrogação. Respondendo tua pergunta, não perdi filho algum, mas caso algum dia eu tenha a infelicidade de perder algum por causa de suicídio, primeiro vou analisar minhas falhas como pai antes de culpar a escola, o Exército, a Xuxa ou os Bananas de pijama.

  2. Entendemos a dor dessa mãe, mas essa conspiração de ter visto algo errado e ter sido alvo de um “suicídio simulado” é coisa de civil rememorando cenas que viu em filmes.

    A verdade – que muitos familiares não querem enxergar – é que essa geração de jovens e adolescentes são muito dependentes e “frágeis”.

    Os pais não estão preparando seus filhos para superar obstáculos naturais da vida como desilusões amorosas, frustrações de expectativas no trabalho, insucesso em seleções para cursos e vagas de emprego, etc, etc.

    É comum assistirmos exemplos de pais que vão à escola brigar com professores e diretores porque seus filhos tiraram notas baixas!?

    O pior é que no final a família não quer aceitar que é causa desse resultado. Insiste sempre em apontar um terceiro como culpado.

    Enquanto esse círculo vicioso não for rompido, infelizmente veremos esse triste resultado se repetir cada vez mais.

    1. A família está dentro do círculo vicioso em que a terceirização se responsabilidades traz alívio, minimizando o sofrimento.

      Gente frágil e desestruturada emocionalmente é terreno fértil para todo tipo de sofrimento e, para elas, o mundo é injusto, cruel e conspirador.

      Talvez, não haja solução.

  3. Meus sentimentos a essa mãe.
    E fica o exemplo pra nós todos que o suicídio não resolve os problemas, mas apenas passa o problema para as pessoas que nos amam.
    Qualquer problema que a gente tenha não é maior que a dor que uma mãe ou um pai sobre com a morte de um filho.
    Por isso temos que procurar ajuda quando tivermos esse tipo de pensamento.

  4. A Força não se preocupa com o bem estar mental dos jovens Soldados. São tratados como massa de manobra, apenas mais um.

    Por outro lado, há preocupação com o bem estar de Oficiais golpistas, condenados pela justiça, atualmente presidiários.

    1. Onde estava o Adjunto de Comando? O Sargento Comandante de GC para conversar com seu Grupo. Não Duvido que estavam no alojamento no zap. O Tenente e Sargento não conversam, não olham mais no olho do subordinado, nem tem como pois inventaram um gorro pala mole que parece mais boné do que uma cobertura. O gorro dobrado tapando o olho. O bom comandante de qualquer fração tem que conhecer seus homens, por isto no combate existe o “fogo amigo”.

      1. Cara, ele era maior de idade, já pode beber, fumar, fazer sexo e dirigir, não é filho do Cmt GC ou Adj Cmdo e estes não possuem bolas de cristal. No mínimo você é um indivíduo que não cuida do próprio traseiro, mas acha que os superiores hierárquicos tem o dom da clarividência, sendo capazes de adivinhar os sentimentos alheios. Leia a matéria e veja que a própria mãe e os amigos disseram que o rapaz nunca deixou transparecer ideações suicidas. No mínimo você tem inveja da função exercida pelo Adj Cmdo e fica vociferando asneiras.

  5. Independente de qualquer coisa, o recruta é tutelado do estado e mesmo no caso de suicídhio o Estado é responsável, mesmo que a autolesão não configure crime, diferente situação estaria submetido o militar do NB que seria agente do Estado, deixando de estar sob tutela.

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