A grande aula foi não esquecer que há pessoas por trás dos números e dos relatos
Lorena Barros
Do UOL, em São Paulo
Andar agachada para embarcar em um helicóptero, comer ração, aprender a sobreviver a um sequestro ou entrar em uma sala cheia de gás lacrimogêneo. Quando me inscrevi em um curso do Exército Brasileiro que prepara repórteres para entrar em áreas de conflito, não imaginava que viveria uma semana com a sensação de “como foi que eu vim parar aqui?”.
Se você acha que os militares são rigorosos, meticulosos e organizados, saiba que é isso mesmo: os horários são precisos, todas as possíveis perguntas já tinham respostas, as roupas e os alojamentos estavam prontos, a melhor rota do avião, de acordo com o clima, estava calculada. Recebi tudo em uma caderneta feita especialmente para os selecionados.
Do essencial ao inimaginável

Comecei treinando primeiros socorros, das prática mais úteis que aprendi: manobras de desengasgo, massagem cardíaca, transporte de pessoa ferida e torniquete para sangramento extenso (comum em áreas com minas abandonadas, mas também para baleados).
Depois, as experiências foram escalando. Com colete à prova de balas e capacete azul das Nações Unidas, caminhei por mata que explodia sempre que alguém pisava em uma mina de mentirinha. O exercício reproduz o que militares brasileiros fazem em projeto de desminagem humanitária na Colômbia.
Eu até sobrevivi, mas “perdemos” cinco de 31 colegas nessa simulação. Um deles conseguiu pisar em uma mina três vezes. Poderia me orgulhar, mas, na verdade, era uma das mais medrosas, sempre no fim da fila —o que me ajudou.

Por outro lado, topei entrar em uma câmara com gás lacrimogêneo para testar a confiabilidade dos trajes contra armas químicas do Exército. Me cobri da cabeça aos pés: luva, calça, sapato, camiseta com capuz e máscara como a da série Chernobyl.
Os trajes realmente funcionaram e não havia desconforto até sermos convidados a retirar a máscara e, imediatamente, deixar a sala.
Os segundos em que passei exposta ao gás foram suficientes para que eu ficasse maluca. Saí correndo, como orientado, de braços abertos, para que o vento levasse as partículas da minha roupa.
Ainda assim, fiquei por cerca de dez minutos com o nariz escorrendo e vontade de passar a mão no rosto, nos olhos e no cabelo, o que foi expressamente proibido.
Voo de porta aberta e ração pro jantar

Nessa altura, já havia uma relação de confiança com os militares. Isso foi essencial para entrar pela primeira vez num helicóptero, com a sensação de que qualquer erro no voo (de qualquer uma das partes) poderia custar as nossas vidas.
Ensaiamos algumas vezes: avançar abaixada no embarque, nunca sair pela parte de trás, não segurar na maçaneta na hora de subir, não deixar objetos soltos que pudessem bater na hélice. Chegamos vivos, mas me surpreendeu que eles confiassem que todo mundo entenderia e seguira as regras.
A próxima viagem inédita foi dentro do blindado Guarani. O carro, que é de fabricação totalmente brasileira, é muito imponente por fora, mas visualmente simples por dentro: uma carcaça de aço balístico que aguenta tiros de fuzil. Dentro, alguns fios e um sistema operacional complicado e cheio de sensores.
Após mais de oito horas com colete e capacete, sob o sol de 32ºC do Rio, chegou a hora de subir uma ladeira carregando um equipamento sensível a laser, que avisaria caso eu fosse atingida por tiro disparado pelos falsos inimigos armados que nos aguardavam no caminho.
Foi a quando coloquei meu treinamento de cardio para jogo e desviei das balas, dos muros e outros obstáculos de areia. Cheguei lá em cima torcendo para que me levassem embora de helicóptero de novo, mas viva. Difícil descrever o que é ver tiros sendo disparados a poucos metros de mim, ainda que em ambiente controlado: risco é assustador, o barulho é ensurdecedor e nenhum vídeo da internet vai ser capaz de mostrar isso.
Mas a grande aula foi não esquecer que há pessoas por trás dos números e dos relatos.
UOL – Edição: Montedo.com
Respostas de 6
Exército fazendo midia. Dão treinamento para civis, que talvez a maioria dos militares nunca vão ter.
Quero ver você passar uma semana com o BOPE e com o CORE RJ em uma incursão numa comunidade carioca dominada por facções criminosas.
Ficar com as Forças Armadas com tiros de festins e inimigo de araque é mole.
Você sequer se deu o trabalho de ler a matéria. Trata-se do estágio de correspondente militar que é utilizado inclusive pela imprensa para acompanhar até mesmo as incursões policiais do BOPE, que aliás treina e absorveu as táticas com o EB.
BOPE não tem nenhuma relação com as FA, São policiais, a não ser o fato de terem se espelhado, treinado e absorvido táticas militares com o Exército como foi o caso do uso do martelo e bigorna na última operação. O BOPE é uma necessidade de um estado como é o RJ e não de fruto de uma capacidade que vai além de qualquer outra instituição militar. Santa Catarina é o estado que tem menos policial por habitante e tem a menor criminalidade do Brasil.
Kkkkkkkk exercito é tipo aquela especialista em Segurança pública de cabelo laranja e óculos invertido no quesito troca de tiros
a empoderada escondia-se na fila qua qua qua