Não é sobre perfeição, mas sobre não desistir: um texto que ilumina.

Allan Daniel de Paula Knop
1º Colocado geral CPOR/PA 2025
Asp Of R/2 Inf 2025

 

Em meio ao mar de mediocridade pelo qual navegam tantos militares frustrados, o depoimento desse menino é um farol na escuridão. Parabéns, Aspirante Alan!

 

Minha jornada à Aspirante a Oficial do Exército Brasileiro

Allan Daniel de Paula Knop*
Nasci em 14/05/2006 e cresci na comunidade da Lomba do Pinheiro**, em Porto Alegre. Estudei sempre em escolas públicas: ensino fundamental EMEF São Pedro, ensino médio EEEM Padre Rambo e EEEM Agrônomo Pedro Pereira.

Foi nesse ambiente, entre amigos de infância e desafios que muitos não enxergam, que comecei a ser moldado. Nunca imaginei que um dia estaria contando esta história — ainda menos como primeiro colocado geral do CPOR de Porto Alegre. Minha trajetória nunca foi sobre perfeição, e sim sobre insistir quando parecia mais fácil desistir.

Para ser sincero, não estudei para entrar no CPOR. Entrei praticamente no susto. Não tinha estratégia ou preparação. Porém, depois de iniciar o curso, percebi que, se eu quisesse realmente crescer, teria que encontrar meus próprios métodos.

Um deles foi estudar enquanto ficava de laranjeira(militar que pernoita no quartel durante a semana). A maioria dos outros alunos enxergava como desperdício de tempo; eu enxergava uma oportunidade de concentração e aprendizado. Pode não parecer, mas esses minutos fizeram diferença.

Meu Curso Básico foi no Pelotão Carcará, com instrutores de Intendência (serviço responsável pela parte logística do combate no EB) . Foi ali que, em uma noite de laranjeira comum, estudando para a primeira prova do período básico, percebi que apenas com esforço e empenho eu poderia mudar a minha vida e a da minha família. Terminei o Básico como primeiro colocado, algo que me surpreendeu.

Depois, na Infantaria (principal arma base que atua na linha de frente dos campos de batalha), a história se repetiu: fechei o ano como primeiro colocado geral do CPOR. Mas essas conquistas escondem o que aconteceu durante a jornada.

No meio do ano, sofri um acidente jogando futebol que resultou em oito pontos duplos no joelho. Na hora, pensei que tudo estava perdido. Quem já passou por lesão sabe: a dor é uma coisa; a dúvida pesa mais. Com paciência e teimosia, consegui voltar.

Fiz todos os campos (campos são exercícios no terreno que visam revisar instruções e cultivar valores essenciais na formação do militar): o Campo Básico, FIT (Operação Fibra, Iniciativa e Tenacidade) e o Infante de Ferro. Esse último dispensa comentários. É o tipo de experiência que te quebra um pouco para te construir muito.

Também tive a oportunidade de apoiar o Campo do Recruta como monitor, junto ao Curso de Infantaria. Ali aprendi lições importantes sobre liderança: como compreender pessoas, saber puxar quando necessário e, principalmente, estar junto. Liderar não é mandar; é caminhar ao lado e ajudar o outro a encontrar forças que nem ele sabia que tinha.

Ao longo do ano, participei de diversos PCI (Pedido de Cooperação e Instrução) para o CI Bld, 7º BIB, 3º BPE, 18º BI Mtz e 19º BI Mtz. Os PCI servem para ampliar nossos conhecimentos e conhecer rotinas de outras organizações militares. Cada um acrescentou algo na minha formação, especialmente no que diz respeito a trabalhar com pessoas. Já que nada no Exército é feito sozinho.

Nessa caminhada, alguns irmãos de farda marcaram minha trajetória. O Bairros — hoje Aspirante — foi um companheiro constante de estudo, principalmente quando tínhamos provas em comum. Ele seguiu para a Intendência, eu para a Infantaria, mas a parceria continuou.

O meu parceiro (canga) do Básico, o Moreno, que por motivos pessoais não pôde concluir o curso, também deixou sua marca. Dividimos peso, dificuldades e dias longos que moldam qualquer um. E o Heytor, hoje Aspirante também, que me acompanhou desde o início do Curso de Infantaria — uma amizade inesperada, mas que se tornou uma das mais fortes da minha formação.

E é impossível falar da Infantaria sem falar da união que ela exige. As dificuldades do dia a dia, o calor, o frio, as marchas, os campos, as instruções puxadas e as responsabilidades que só aumentam moldam mais do que o corpo: moldam o caráter.

Na Infantaria, a gente aprende que ninguém chega sozinho. A gente só chega porque alguém puxa junto, alguém carrega um pouco do nosso peso, alguém estende a mão quando o terreno fica mais inclinado. A camaradagem nasce na lama, na exaustão, na superação coletiva. Foi ali que muitos dos maiores laços da minha vida foram criados.

Um momento marcante foi a viagem aos Estados Unidos, como premiação pela minha colocação geral. Fui junto com o segundo e terceiro colocados, acompanhado pelos CPOR/SP, do CPOR/BH e pelo Major Costa Lemos. A viagem, patrocinada por oficiais da reserva também ex-alunos, foi a primeira vez que pisei fora do país. Conhecer lugares, culturas e conversar com militares de outra realidade abriu a minha visão de mundo e mostrou o quanto ainda há para aprender.

Hoje, meu objetivo é seguir como oficial temporário e aplicar tudo que aprendi. Levo comigo técnica, preparo e disciplina, mas principalmente caráter, humildade e o desejo de inspirar jovens da comunidade onde cresci. Cresci ouvindo que muitas coisas não eram para a gente. Hoje sei que são. Basta coragem, persistência — e que você acredite.

Minha história não é sobre ser o melhor. É sobre não aceitar ser menos do que posso ser. É sobre cair, levantar, aprender e continuar andando — às vezes mancando, às vezes com o joelho cheio de pontos — mas sempre em frente. E, se um dia eu puder servir de exemplo, que seja para mostrar que qualquer menino da Lomba do Pinheiro pode chegar onde quiser, desde que decida dar o primeiro passo.
* Allan Daniel de Paula Knop
1º Colocado geral CPOR/PA 2025
Asp Of R/2 Inf 2025

** Lomba do Pinheiro
Bairro da periferia de Porto Alegre, com elevados índices de violência

Jornal O Sul – Edição: Montedo.com

Respostas de 20

  1. Depois disso tudo. A LATAM abriu vagas para piloto e co-piloto, alem do Salário um bonus de 160 mil para o piloto e 80 mil para copiloto. A pergunta que nao quer calar, quantos oficiais da Aeronáutica Deixarão a fAB?!

  2. Pois eu entrei por necessidade mesmo e continuei por necessidades e hoje sou frustrado, desmotivado e um arrependido, porque ganho o menor salário do serviço público federal.

        1. Subtenente ASPONE, vá no Google e pesquise entrevista com militar da PM de Santa Catarina.
          Ah! Se eu fosse QESA, não seria nenhum demérito. Já você que fez um concurso de segundo grau(se é que fez – pq alguma especialidades foram promovidos nas coxas) NÃO passa de RUELÃO!

  3. Palavras de um menino que não tinha nada e agora tem um bom ”salário” sendo razão de expressão para crítica a militares frustados? Os frustados e medíocres citados na matéria seriam os militares de que sustentam cônjuge e filhos Brasil afora com uma remuneração de 6 mil reais, cujo dia a dia resume-se a formaturas, orientações idiotas e faxina para general ?

  4. Pelos comentários, percebe-se que o autor do texto tem razão.

    Muita gente frustrada por aqui.

    Vamos estudar, gente! Ler livros de qualidade.

    Sair desse binômio Bíblia x manuais militares.

    1. Eeeeee Montedo, parou no tempo né.

      Você é da época que para sair QAO era só fazer um bom churrasco para o chefe, hoje temos que fazer um concurso mais difícil que o da ESA, nos movimentar, fazer cursos, habilitar idioma, depender de conceito de cara que tem idade para ser meu filho para quem sabe, sair QAO e ganhar uma migalha a mais da casa grande.

      Enquanto isso, Policiais Militares e Bombeiros tem extra para aumentar a renda, podem dar aula em escolas públicas acumulando, tem LE, ainda tem um posto acima (pelo menos aqui no RJ) e você falando de frustração.

      Está bom para a alta cúpula, nós estamos sendo esmagados e humilhados a cada notícia e letargia que vem do alto comando.

      O nome não é frustração e sim indignação com quem deveria nos ajudar ao contrário de nos humilhar, explorar e nos vender para ficar bem com a cúpula que está no poder.

      Como diria um general, o presidente lula tem uma inteligência emocional incrível.

      Como diria outro general, eu como 11,45no almoço (que v4G4BUN0)

      Como diria o outro, para fazer formatura e carregar saco de cimento, basta chamar qualquer sargento.

      ACORDA MONTEDO, ACORDA…

      1. Falou tudo, explicou direitinho, este pessoal da antiga no qual se inclui o Montedo acha que o EB brasileiro continua o mesmo de 20, 30, 40 anos atrás. Sim, sou outro frustrado contando os dias, só estou pela carta de alforria. E digo mais, não são apenas os praças que estão frustrados, são inúmeros os pedidos de quota compulsória de oficiais manga lisa. Imagina, se não está bom para eles, o que sobra para os pracinhas.

  5. Pois é, saberá escolher um caminho melhor para seu futuro. Não é como ser militar é ruim mas, como como ser comandante por ruins.

  6. “Em meio ao mar de mediocridade pelo qual navegam tantos militares frustrados, o depoimento desse menino é um farol na escuridão. Parabéns, Aspirante Alan!”

  7. Mais um
    Vindo para uma instituicão falida com salario defasados comparado com outras categorias. Espero que Não seja tarde para descobrir isso.

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