Crise na relação militar com os EUA arrisca exercícios e compras

Foto US Marines e Fuzileiros Navais do Brasil treinam em conjunto na Operação Formosa, em Setembro de 2024. foto via DVIDS

 

Exercícios cancelados e compras em risco: como fica a relação dos militares com os EUA

Aline RechmannLuis Kawaguti
As divergências políticas entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente americano Donald Trump levaram ao cancelamento de exercícios militares conjuntos e colocam em risco o comércio de armas e equipamentos de defesa – um setor no qual o Brasil é dependente dos Estados Unidos. O aumento da pressão de Trump sobre o tráfico de drogas na América Latina agravou ainda mais o cenário e militares das Forças Armadas sentem grande pressão geopolítica enquanto tentam negociar a compra de helicópteros, munições e peças de reposição.

Os Estados Unidos cancelaram uma conferência que ocorreria com membros da Força Aérea do Brasil (FAB) no fim de julho, na mesma época em que anunciaram a elevação das tarifas comerciais para 50%. No mês seguinte, o Brasil anunciou a suspensão da Operação Formosa, um exercício militar que o país faz desde 1988 e nos últimos anos tem contado com a participação de militares americanos.

Além disso, o CORE (sigla em inglês de operação combinada e exercício de rotação de tropas), uma manobra militar anual integrada que estava marcada para novembro, não deve acontecer. Ela havia sido criada em 2019 por influência do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) junto aos Estados Unidos.

O governo americano já havia enviado uma delegação menor para preparar o exercício, alegando restrições financeiras, e o governo do Brasil justificou a suspensão das manobras como contenção de despesas. No caso da Operação Formosa, o maior custo, do deslocamento de 1.600 fuzileiros e 60 veículos do Rio de Janeiro para Goiás, foi mantido, pois as tropas participaram de outro exercício sem os americanos, a Operação Atlas. Assim, de acordo com analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, a motivação do cancelamento foi mais política do que financeira.

Treinamentos desse tipo são praxe entre países aliados e, geralmente, não são interrompidos, o que evidencia o peso político da decisão. Para Adriano Gianturco, cientista político e professor do IBMEC, a fragilização da relação entre os países influenciou a suspensão. “Exercícios desse tipo costumam ser automáticos, mantidos por décadas, justamente porque representam continuidade de compromissos e tratados”, apontou Gianturco.

As suspensões ocorreram em um momento em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva viu sua popularidade aumentar, de acordo com pesquisas de opinião, por ter se colocado como defensor da soberania brasileira frente aos Estados Unidos. Ele teria dificuldade de explicar politicamente como suas Forças Armadas treinam com um país “hostil” ao Brasil.

Segundo analistas e membros da oposição, Lula teria optado por não abandonar o discurso do combate ao “inimigo externo” americano para continuar se aproveitando da alta de popularidade, especialmente em um momento em que o governo Trump intensifica ataques contra barcos da Venezuela e da Colômbia no mar do Caribe e no Pacífico por suspeita de transporte de drogas.

Para defender sua posição, Lula chegou ao ponto de afirmar que “os usuários [de drogas] são responsáveis pelos traficantes, que são vítimas dos usuários também”, mas depois decidiu se retratar. Na quinta-feira, ele também havia feito novos ataques ao dólar como moeda de comércio global.

Os Estados Unidos aumentaram ainda mais a pressão sobre a Venezuela e a Colômbia nesta sexta-feira (24) ao enviar à região o grupo de combate do porta-aviões Gerald R. Ford, o maior do mundo, e anunciar sanções ao presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e membros de sua família e seu gabinete.

Segundo analistas ouvidos pela reportagem, a decisão de Lula de manter o atrito com Trump eleva o risco de exclusão do Brasil do programa norte-americano de vendas internacionais de equipamentos militares (Foreign Military Sales, em inglês) em um cenário em que as Forças Armadas são totalmente dependentes de tecnologia e peças de reposição americanas.

Nesta semana, o Ministério da Defesa anunciou a intenção de comprar 11 helicópteros do exército dos EUA pelo valor de US$ 229,9 milhões – o equivalente a R$ 1,2 bilhão. A compra pode ser afetada por uma eventual retaliação americana e pode deflagrar uma crise ainda maior de suprimento para as Forças Armadas. O desfecho pode estar nas mãos de Lula em uma reunião com Trump, que pode ocorrer no próximo domingo, em um encontro diplomático na Malásia.
GAZETA DO POVO – Edição: Montedo.com

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